O que é História?: problematizações necessárias

Mozart Linhares da Silva

Comumente encontramos na mídia o anúncio da publicação de mais um livro sobre a história de algum município, instituição, monumento “histórico”, comunidade, história de personagens (majoritariamente probos e de moral ilibada), heróis e por aí vai. Mas o que é história? Cabe nessa área do conhecimento todas essas iniciativas, na maioria das vezes bem intencionadas, vale lembrar, de “mostrar”, “resgatar”, “reviver” o passado? Até que ponto a História feita por diletantes, curiosos e amadores tem valor efetivo? Há uma distância considerável entre aquilo que aprendemos na escola (nos ensinos fundamental e médio), o senso comum, o que diz a mídia e a História Acadêmica, a História como uma ciência, como uma forma de conhecimento controlado, metodizado e profundamente reflexivo e teórico, resultado de pesquisa e investigação pertinente, com importante papel social. Esse artigo é o primeiro de uma série que visa problematizar justamente o conceito de História e assim contribuir para um espírito mais critico, menos acomodado e esclarecedor sobre o que é a História e, sobretudo, quem é o historiador, como ele trabalha e como faz sua formação profissional. Uma série de textos que objetiva, na realidade, colocar algumas coisas no lugar certo no que diz respeito à História dos historiadores. Até porque temos em Santa Cruz do Sul um Curso de História na UNISC, que comemora 40 anos, avaliado com conceito máximo pelo MEC e que merece ser conhecido e reconhecido pela comunidade. Iniciemos pelo significado do estudo do passado. O que é o passado?
Duas posturas podem ser consideradas nesse ponto. Uma que diz que o passado existe e cabe ao historiador, através de métodos e técnicas de investigação, reconstruí-lo, sempre com a consciência de que mesmo que esse passado exista jamais será possível reconstruí-lo totalmente e verdadeiramente. O olhar para o passado é sempre um recorte, uma redução, uma focalização no tempo. Não há possibilidade de trazer o passado ao presente e sim problematizar recortes do passado. Outra postura sugere que o passado é uma construção do presente, que ele não existe a não ser que seja produzido, problematizado e criado a partir do presente, que o passado é mais a criação do presente do que o presente a criação do passado, como geralmente se diz.
O que ambas as posturas concordam é que esse passado é sempre o resultado de questionamentos do presente, realizados a partir de temáticas e objetivos específicos, manejados metodologicamente pelo historiador. Na realidade, a História não existe, o que existe é a produção historiográfica. Sem historiador não há história. Ela não está em algum lugar do passado esperando ser resgatada. É por isso que as temáticas históricas são praticamente infinitas: história política, econômica, cultural, da ciência, das idéias, das mentalidades, do imaginário, do jornalismo, da medicina, do direito, e assim vai. O que delimita esses campos e os enfoques necessários para o estudo de cada um deles não é aleatório, depende de uma série de problematizações teóricas acerca da formatação do objeto de análise. A história não é um conjunto de dados, fatos, datas, personagens empilhados e colocados em ordem. Tudo, menos isso. É necessário problematizar a “realidade”, desacomodar o que se tinha como certo e pronto. Não há história sem crise, sem deslocamentos e tremores, do contrário não seria conhecimento e sim loas. Temos que entender que a História não tem por objetivo fazer apologias e estimular ufanismos a partir da criação de uma memória e de um passado conveniente (e higienizado) a determinadas situações do presente. O objetivo da História consiste no estudo das transformações sociais no tempo, das mudanças e das crises, dos processos e desvios. A riqueza do conhecimento histórico está justamente na sua capacidade crítica e desestabilizadora do tempo presente.

Barack Obama e o triunfo da História

Mozart Linhares da Silva

A vitória nas prévias norte-americanas do “Afro/Americano/Queniano”, Barack Obama, sobre a primeira dama do Clã Clinton, impõe que se pense a sociedade da ainda maior potência mundial. O que fez de Obama, que alguns americanos já confundiram com Osama Bin Laden, um filho de pai queniano com americana branca, com educação próxima do islamismo (apreendida no tempo em que viveu na Indonésia com a mãe e o padrasto), fosse eleito a concorrer a Presidência da República por uma das sociedades mais racistas do mundo? Uma sociedade, vale lembrar, atormentada por uma política baseada no medo e no terror cuja fisionomia é a do islã. Considerando que apenas 10% do eleitorado norte-americano são “negros”, podemos sugerir que Barack foi eleito por um eleitorado branco, democrata e certamente pertencente à parte mais cosmopolita da sociedade norte-americana, mas um eleitorado que precisa ser entendido. Como disse Pompeu de Toledo, na revista Veja de 11 de junho, “um negro com chance de ganhar a Presidência dos EUA é um evento raro como o risco de um cometa no céu. É uma pirueta histórica, no país cuja crônica, até outro dia, incluía a proibição dos casamentos mistos, a Ku Klux Klan e os jardins públicos proibidos para negros e animais”. E realmente é um evento que merece atenção.

Em que pese a habilidade de Barack em montar um discurso de campanha que contornasse as questões raciais, que não desagradasse aos republicanos moderados e as elites econômicas, que permanecesse num território de poucas afirmações contundentes e distante de qualquer categoria irrefutável, Barack é negro. Em se tratando dos EUA, isso é um fato social e histórico relevante, pois não somente nos leva a inquirir o racismo e a organização da sociedade do norte, mas também a espreitar com mal-estar nossa assombrada “democracia racial”. Tudo bem, elegemos Lula, um homem do povo, sem grande educação e oriundo do nordeste (região alvo de inúmeros preconceitos e estigmas, por demais conhecidos). E como se não bastasse termos-lo eleito, depois de um mandato quase completo, com todos os desgastes naturais, tropeços éticos e corrupção exagerada, ainda assim “continuamos” a “adorá-lo”. Sem dúvida um caso místico de amor ao líder carismático que a muito não se via nos trópicos. Apesar disso tudo, a eleição de Lula foi um fato notável que demonstra nosso crescimento civilizatório, sem dúvida, considerando os preconceitos acima mencionados. Mas nos EUA isso tudo é diferente. Lá os negros são minoria de fato, os ódios raciais são historicamente explicitados. Somente após os anos 1970 que as Jim Crow (leis racistas) começaram a ser derrubadas pelos movimentos de contestação à segregação racial. Até essa época, banheiros públicos, bebedouros, transportes coletivos e calçadas eram separados para brancos e negros.

O fato dos EUA terem espalhado pelo mundo grupos neonazistas e as propagandas da Ku Klux Klan, e terem treinado uma polícia segregacionista e um judiciário que funcionou por muito tempo com juízo racista, deve ser levado em conta quando nos damos conta que isso tudo passou a mudar somente a menos de meio século, a menos, na verdade, de 40 anos, menos de duas gerações.

Há algo estranho no ar, estaremos mesmo frente a uma possível lição ao mundo ensinada pelos norte-americanos? O fato da negritude de Barack é contornável perante às questões políticas mais prementes legadas pelo desastrado governo Bush? Até pode. Mas, diante de Hillary Clinton, herdeira política dos democratas cuja última eleição fora duvidosamente perdida?

Teremos que esperar um pouco por respostas, mas uma coisa é certa (ou melhor, muitas coisas): um negro concorrer a Presidência norte-americana, com poderes muito além da esfera territorial dos EUA, (com poderes) globais de fato, e com chances de vitória, é certamente um dos acontecimentos mais importante das últimas décadas. Algo está acontecendo na sociedade norte-americana, e com velocidade espetacular. São muitas mudanças em pouco tempo. Ainda parece inimaginável que depois de 11 de setembro de 2001, quando o gigante se prostrou ao mundo, com as conseqüências belicistas que assistimos, com a nova nominata do mal, estereotipada na fisionomia do árabe muçulmano, do homem escuro, de barba, com olhar fanático e cínico, uma verdadeira demonização do islã; depois de tudo isso, um homem como Barack Obama está no topo do mundo político global. Esse é o tipo de caso em que a História atropela, em que a História nos embriaga com sua imprevisibilidade.

Mas tudo isso pode ser virtualizável e, sobretudo, pesaroso. O que se espera de Barack Obama? Qualquer análise que coloque a etnicidade como critério, nesse sentido, pode ser facilmente frustrada. Obama não fará um governo racial, longe disso, sua condição de afro-americano é travestida com insistência justamente pelo figurino de homem e cidadão norte-americano. Caso racializemos Obama como político exitoso que é, estaremos tomando o exótico de sua condição como fenômeno estrutural de sua política, o que não é nada útil. A negritude de Barack não o faz um homem de grandes mudanças efetivas no campo político-econômico, isso seria uma utopia ingênua frente à complexidade do mundo global. Não se pode esquecer que o braço direito do governo Bush, por exemplo, é uma mulher e, sobretudo, uma mulher negra, republicana, educada em boas escolas de brancos, defensora de políticas xenofobistas e encarregada de limpar muitas das impurezas de seu governo mundo a fora. Uma personagem que legitimava o discurso do mérito pessoal e individualista como critério de superação das dificuldades e desigualdades sociais e raciais nos EUA. A imagem construída por Barack (pois em política tomamos a imagem pelo “real”) é bem diferente, e sua trajetória pessoal demonstra isso. Talvez Barack nos ensine que estamos realmente vivendo um momento histórico cuja maior mudança seria a refutação da raça e da etnicidade como critério. Que ele erre, que ele frustre, que decepcione ou mesmo que ele faça o melhor governo da história dos EUA (caso seja eleito), mas tudo isso como o norte-americano Barack Obama e não como o afro/americano/queniano Barack Obama, homem cuja identidade étnica continuará a nos rasurar e impactar por algum tempo ainda.

SUMÁRIO

EDUNISC, 2007, 186p.

AGRADECIMENTOS
INTRODUÇÃO

CAPÍTULO I
A INVENÇÃO DA RAÇA

CAPÍTULO II RAÇA«COR NO BRASIL: AMBIGÜIDADES DO RACISMO CORDIAL
1 A invenção do Negro na República
2 Eugenia no Pensamento Brasileiro
3 O Racismo Cordial

CAPÍTULO III COR®RAÇA E “RACISMO” INSTITUCIONAL
1 Os dados do preconceito
1.1 Cor e indicadores sociais: alguns dados atuais
2 Um povo Mestiço: para além da “raça”
3 O modelo americano “One drop rule” e a racialização contemporânea do Brasil

CAPÍTULO IV EDUCAÇÃO INTERCULTURAL E ALTERIDADE: DILEMAS MULTICULTURAIS

1 Educação e diversidade no mundo contemporâneo
2 Armadilhas multiculturais
3 Por uma educação intercultural
4 Educação intercultural no Brasil

CAPÍTULO V EDUCAÇÃO E ETNICIDADE: ESTUDO DE SANTA CRUZ DO SUL - UMA COMUNIDADE IMIGRANTISTA DO SUL DO BRASIL

1 Trajetória da Pesquisa
1.1 O questionário
1.2 Os sujeitos da pesquisa e o método de análise das entrevistas
2 Identidade regional/cultural em Santa Cruz do Sul: problematizações
3 Narrativas legitimadoras e identidade comunitária
4 Como a Comunidade se narra?
5 Educação e “inclusão/exclusão” social: afro-descendentes nas escolas da região de Santa Cruz do Sul
6 O discurso docente sobre a diferença
7 Comunidades, localismos e educação intercultural: Problematizações

REFERÊNCIAS E FONTES
ANEXOS

Faculdades/Universidades Caça-Níqueis e as desigualdades sociais

Mozart Linhares da Silva
Dentre as tragédias diárias que vivenciamos no Brasil uma merece destaque pela longevidade de suas conseqüências. Este é ocaso da mercantilização do ensino superior. Da institucionalização, a partir dos anos 1990, de uma política de ensino que procura massificar o acesso à formação superior para engordar estatísticas. Um ensino, temos que ter coragem para afirmar, sem qualidade alguma, que visa o imediatismo e o baixo preço, as custas de uma sociedade carente de recursos e ávida por galgar espaços na pirâmide social. Estamos nos acostumando com a abertura de instituições de ensino superior sem qualificação e mesmo condições de chancelar seus certificados e diplomas perante um mundo cuja concorrência é pautada pela qualidade, qualificação e reconhecimento da formação acadêmica e profissional. Não basta estar num banco universitário, cumprir os créditos e se lançar ao mercado de trabalho. É preciso que esta formação seja reconhecida, que os diplomas expedidos tenhas lastro institucional e que sejam reconhecidos pelo próprio mercado. O mercado não é ingênuo. Ele sabe diferenciar os certificados e a qualidade de quem é formado por instituições compromissadas com o desenvolvimento integral do homem, técnica e humanistamente. Ele sabe que os profissionais formados por instituições mercantilizadas, com bibliotecas precárias, que não promovem pesquisa, publicações científicas, planos de carreira para seus docentes e funcionários, não merecem confiança.
A Educação superior, ao se enquadrar na dinâmica do consumo e na concorrência baseada em baixo custo e preço, no imediatismo da formação, não pode ser levada a sério. Educação nunca foi, não é, e nunca será barata. A sociedade é refém desta lógica mercantil que precariza o ensino em troca do acesso massificado aos bancos universitários, mas parece estar impotente para reagir a isso. Educação não deve ser pensada como custo mas sim como investimento, investimento a longo prazo, o que pressupõe qualidade, projetos pedagógicos consistentes, formação integral do aluno e sobretudo um projeto político de nação e não de mercado. O Brasil nos anos 1990 interiorizou e espalhou uma infinidade de cursos superiores por todo o país e isso não significou melhora da educação mas sim distribuição de diplomas. É hora de levarmos a sério uma política Federal de investimentos no ensino superior. Ele deve ser amparado por uma política Federal de ensino vinculado a projetos mais amplos, que não se renda a lógica do baixo preço mas da elevada qualificação e isso como dissemos não é barato. Do contrário formaremos um contingente enorme de pessoas diplomadas e desqualificadas sem a menor capacidade de contribuir efetivamente para um projeto de nação ou mesmo construir um futuro profissional reconhecido. Diplomas não devem ser vendidos em qualquer esquina do país. É preciso que a sociedade entenda estes mecanismos e aprenda a separar instituições austeras e comprometidas com suas comunidades daquelas que vêm as comunidades como fonte de renda a ser privatizada. Antes de entrar numa instituição de ensino superior é necessário que se busque informações sobre a qualificação dos docentes (via currículo Lattes dos docentes, por exemplo, na página do CNPQ. www.cnpq.br), sobre as revistas científicas publicadas e mantidas pela instituição nas diversas áreas do saber, sobre a estrutura logística, sobre os laboratórios, bibliotecas, e ainda sobre a posição de seus egressos. Um diploma chancelado, com lastro de uma instituição sólida, com projeto político pedagógico de longo prazo ainda é o melhor meio de validação da qualidade profissional e da garantia da prosperidade pessoal e social de um país que se quer qualificado para um mundo calcado no conhecimento. Instituições caça-níqueis contribuem para ampliar o abismo social e econômico e é preciso reagir a esta tragédia nacional que desqualifica a sociedade num contexto onde ela mais precisa ser qualificada.

A fala do corpo

Mozart Linhares da Silva


João do Rio, escritor carioca do início do século passado, escrevia acerca dos corpos marcados por tatuagens: "um corpo desses nu, é um estudo social". No olhar do observador da época, era fácil perceber o locus social desses corpos marcados, eram os lugares das meretrizes, criminosos, marinheiros, e todo o tipo da chamada gente "baixa" que perambulava entre os cortiços e becos do Rio de Janeiro. Contavam as centenas os marcadores, como se chamavam os tatuadores naquela época. "Armados" com três agulhas embebidas em graxa, tinta, pólvora, anil ou fuligem, os marcadores disputavam fregueses aos gritos pelas ruas e trabalhavam freneticamente "como as senhoras que bordam", no dizer do escritor. As tatuagens, no entanto, não eram apenas marcas borradas no corpo. Possuíam significados variados, mas majoritariamente circunscreviam as aspirações amorosas, as mandingas que protegiam o corpo (principalmente da agressão policial) e as frases de efeito que geralmente diziam respeito à situação social do indivíduo. Diz-se do marinheiro Joaquim que bordou nas costas uma cruz negra para desencorajar os "guardiões" quando o fossem sovar na prisão. Era quase uma regra para as mulheres da "rua" tatuar o nome dos amantes no braço, e eternizá-los. Quando a desilusão amorosa acontecia, logo o nome do sujeito era retirado do braço, através de uma poção a base de leite, e recolocado no calcanhar, onde seria pisado e empoeirado eternamente.
A parte os ritos da época, as tatuagens significaram desde sempre uma forma de expressão, de exteriorização, de uma escrita que se transmite pelo corpo. Uma forma de identificação. No Rio de Janeiro do início do século ser tatuado era uma forma de identidade, da pertença às "classes baixas". Uma forma também de resistência, de marcar presença ostensivamente aos olhares dos transeuntes da "boa sociedade". Portanto, as tatuagens eram uma maneira de marcar um território no próprio corpo, de existir efetivamente. O ser no lado de fora, na pele da cultura.
Podíamos considerá-la nesse sentido como a expressão da inclusão a um determinado grupo, comunidade ou classe.
Num mundo crescentemente individualista e planetário como o de hoje, as tatuagens não permitem mais considerações acerca de classes ou grandes grupos mas ainda nos permitem pensar numa forma de linguagem e de identificação, de pertença a uma tribo ou retalho social qualquer, definido a partir de códigos estéticos que se comunicam sem a necessidade de uma língua unificada. É interessante ainda pensar as tatuagens como formas de representações do tempo. Em tese, as tatuagens são perenes e revelam desejos e estados afetivos ou emocionais que deveriam durar para sempre, pelo menos quando da decisão de "marcá-las". Mas a duração tem outro sentido num mundo marcado pela velocidade, pelo indeterminismo e pelas mudanças contínuas. As tatuagens - hoje seguidas de perto pelo também tribal piercing, nos revelam um paradoxo, mas aparente. Talvez revelem ainda a possível perenidade de algumas coisas, marcas íntimas, exteriorizadas em território próprio, individualizada num corpo que resiste a homogeneidade e a norma (ou produz novas normalizações!?). Mas talvez seja interessante imaginar as tatuagens como desafio ao efêmero. Como a possibilidade da duração daquilo que resiste ao instantâneo, ao passageiro. Talvez! Se os amores já não são tão eternos, as classes não são mais em si e para si e o território se desmanchou no ar da globalização, as marcas no corpo continuam a ser uma forma de expressão mais duradoura, talvez!!!

O conhecimento mediático e a educação contemporânea

Mozart Linhares da Silva


Se há ainda alguma revolução em curso no nosso tempo, essa é, sem dúvida, uma revolução cognitiva. No núcleo desse processo está a impactante erupção de novas tecnologias mediáticas de conhecimento e informação. Os desdobramentos das transformações tecnológicas, sobretudo as informacionais, são percebidos através da aceleração e da instantaneidade com que as novas tecnologias imprimem na percepção do espaço e do tempo, inscrevendo no tecido social novas formas de deslocamento e apreensão de informações. Nesse sentido, estamos diante do estabelecimento de uma (re)leitura do significado do conhecimento, com mudanças profundas no estatuto do paradigma moderno de ciência que, estruturado no estatuto da verdade-realidade, conferia autoridade às instituições de ensino.
A sensibilização da educação frente às transformações evidenciadas no nosso tempo revela uma incapacidade de pensar a complexidade dessas transformações dentro de instituições totalizadas pelo paradigma moderno de ciência. Há, portanto, uma constatação de que a velocidade das mudanças sociais não pode ser acompanhada pela educação tal como está estruturada.
É hora de problematizar, portanto, o deslocamento da escola como espaço privilegiado do saber e aprendizagem frente às novas percepções da "realidade", noutras palavras, o lugar da educação frente à crise do conhecimento moderno.
A história da educação revela-nos as diversas crises e transformações sofridas pela instituição de ensino moderna, mas revela-nos também que essas transformações não tiraram da escola o estatuto do espaço do saber, o lugar informativo, a centralização do conhecimento e, portanto, a sua autoridade social.
Creio que pensar sobre a educação contemporânea é revelar um tempo-espaço onde o saber não mais se centraliza nas instituições de ensino. Falar sobre este tempo, o nosso tempo, é revelar mais do que problemas, é também vislumbrar um novo tempo que coabita o Cronos de nossa época, um tempo que não corre rectilineamente, como pretendiam os iluministas, mas que antes se expande.
O modelo geométrico que fundamentou a escola moderna tornou-se refractário frente às novas formas de conhecimento e percepção do mundo.
As sociedades contemporâneas vivem uma transformação acelerada de sua percepção do espaço-tempo. Não vivemos mais o tempo das horas e minutos, como até as primeiras décadas do nosso século. Não vivemos mais uma época que promete um futuro, como propunham as utopias há pouco fragilizadas. Vivemos uma época do presente, uma época da velocidade, de diminuir o espaço e subordiná-lo ao tempo. Uma época da informação, da imagem, do ecrã, da virtualidade e da Internet, para citar alguns exemplos.
Como esses novos elementos que sobreocupam nossa época interferem na percepção do mundo, do espaço, da linguagem e do conhecimento? São essas questões colocadas que podem ajudar-nos a pensar o lugar da educação na sociedade contemporânea.
A quantidade de informações que recebemos — não mais dia-a-dia, mas sim segundo-a-segundo — colocam o problema de como apreender essas informações. A possibilidade do deslocamento espacial sem, no entanto, sair do lugar, como propicia a Internet, por exemplo, transforma o comportamento e a percepção do real. Viajamos grandes distâncias, sem a percepção do espaço percorrido; suprimimos a fadiga do deslocamento pela sensação de viajar no tempo. Suprimimos os fusos-horários pela anulação da percepção do espaço. Acedemos ao real (pode-se dizer informação) a partir de mediações, do ecrã, da tela, entre outros.
Mas essa forma de deslocamento não se reduz à informática ou à tecnologia dos vídeos teleoscópicos. Basta olhar os aparelhos ergométricos. Eles permitem-nos percorrer grandes distâncias sem sairmos do lugar. Movimentando-se sem se deslocar, o homem torna-se um "pólo de inércia e a resultante é que o espaço já não se estende, o momento de inércia sucede à deslocação contínua"1. No caso do vídeo, a conquista do espaço (o chegar a outro lugar na tela), representa "a conquista do espaço como mera conquista das imagens do espaço"2. Essas imagens constituem o que Paul Virílio coloca como o espectáculo da realidade, uma realidade cinemática onde o enquadramento depende do controle da velocidade. Nesse sentido, "conhecer o nosso mundo é ver que nossa sociedade não é mais vivida de dentro, mas é sobrevoada como se fosse um espectáculo"3. A velocidade apresenta a realidade como sequência de enquadramentos e esses revelam o real como potencial, ou, como afirma Virílio, "o que vejo na natureza não existe quando estou num automóvel: é cinema, é um enquadramento dependente da mudança da velocidade"4. O veículo não se reduz ao automóvel ou a outro semelhante meio de transporte, ao contrário, o que é colocado como diferencial é a possibilidade do deslocamento espacial em velocidade quase instantânea, propiciada pelas novas tecnologias de informação.
Ocorre que esses aspectos da vida de nosso tempo substituem os nossos deslocamentos físicos e prolongam a inércia domiciliária, acarretando o triunfo da sedentarização. Passamos a conversar mais com as máquinas, nossas cúmplices, do que com os homens. Atomizamo-nos. Evadimo-nos da esfera do espaço, do território, o único lugar concreto que temos é sob nossa própria pele.
O poder de deslocamento do indivíduo e sua posição central na recepção de informações tornam a sua vida mais privada e menos pública. As correspondências e as amizades tornam-se digitais, agrupadas em bits. Não há toque nem contacto físico. Trata-se, nesse sentido, de uma nova percepção do mundo e das relações sociais e afectivas.
A informatização da vida social tornou-nos tão velozes e sedentos por essa velocidade que, se observarmos o apelo da indústria de informática, veremos que somos compelidos a equipar os nossos computadores compulsivamente. E a ilusão da lentidão dessas máquinas concretiza-se com a oferta de software cada vez mais exigente. Queremos que as nossas máquinas sejam melhores do que são realmente, fenómeno esse que McLuhan avaliou como a narcose de narciso ou Tecnofetichismo5. Esses objetos dão-nos potência e a potência das máquinas supre-nos o ego. Desejamos adquirir as melhores extensões para o nosso corpo6. Humanizamos a máquina, tornamo-la emocional e desenvolvemos, como afirma MacLuhan, "um padrão puramente psicológico de identificação narcísica com o poder de nossos brinquedos"7.
Mas como pensar o conhecimento neste mundo virtualizado e hiper-carregado de informações? Aqui reside o nosso maior problema no que se refere ao cognitivo. O conhecimento, como o entendemos, é resultado de um tempo desacelerado, de uma elaboração metódica estranha à aceleração contínua. A leitura demanda tempo e tempo, como sabemos, é um "objecto" valioso e mal controlado. O livro tem agora um concorrente potencial, não porque tenta substituí-lo mas sim porque o transcende, sobrepondo-se à escrita imagética, linear e silenciosa: os multimedias, meios pelos quais o corpo participa de forma sensorial mais abrangente. Adverte-se, contudo, que informação não é conhecimento, é um elemento a tornar-se conhecimento pela desaceleração do tempo, ou seja, pela reflexão.
A experiência deste novo tempo, que não anda mas antes se expande, revela-se na sala de aula em diversas situações e comportamentos: a expansão do tempo da festa (recreio e intervalos), a demora da organização dos alunos em "seus" lugares e o controle do minuto final da aula são comportamentos que nos mostram uma forma de manipulação e controle sobre o tempo-espaço. Alarga-se o tempo do prazer, da festa, encurtando-se o tempo do dever, do trabalho.
O sujeito, no caso da educação o aluno, coloca-se no controle da intensidade da informação que quer ou não receber. Toma o lugar do "professor": o professor, aqui, visto como uma figura apolínea, ordeira, hierárquica, contrária ao dionisíaco das relações puramente afectivas do estar juntos. Revela-se, a partir daí, uma dificuldade de obedecer às normas da escola, leia-se da sociedade.
Se a autoridade do professor estava relacionada com o saber, a perda da condição de professar esse saber unívoco revela a falência da noção de autoridade. A nossa sociedade vê o professor como um media a mais. Ele, assim como a televisão, perdeu o monopólio da informação para os outros medias. O método de ensino não acompanha a velocidade das mudanças e novidades que surgem a cada momento.
Professores inventam fetiches, transformam-se em actores para tornar as suas aulas agradáveis, ou, pelo menos, operativas. A televisão, volta e meia, mostra o professor cantor, o professor artista e outros tipos. Significa dizer que a "autoridade" é conquistada pela ludicidade e não pelo conhecimento. O professor passa a ser um ente uno tentando transformar-se em ente múltiplo.
Se consideramos, um dia, a escola como um microcosmos da sociedade, ela revela-nos hoje uma sociedade passada, impensável para a nova geração que ocupa seus assentos. Assentos, vale lembrar, que não permitem o deslocamento e a conquista do espaço-tempo.Todas essas transformações evidenciadas no nosso tempo trazem consigo uma nova forma de saber. São essas formas de saber que a escola deve compreender para tornar-se do nosso tempo.
Até há pouco, o ensino era estruturado num estatuto de verdade e certeza científicas que o colocava como a fonte de inteligência para as novas gerações. Ocorre que essa "verdade" sofreu um abalo significativo no nosso século. Desconfiamos do conhecimento como verdade acabada, pois, como afirma Boaventura de Sousa Santos, "o conhecimento é sempre a trajectória de um ponto de ignorância específico para um ponto de saber específico. E, portanto, há diferentes ignorâncias como há diferentes formas de saber"8. Vale dizer que a ciência moderna, no seu enquadramento matemático, respondia às diferentes formas de ignorância com as mesmas respostas metodológicas. Se a ciência buscava leis e certezas científicas, hoje ela incorporou a instabilidade. Exprime tão somente possibilidades9. As possibilidades, no entanto, significam a incorporação do risco em detrimento da segurança e da verdade absoluta. Nietzsche afirmava já que, "a vontade de verdade traduz uma impotência da vontade de criar"10.
A par dessas colocações, podemos inferir ainda que as novas tecnologias de informação abrem uma nova forma de relacionamento do homem com a máquina.
Até há pouco tempo os computadores eram vistos como máquinas frias, inumanas, competentes para calcular, mas incapazes de promover relações afectivas. Com o surgimento das redes de informação e de relações como a Internet e o advento dos multimedias, uma nova forma de percepção da máquina entrou em cena. Ela agora permite estabelecer relações humanas e afectivas. O computador inaugura ainda uma nova percepção do espaço do trabalho: considerado como lugar sério e apolíneo, mistura-se agora com o lúdico.
Essa emergente forma de interacção social acaba por revelar uma nova sensibilidade e percepção da realidade e, portanto, do saber. Com o advento dessa máquina lúdica, passamos a lidar mais com signos do real do que com o real. Preferimos a imagem do objecto ao objecto em si, com a sua substância e massa. Preferimos a cópia do original ao original, e ainda preferimos o simulacro (a reprodução) ao real. Lidamos com a realidade através de mediações: telas, cabos, lentes, etc. Intensificamos o real com os recursos que a máquina nos oferece, criamos um hiper-real que transforma o mundo real num mundo espectáculo. Se era na realidade que o professor estruturava seu processo de ensino-aprendizagem, onde ficam agora esses estatutos do saber e da realidade?
Frente a essas novas formas de interacção com o mundo, temos obviamente uma nova sensibilidade para com o conhecimento, o que nos obriga a (re)pensar a escola e a sua temporalidade.
NOTAS
1 VIRILIO, Paul. A Inércia Polar. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1993, p. 33.
2 Ibid., p. 353VIRILIO, Paul. "Novas Interrogações das Ciências Humanas". Entrevistas do Le Monde: Idéias Contemporâneas. São Paulo: Ática, s/data, p. 163.
4 Ibid.
5 KERCKHOVE, Derrick de. A Pele da Cultura. Lisboa: Relógio D'Água, 1997, p. 31.
6 Ibid.
7 Apud. Ibid., p. 31-32.
8 SANTOS, Boaventura de Sousa. Hermenêutica Diatópica: pela democratização do conhecimento. Registro, ano 3, n.5., mar-ago, 1996, pp. 1-4. p. 2.
9 PRIGOGINE, Ilya. O Fim das certezas: Tempo, Caos e as Leis da Natureza. São Paulo: UNESP, 1996, p. 12.
10 MACHADO, Roberto. Nietzsche e a verdade. 2. ed., Rio de Janeiro: Rocco, 1985, p 119.

Memória e Política: o entre-lugar do discurso

Mozart Linhares da Silva
O primeiro grande problema quando se busca analisar o fenômeno democrático no Brasil situa-se na definição da cultura política e sua inserção, do ponto de vista discursivo, na dinâmica democrática. O pressuposto do político como mediador entre as esferas pública e privada, como inaugurado na modernidade, possui um tempo e espaço definidos, mas é, contudo, considerado universal no jargão ocidental, como se fosse ahistórico, conforme as máximas jusnaturalistas. Mas, ao pensar sociedades como o Brasil, onde o público e o privado são recursos de retórica, onde os fluxos e refluxos entre as esferas sociais constróem pontes e vasos comunicantes incessantemente e, nesse sentido, criam uma cultura híbrida e afetiva, requer outros instrumentos de análise. O político é entidade no Brasil. E é entidade porque não rompe as esferas pública e privada, ao contrário; as (re)liga constantemente. Está mais afeito ao fenômeno religioso (ver os santinhos de campanha e as promessas sebastianistas) do que a lógica da Aufklärung.
Não vejo descrença na democracia no Brasil, vejo outra maneira de lidar com os signos da democracia, para o bem ou para o mal. Se tivermos como referência o mundo de lá, do norte, não temos democracia ou temos seu simulacro invertido, mas se olharmos pela lógica de cá, temos uma democracia "construída" sob uma tradição patrimonialista e patriarcal, calcada em relações pessoalizadas e afetivas que inflam a esfera pública com os rasgos da esfera privada. Escolhemos nossos santos conforme as pragmáticas necessidades coevas e não conforme princípios abstratos seja ao nível teológico ou político. O Brasil, ainda conforme a lógica religiosa, tem uma perspectiva em relação ao futuro como algo já inscrito, é o "país do futuro", do "gigante deitado em berço esplêndido". Nos resta esperar.
Evidentemente que, a partir destes significantes, a nossa idéia de futuro é imobilizadora conforme a lógica moderna. Sendo assim, somos uma civilização da expansão do presente, do tempo tríbio, do presenteísmo, que não mobiliza o futuro a não ser pelo locus de espera. Uma civilização sebastianista não é democrática mas contempladora, não crê na representação assim como não se deixa levar por princípios abstratos. Daí a fragilidade das ideologias partidárias em detrimento dos "programas" pessoais, personalistas e carismáticos. Daí também o multipartidarismo excessivo que revela uma hiper-diversidade de discursos que não se situam em lugar nenhum, ou melhor, situam-se no entre-lugar da igualdade-diferença, do público-privado. Em sociedades multiculturais a generalização é estéril pois acarreta na anulação dos atores sociais enquanto sujeitos específicos de existências intersticiais, conforme alerta Homi Bhabha.
Penso que temos um duplo "problema" no Brasil. O primeiro é a própria tradição da cultura política que não permitiu a configuração do político como ator efetivo na esfera pública, enquanto representação. O outro problema enfrentado é correlato a um fenômeno global: a crise do discurso político calcado na idéia de devir, da utopia redentora. O mundo pós-1960 assistiu a desagregação das polaridades ideológicas. A era Kruschev bem como a guerra do Vietnã contribuíram para isso. Direita e esquerda perderam seu significado histórico. A tendência foi a desconstrução do discurso afirmativo, do discurso ideológico.
O que sobrou para o discurso político, quando não o olhar de caranguejo, foi a estética do politicamente correto, o discurso moralizador que tenta uma estratégia transversal frente a heterogeneidade que caracteriza as sociedades contemporâneas. Este discurso, em que pese atender a demanda das diferenças, impede a diferença entre os figurinos políticos. É essa percepção que subjaz o abandono do político e por conseqüência o esquecimento, ou melhor, desmemorialização. O mundo da era migratória é um mundo híbrido que resiste, obviamente, ao chamado da igualdade como era entendida pelo estatuto do Estado-nação, pelo estatuto da fronteira. O politicamente correto pode representar, de certo modo, não uma relação saudável com a alteridade mas uma estratégia de individualização e intolerância com a diferença. Vivemos, penso, num mundo que trocou a solidariedade pela segurança. Estamos mais para Hobbes que para Rousseau.
O que é importante ressaltar é que esta crise global do discurso e locus do político não é percebida como uma grande ruptura no Brasil. A própria tradição política brasileira assimilou esta crise com "tranqüilidade" pois vinha nos adequar numa (a)normalidade que já tínhamos. Não se produziu no Brasil um monstro político ao estilo Le Pen, ao contrário, se produziu discursos dóceis, carismáticos, pessoalizados, híbridos, transversais.
Mesmo os discursos afirmativos e propositivos de partidos ideologicamente mais estruturados são atingidos por esse fenômeno da desconstrução do político, pois, caso contrário, as estratégias de acesso ao poder se tornariam refratária ao apelo plebiscitário/midiático. Sendo assim, o próprio discurso afirmativo não resiste à banalização discursiva. Suas bandeiras são constantemente erguidas por adversários, o que torna confusa a identificação ideológica. A dificuldade de partidos propositivos situa-se justamente na necessidade de diferenciação, no deslocamento do lugar comum ou ainda no contorno da banalização discursiva. Um discurso que consegue vencer esta dificuldade e assim afirmar-se doutrinariamente, entretanto, enfrenta outra dificuldade, de maior dimensão: a escuta. O fenômeno da fragmentação discursiva do político não é outra coisa senão a estratégia de partir da escuta do outro. Deste outro plural, heterogêneo e não mesurável do ponto de vista da universalização. Isso significa, para usar uma metáfora, que o discurso político atual tenta compor a música a partir da dança.

TROPA DE ELITE, PEGOU GERAL!!!, MAS TEM UM PREÇO!!!



Mozart Linhares da Silva
E-mail: mozartt@terra.com.br
Publicado em 04/02/07 na Gazeta do Sul

Não há como calar frente as matérias veiculadas pela Revista Veja sobre o filme Tropa de Elite, em 17/10/2007. É sem dúvida o conjunto de matérias mais conservador, enganador e truculento publicado nos último anos sobre a questão da violência. E o objetivo é simples, responder/atacar os jornalistas e intelectuais que opinaram criticamente sobre o filme. O maniqueísmo do filme bem como das matérias da Veja são evidentes e até escandalosos. Poderíamos até sugerir mal-intencionados. Um exemplo claro é a matéria Especial intitulada “A realidade, só a realidade” (p. 80-83), onde se diz claramente que o êxito do filme é mostrar que: “Bandidos são bandidos, e não ‘vítimas da questão social’” (p. 82), banalizando toda e qualquer reflexão sobre a violência, as desigualdades e as hierarquias sociais no país. Por sinal, o filme jamais explicita o racismo na ação do BOPE, como no livro Elite da Tropa, no qual foi baseado. As questões sociais, portanto não podem ser pensadas como causas da violência; contudo, no mesmo texto se afirma sobre o “capitão Nascimento”, que pratica torturas e violências de todo gênero, que ele é um “ser humano devastado. Sofre de síndrome do pânico, consome vorazmente remédios de tarja preta e suas explosões freqüentemente resultam em ações que extrapolam o manual do BOPE”. Bem, aqui as questões sociais, o cotidiano violento e miserável vivido por um policial é causa da violência, quando não sua justificativa cabível. Ora, a Revista Veja está claramente usando dois pesos e duas medidas, atacando irresponsavelmente os analistas e mesmo os acadêmicos que se dedicam a estudar a violência no país. Intelectuais, vale lembrar, que não são os estereotipados no filme. A Revista, faz do senso comum, imerso na passionalidade e na brutalidade cotidiana das grandes metrópoles do país, a baliza reflexiva para apontar a solução para o problema da violência, qual seja, eliminar os bandidos, estes seres inumanos, de anormalidade inata, tipos sociais que optaram pela violência. Há ódio nestes textos, uma catarse direcionada contra a academia, os intelectuais, os idealistas e todos aqueles que tentam pensar a violência contornando os paradigmas da própria violência. A ira de Reinaldo Azevedo, por exemplo, autor de um dos textos, intitulado significativamente “Capitão Nascimento bate no Bonde do Foucault” é magnífico nesse sentido. Um artigo confuso, cheio de clichês da “velha direita” (com o perdão da ironia), que ridiculariza o pensamento de Michel Foucault e com ele os intelectuais e estudantes que, segundo o Azevedo, fazem parte da “elite da tropa esquerdopata” nacional. Capitão Nascimento para Azevedo virou, inclusive, um neo-kantiano que patrola os adeptos da psicose dialética. Para o capitão Nascimento, bandido é bandido, polícia é polícia. Pois bem, temos um novo referencial intelectual para pensar a violência no Brasil: capitão Nascimento, que “pegou geral”. O filme revela um cenário real, mas deixa a entender, sobretudo pela predisposição do senso comum em querer entender assim, que a solução para a violência está na eliminação de sua fonte, qual seja, o bandido: favelado, na sua maioria não-branco e de pouca instrução. Lamentáveis as confusões que o filme, mas sobretudo a Revista Veja, formadora de opinião importante no país, fazem de um dos problemas mais sérios e graves que devemos enfrentar nas próximas décadas. Capitão Nascimento não venceu, ele perdeu, ele não é um neo-kantiano, ao contrário, ele é um confuso, antidemocrático, cujas convicções totalitárias se transformaram num receituário fascista para políticas públicas. Falar nisso, é muito importante termos cuidado com os convictos.

Livros Publicados


São inúmeras as contribuições dos Estudos Culturais para a Educação. Nessa coletânea o leitor encontra uma série de textos que articulam as questões relativas a educação, cultura, alteridade, identidade e poder, a partir de diferentes objetos. Entende-se aqui a Educação de forma ampla, ou seja, não apenas como as relações formalizadas que se dão predominantemente no espaço escolar, mas como as relações pedagógicas que nos constituem como sujeitos: na família, nos grupos sociais, na saúde, na mídia, entre outras. Considerando a heterogeneidade teórico-metodológica dos Estudos Culturais, cujas vertentes teóricas transitam entre o marxismo, o feminismo, a psicanálise e o pós-estruturalismo, entre outras, as temáticas aqui tratadas apontam para um lócus em comum: a insatisfação com os limites das disciplinas. Noutras palavras, essa coletânea se constitui em uma aposta nas perspectivas interdisciplinar, contradisciplinar ou até mesmo não disciplinar para pensar a educação e a alteridade.


O que torna a idéia de raça tão sedutora? Qual o papel da Ciência no desenvolvimento dessa categoria política? Os seis ensaios reunidos nessa coletânea, a partir de diversas áreas do conhecimento, procuram apresentar algumas possibilidades de respostas para essas questões e mostrar como a ciência forneceu os aportes teóricos para a legitimação de uma categoria, hoje refutada, cujas implicações políticas podem ser traduzidas nas formas do racismo e dos genocídios vivenciados no século XX. Da mesma forma, os ensaios aqui reunidos colocam em “xeque” o status da ciência desinteressada, ingenuamente ou estrategicamente amparada pela neutralidade política e científica e, partir de saberes específicos, mas não engessados, recolocam em discussão as questões prementes que permitem pensar o “devir da raça”, seu percurso histórico, seu aparato científico, epistemológico e, evidentemente, suas implicações políticas. Escritos de forma simples, mas com rigor acadêmico, convidam o leitor a pensar sobre os dilemas ainda presentes nas sociedades contemporâneas.





(EDUNISC, 2007) Neste livro, o autor articula as questões mais prementes dos debates acerca das relações raciais no Brasil com as problematizações suscitadas pela Educação intercultural. Além de situar o leitor conceitualmente frente às questões que norteiam a idéia de raça no Brasil, bem como seus desdobramentos na política de branqueamento da nação e na construção do mito da democracia racial, analisa o debate atual sobre a temática das relações entre raça e cor no pensamento brasileiro. Amparado por análises estatísticas, entrevistas com docentes e vasta pesquisa bibliográfica, demonstra o quanto a educação, sobretudo a escola, legitima os preconceitos e hierarquias sociais e étnicas no país. Apresenta ainda, um estudo de caso detalhado das relações entre identidade cultural/étnica e preconceito nos espaços educativos em Santa Cruz do Sul, cidade localizada no Sul do Brasil.




(EDUNISC, 2005) A Prisão moderna no Rio Grande do Sul, seguindo uma tendência comum aos países ocidentais, é institucionalizada a partir da segunda metade do século XIX. Entre este período e as primeiras décadas do século XX assistimos duas matrizes jurídico-filosóficas que estruturam a prisão: a primeira marcada pelo classicismo e pela política correcional e a segunda pelo positivismo e pelo bio-determinismo, este último marcante na Antropologia Criminal. A História da Prisão suscita várias preocupações histórico-sociológicas e, entre elas, é preciso mencionar a população carcerária, suas características no que diz respeito a tipologia de crimes cometidos, etnicidade, faixa etária, nacionalidade, perfil profissional, para citar algumas que este livro procura analisar.
A história do sistema penitenciário revela também as interfaces entre as ciências que se debruçaram sobre o crime e o criminoso, nomeadamente a Medicina, o Direito e a Antropologia, ambas, vale dizer, influenciadas, em menor ou maior grau, pelo discurso eugênico.
Na interseção entre o crime e a loucura, ou ainda entre o criminoso e o louco, assistimos durante o final do século XIX e início do século XX o debate entre o Direito e a Medicina legal, nomeadamente entre o Direito e a Psiquiatria. Este debate rico na explicitação das estratégias mais recônditas das duas grandes áreas do saber dos séculos XIX e XX nos revela uma série de enunciados acerca da constituição do campo de intervenção sobre a loucura e sobre o criminoso, mas, além disso, dos enunciados que constituem os dois campos discursivos que incidem sobre os chamados anormais, sobre suas possibilidades estigmatizantes e sobre o esquadrinhamento de suas existências em instituições totais amplamente reguladas e racionalizadas. É com o surgimento do Hospício e da Prisão que o louco e o criminoso adquirem etiologias próprias. É com o surgimento destas instituições que a Medicina legitima seu espaço jurídico e institucional e, sobretudo, adentra o espaço do tribunal. A medicina não circunscreve sua área de intervenção somente no tribunal, vale notar, mas se torna a grande engenharia social do século XX.













(EDUNISC, 2003) História, Medicina e Sociedade no Brasil, reúne cinco textos acerca das implicações do desenvolvimento dos saberes da medicina científica na sociedade brasileira. Foi esta a motivação que levou a organização deste livro. Reunir pesquisadores que estão pensando a ciência, seu campo de atuação, sua constituição sociológica e histórica e suas implicações políticas. O foco aqui será a Medicina e seus efeitos políticos, seja na constituição de valores morais, comportamentais ou mesmo simbólicos. É à história da medicina do Brasil que os autores deste livro se dedicaram, nomeadamente as relações entre o saber médico e o bio-determinismo, o saber médico e a produção da anormalidade, o saber médico e suas implicações jurídicas. E ainda, as implicações do bio-determinismo nas questões da eugenia, da arte, da literatura, das políticas públicas e da própria definição do campo profissional da medicina.





(JURUÁ, 2003) O Império dos bacharéis: O pensamento jurídico e a organização do Estado-nação no Brasil, problematiza a formação da cultura jurídica moderna brasileira a partir da análise da Reforma dos Estatutos da Universidade de Coimbra (1772), quando, depois de mais de duzentos anos de pedagogismo escolástico, o pensamento moderno oriundo da revolução galileana e newtoniana foi institucionalizado. O autor enfrenta, nesse sentido, as diversas correntes do pensamento jurídico que acirraram os debates acerca das teses jusnaturalistas e jusracionalistas no contexto da Reforma. A recepção do pensamento moderno em Portugal, nomeadamente no campo jurídico, foi marcante na formação da geração de intelectuais-estadistas que participaram do processo de estruturação do Estado-nação brasileiro. O autor analisa esta herança coimbrã na criação dos Cursos Jurídicos de Olinda e São Paulo e no Código Criminal de 1830, destacando a importância destas instituições na estratégia política centralizadora do Império. O pano de fundo que perpassa a obra situa-se na (re)discussão do corolário das "idéias fora do lugar" e do paradoxo entre tradição e modernidade. A partir de conceitos como hibridismo e equilíbrio de antagonismos o livro articula o pensamento jurídico moderno com a dinâmica da cultura política brasileira, recolocando as idéias em seus lugares.














(AUTÊNTICA, 2001) A sensibilização da educação, leia-se sociedade, frente às mudanças constantes experimentadas em nosso tempo revela uma incapacidade de pensar a complexidade dessas transformações dentro do paradigma totalizante da modernidade, calcado na ciência da certeza. Há, portanto, uma percepção de que a velocidade das mudanças sociais não pode ser acompanhada pelas instituições de saber como estão/estavam estruturadas.
Novas tecnologias e Educação na Era da Informação, é, na realidade, uma tentativa de diálogo, do estabelecimento de um sinal comunicativo entre as diversas problematizações que nosso tempo infere na percepção do homem e da técnica. É, nesse sentido, a pretensão de enfrentar o problema da complexidade, onde figura, sem dúvida, a educação como um dos pontos mais sensíveis dessas transformações.
Frente a essa Era da instabilidade e do possível, coloca-se o problema da educação. Como a velocidade das mudanças pode ser acompanhada pela “antiga instituição normativa do saber”? Quais as ferramentas disponíveis para o educador? Como utilizá-las? Qual o “método”? O saber normativo é possível com o saber virtual? Qual o “papel” da educação na sociedade da informação descentralizada?



(EDIPUCRS, 1999) A questão do tempo é problematizada em diversas áreas do conhecimento, notadamente na física, na biologia, assim como nas chamadas ciências humanas. A questão fundamental que ora se apresenta é não mais centralizar a reflexão sobre o tempo em áreas de conhecimentos restritas, fechadas em disciplinas únicas. A problemática do tempo, tal a sua complexidade e necessidade de alargamento, levou o debate a uma transdisciplinareidade, muitas vezes fluida e insegura, mas produtiva, talvez o meio mais fértil para uma reflexão atualizada.
Frente às transformações vivenciadas pelas sociedades modernas desse fim de século, uma nova percepção temporal passou a fazer parte de nossa mentalidade, uma percepção que desliza das rotas teóricas acadêmicas e passa a ser vivida empiricamente. Exemplos claros dessa nova percepção são apresentados pelos médias, pela comunicação a distância em “tempo real”, pela revolução da informática com as “redes de informação e convívio”, assim como nos transportes e outros.
Frente a esta nova mentalidade do tempo uma questão sobressai: a velocidade.
Entre os autores contemporâneos que abordam a questão da velocidade, destaca-se Paul Virílio, teórico da Dromologia (do grego dromos = velocidade) para quem a velocidade é vista como a “alavanca do mundo moderno”. Passamos do tempo extensivo da história ao tempo intensivo de uma instantaneidade sem história. Para esse autor, “se o tempo é história, a velocidade é apenas sua alucinação, uma alucinação perspectiva que destrói toda a extensão da cronologia”. Nesse sentido, os acontecimentos desvanecem-se, perdem-se, o que impõe à história novas problemáticas no que se refere ao tempo. Os acontecimentos não são apreendidos uma vez que as imagens não se fixam, escapam pela fluidez da velocidade.
Na visão da história dos “tempos passados” aos “tempos presentes” há uma total “ignorância” da inexistência do próprio presente, nesse sentido colocamos essa reflexão em uma atemporalidade. A discussão do tempo histórico é realizada pelos autores dessa coletânea através de diferentes objetos os quais revelam a complexidade da temática.














(EDIPUCRS, 1997) Nesta obra, o autor analisa o processo histórico da reforma penitenciária brasileira no século XIX. Para isto, o autor estuda: o desenvolvimento das noções de pena e prisão no ocidente desde a antigüidade, a reforma das prisões americanas e francesas, a formação da cultura jurídica moderna brasileira — destacando a influência do pensamento jurídico português, a questão da raça na formação do pensamento penal brasileiro, a influência da cidade na institucionalização do saber da medicina social e do direito na reforma penitenciária e por fim faz um estudo de caso do projeto de construção da casa de correção de Porto Alegre de 1855.