Barack Obama e o triunfo da História

Mozart Linhares da Silva

A vitória nas prévias norte-americanas do “Afro/Americano/Queniano”, Barack Obama, sobre a primeira dama do Clã Clinton, impõe que se pense a sociedade da ainda maior potência mundial. O que fez de Obama, que alguns americanos já confundiram com Osama Bin Laden, um filho de pai queniano com americana branca, com educação próxima do islamismo (apreendida no tempo em que viveu na Indonésia com a mãe e o padrasto), fosse eleito a concorrer a Presidência da República por uma das sociedades mais racistas do mundo? Uma sociedade, vale lembrar, atormentada por uma política baseada no medo e no terror cuja fisionomia é a do islã. Considerando que apenas 10% do eleitorado norte-americano são “negros”, podemos sugerir que Barack foi eleito por um eleitorado branco, democrata e certamente pertencente à parte mais cosmopolita da sociedade norte-americana, mas um eleitorado que precisa ser entendido. Como disse Pompeu de Toledo, na revista Veja de 11 de junho, “um negro com chance de ganhar a Presidência dos EUA é um evento raro como o risco de um cometa no céu. É uma pirueta histórica, no país cuja crônica, até outro dia, incluía a proibição dos casamentos mistos, a Ku Klux Klan e os jardins públicos proibidos para negros e animais”. E realmente é um evento que merece atenção.

Em que pese a habilidade de Barack em montar um discurso de campanha que contornasse as questões raciais, que não desagradasse aos republicanos moderados e as elites econômicas, que permanecesse num território de poucas afirmações contundentes e distante de qualquer categoria irrefutável, Barack é negro. Em se tratando dos EUA, isso é um fato social e histórico relevante, pois não somente nos leva a inquirir o racismo e a organização da sociedade do norte, mas também a espreitar com mal-estar nossa assombrada “democracia racial”. Tudo bem, elegemos Lula, um homem do povo, sem grande educação e oriundo do nordeste (região alvo de inúmeros preconceitos e estigmas, por demais conhecidos). E como se não bastasse termos-lo eleito, depois de um mandato quase completo, com todos os desgastes naturais, tropeços éticos e corrupção exagerada, ainda assim “continuamos” a “adorá-lo”. Sem dúvida um caso místico de amor ao líder carismático que a muito não se via nos trópicos. Apesar disso tudo, a eleição de Lula foi um fato notável que demonstra nosso crescimento civilizatório, sem dúvida, considerando os preconceitos acima mencionados. Mas nos EUA isso tudo é diferente. Lá os negros são minoria de fato, os ódios raciais são historicamente explicitados. Somente após os anos 1970 que as Jim Crow (leis racistas) começaram a ser derrubadas pelos movimentos de contestação à segregação racial. Até essa época, banheiros públicos, bebedouros, transportes coletivos e calçadas eram separados para brancos e negros.

O fato dos EUA terem espalhado pelo mundo grupos neonazistas e as propagandas da Ku Klux Klan, e terem treinado uma polícia segregacionista e um judiciário que funcionou por muito tempo com juízo racista, deve ser levado em conta quando nos damos conta que isso tudo passou a mudar somente a menos de meio século, a menos, na verdade, de 40 anos, menos de duas gerações.

Há algo estranho no ar, estaremos mesmo frente a uma possível lição ao mundo ensinada pelos norte-americanos? O fato da negritude de Barack é contornável perante às questões políticas mais prementes legadas pelo desastrado governo Bush? Até pode. Mas, diante de Hillary Clinton, herdeira política dos democratas cuja última eleição fora duvidosamente perdida?

Teremos que esperar um pouco por respostas, mas uma coisa é certa (ou melhor, muitas coisas): um negro concorrer a Presidência norte-americana, com poderes muito além da esfera territorial dos EUA, (com poderes) globais de fato, e com chances de vitória, é certamente um dos acontecimentos mais importante das últimas décadas. Algo está acontecendo na sociedade norte-americana, e com velocidade espetacular. São muitas mudanças em pouco tempo. Ainda parece inimaginável que depois de 11 de setembro de 2001, quando o gigante se prostrou ao mundo, com as conseqüências belicistas que assistimos, com a nova nominata do mal, estereotipada na fisionomia do árabe muçulmano, do homem escuro, de barba, com olhar fanático e cínico, uma verdadeira demonização do islã; depois de tudo isso, um homem como Barack Obama está no topo do mundo político global. Esse é o tipo de caso em que a História atropela, em que a História nos embriaga com sua imprevisibilidade.

Mas tudo isso pode ser virtualizável e, sobretudo, pesaroso. O que se espera de Barack Obama? Qualquer análise que coloque a etnicidade como critério, nesse sentido, pode ser facilmente frustrada. Obama não fará um governo racial, longe disso, sua condição de afro-americano é travestida com insistência justamente pelo figurino de homem e cidadão norte-americano. Caso racializemos Obama como político exitoso que é, estaremos tomando o exótico de sua condição como fenômeno estrutural de sua política, o que não é nada útil. A negritude de Barack não o faz um homem de grandes mudanças efetivas no campo político-econômico, isso seria uma utopia ingênua frente à complexidade do mundo global. Não se pode esquecer que o braço direito do governo Bush, por exemplo, é uma mulher e, sobretudo, uma mulher negra, republicana, educada em boas escolas de brancos, defensora de políticas xenofobistas e encarregada de limpar muitas das impurezas de seu governo mundo a fora. Uma personagem que legitimava o discurso do mérito pessoal e individualista como critério de superação das dificuldades e desigualdades sociais e raciais nos EUA. A imagem construída por Barack (pois em política tomamos a imagem pelo “real”) é bem diferente, e sua trajetória pessoal demonstra isso. Talvez Barack nos ensine que estamos realmente vivendo um momento histórico cuja maior mudança seria a refutação da raça e da etnicidade como critério. Que ele erre, que ele frustre, que decepcione ou mesmo que ele faça o melhor governo da história dos EUA (caso seja eleito), mas tudo isso como o norte-americano Barack Obama e não como o afro/americano/queniano Barack Obama, homem cuja identidade étnica continuará a nos rasurar e impactar por algum tempo ainda.

3 comentários:

José disse...

...com a nova nominata do mal, estereotipada na fisionomia do árabe muçulmano, do homem escuro, de barba, com olhar fanático e cínico...

E essa foto tua aí Mozart? =P


Bom... Em relação ao Barack, acredito que ele vai simplesmente agir como mais um cidadão Norte-Americano. Não levo muita fé em mudanças... Mesmo assim acho que, caso ele for eleito, vai ajudar no lento processo de desconstrução do preconceito contra os negros.

Luis Fernando disse...

Cara, o Philip Roth deu uma entrevista na Zero Hora de hoje e falou sobre o Barack Obama. Lembrou que o Robert Kennedy, assassinado em 1968, dizia que em 40 anos os EUA teria um presidente negro (vindo do Bob Kennedy, convém bater na madeira...)

Roth reforça o fato de que "Obama não se define como negro. Ele se declara birracial."
Para ele, há uma nova geração nos EUA que não enxerga o mundo a partir da distinção de raça.
No mais, muito bom e pertinente o texto.
Abraço, Luís F.

Luis Fernando disse...

Cara, o Philip Roth deu uma entrevista na Zero Hora de hoje, onde também falou sobre Barack Obama. Lembrou que o Robert Kennedy, assassinado em 1968, dizia que em 40 anos os EUA teria um presidente negro (vindo do Bob Kennedy, convém bater na madeira...).
Roth reforça o fato de que Obama não se define como negro. Ele se declara birracial. Isso faz diferença.
Para ele, há uma nova geração nos EUA que não enxerga o mundo a partir de distinções raciais.
No mais, muito bom e pertinente o texto.