Faculdades/Universidades Caça-Níqueis e as desigualdades sociais

Mozart Linhares da Silva
Dentre as tragédias diárias que vivenciamos no Brasil uma merece destaque pela longevidade de suas conseqüências. Este é ocaso da mercantilização do ensino superior. Da institucionalização, a partir dos anos 1990, de uma política de ensino que procura massificar o acesso à formação superior para engordar estatísticas. Um ensino, temos que ter coragem para afirmar, sem qualidade alguma, que visa o imediatismo e o baixo preço, as custas de uma sociedade carente de recursos e ávida por galgar espaços na pirâmide social. Estamos nos acostumando com a abertura de instituições de ensino superior sem qualificação e mesmo condições de chancelar seus certificados e diplomas perante um mundo cuja concorrência é pautada pela qualidade, qualificação e reconhecimento da formação acadêmica e profissional. Não basta estar num banco universitário, cumprir os créditos e se lançar ao mercado de trabalho. É preciso que esta formação seja reconhecida, que os diplomas expedidos tenhas lastro institucional e que sejam reconhecidos pelo próprio mercado. O mercado não é ingênuo. Ele sabe diferenciar os certificados e a qualidade de quem é formado por instituições compromissadas com o desenvolvimento integral do homem, técnica e humanistamente. Ele sabe que os profissionais formados por instituições mercantilizadas, com bibliotecas precárias, que não promovem pesquisa, publicações científicas, planos de carreira para seus docentes e funcionários, não merecem confiança.
A Educação superior, ao se enquadrar na dinâmica do consumo e na concorrência baseada em baixo custo e preço, no imediatismo da formação, não pode ser levada a sério. Educação nunca foi, não é, e nunca será barata. A sociedade é refém desta lógica mercantil que precariza o ensino em troca do acesso massificado aos bancos universitários, mas parece estar impotente para reagir a isso. Educação não deve ser pensada como custo mas sim como investimento, investimento a longo prazo, o que pressupõe qualidade, projetos pedagógicos consistentes, formação integral do aluno e sobretudo um projeto político de nação e não de mercado. O Brasil nos anos 1990 interiorizou e espalhou uma infinidade de cursos superiores por todo o país e isso não significou melhora da educação mas sim distribuição de diplomas. É hora de levarmos a sério uma política Federal de investimentos no ensino superior. Ele deve ser amparado por uma política Federal de ensino vinculado a projetos mais amplos, que não se renda a lógica do baixo preço mas da elevada qualificação e isso como dissemos não é barato. Do contrário formaremos um contingente enorme de pessoas diplomadas e desqualificadas sem a menor capacidade de contribuir efetivamente para um projeto de nação ou mesmo construir um futuro profissional reconhecido. Diplomas não devem ser vendidos em qualquer esquina do país. É preciso que a sociedade entenda estes mecanismos e aprenda a separar instituições austeras e comprometidas com suas comunidades daquelas que vêm as comunidades como fonte de renda a ser privatizada. Antes de entrar numa instituição de ensino superior é necessário que se busque informações sobre a qualificação dos docentes (via currículo Lattes dos docentes, por exemplo, na página do CNPQ. www.cnpq.br), sobre as revistas científicas publicadas e mantidas pela instituição nas diversas áreas do saber, sobre a estrutura logística, sobre os laboratórios, bibliotecas, e ainda sobre a posição de seus egressos. Um diploma chancelado, com lastro de uma instituição sólida, com projeto político pedagógico de longo prazo ainda é o melhor meio de validação da qualidade profissional e da garantia da prosperidade pessoal e social de um país que se quer qualificado para um mundo calcado no conhecimento. Instituições caça-níqueis contribuem para ampliar o abismo social e econômico e é preciso reagir a esta tragédia nacional que desqualifica a sociedade num contexto onde ela mais precisa ser qualificada.

Um comentário:

Eduardo Gurgel disse...

Finalmente alguém que pensa como eu.... Muito Obrigado pelo texto, que aliás é de ótima qualidade e com uma perspectiva bem futurista e também um pouco revolucionária - já que nos faz pensar sobre qual será o futuro do Ensino Superior no país.