A fala do corpo

Mozart Linhares da Silva


João do Rio, escritor carioca do início do século passado, escrevia acerca dos corpos marcados por tatuagens: "um corpo desses nu, é um estudo social". No olhar do observador da época, era fácil perceber o locus social desses corpos marcados, eram os lugares das meretrizes, criminosos, marinheiros, e todo o tipo da chamada gente "baixa" que perambulava entre os cortiços e becos do Rio de Janeiro. Contavam as centenas os marcadores, como se chamavam os tatuadores naquela época. "Armados" com três agulhas embebidas em graxa, tinta, pólvora, anil ou fuligem, os marcadores disputavam fregueses aos gritos pelas ruas e trabalhavam freneticamente "como as senhoras que bordam", no dizer do escritor. As tatuagens, no entanto, não eram apenas marcas borradas no corpo. Possuíam significados variados, mas majoritariamente circunscreviam as aspirações amorosas, as mandingas que protegiam o corpo (principalmente da agressão policial) e as frases de efeito que geralmente diziam respeito à situação social do indivíduo. Diz-se do marinheiro Joaquim que bordou nas costas uma cruz negra para desencorajar os "guardiões" quando o fossem sovar na prisão. Era quase uma regra para as mulheres da "rua" tatuar o nome dos amantes no braço, e eternizá-los. Quando a desilusão amorosa acontecia, logo o nome do sujeito era retirado do braço, através de uma poção a base de leite, e recolocado no calcanhar, onde seria pisado e empoeirado eternamente.
A parte os ritos da época, as tatuagens significaram desde sempre uma forma de expressão, de exteriorização, de uma escrita que se transmite pelo corpo. Uma forma de identificação. No Rio de Janeiro do início do século ser tatuado era uma forma de identidade, da pertença às "classes baixas". Uma forma também de resistência, de marcar presença ostensivamente aos olhares dos transeuntes da "boa sociedade". Portanto, as tatuagens eram uma maneira de marcar um território no próprio corpo, de existir efetivamente. O ser no lado de fora, na pele da cultura.
Podíamos considerá-la nesse sentido como a expressão da inclusão a um determinado grupo, comunidade ou classe.
Num mundo crescentemente individualista e planetário como o de hoje, as tatuagens não permitem mais considerações acerca de classes ou grandes grupos mas ainda nos permitem pensar numa forma de linguagem e de identificação, de pertença a uma tribo ou retalho social qualquer, definido a partir de códigos estéticos que se comunicam sem a necessidade de uma língua unificada. É interessante ainda pensar as tatuagens como formas de representações do tempo. Em tese, as tatuagens são perenes e revelam desejos e estados afetivos ou emocionais que deveriam durar para sempre, pelo menos quando da decisão de "marcá-las". Mas a duração tem outro sentido num mundo marcado pela velocidade, pelo indeterminismo e pelas mudanças contínuas. As tatuagens - hoje seguidas de perto pelo também tribal piercing, nos revelam um paradoxo, mas aparente. Talvez revelem ainda a possível perenidade de algumas coisas, marcas íntimas, exteriorizadas em território próprio, individualizada num corpo que resiste a homogeneidade e a norma (ou produz novas normalizações!?). Mas talvez seja interessante imaginar as tatuagens como desafio ao efêmero. Como a possibilidade da duração daquilo que resiste ao instantâneo, ao passageiro. Talvez! Se os amores já não são tão eternos, as classes não são mais em si e para si e o território se desmanchou no ar da globalização, as marcas no corpo continuam a ser uma forma de expressão mais duradoura, talvez!!!

Um comentário:

Marcia disse...

Um ramo de flores que se abre pra não parecer uma mancha pra quem vê de longe, essa é a definição da minha tatuagem. Interessante essa definição, e vejo que bem apropriada com o momento de vida em que ela foi “marcada”,. Quando tu dizes que as tatuagens “revelam desejos e estados afetivos ou emocionais que deveriam durar para sempre” consigo perceber que minha tatoo expressa com perfeição o momento ou fase de vida em que foi feita e que ela é apenas a primeira de tantas que ainda pretendo fazer... E quando digo isso é pq percebo q as fases da vida não guardam nomes mas significados. Muito bom o texto Doutor.