Memória e Política: o entre-lugar do discurso

Mozart Linhares da Silva
O primeiro grande problema quando se busca analisar o fenômeno democrático no Brasil situa-se na definição da cultura política e sua inserção, do ponto de vista discursivo, na dinâmica democrática. O pressuposto do político como mediador entre as esferas pública e privada, como inaugurado na modernidade, possui um tempo e espaço definidos, mas é, contudo, considerado universal no jargão ocidental, como se fosse ahistórico, conforme as máximas jusnaturalistas. Mas, ao pensar sociedades como o Brasil, onde o público e o privado são recursos de retórica, onde os fluxos e refluxos entre as esferas sociais constróem pontes e vasos comunicantes incessantemente e, nesse sentido, criam uma cultura híbrida e afetiva, requer outros instrumentos de análise. O político é entidade no Brasil. E é entidade porque não rompe as esferas pública e privada, ao contrário; as (re)liga constantemente. Está mais afeito ao fenômeno religioso (ver os santinhos de campanha e as promessas sebastianistas) do que a lógica da Aufklärung.
Não vejo descrença na democracia no Brasil, vejo outra maneira de lidar com os signos da democracia, para o bem ou para o mal. Se tivermos como referência o mundo de lá, do norte, não temos democracia ou temos seu simulacro invertido, mas se olharmos pela lógica de cá, temos uma democracia "construída" sob uma tradição patrimonialista e patriarcal, calcada em relações pessoalizadas e afetivas que inflam a esfera pública com os rasgos da esfera privada. Escolhemos nossos santos conforme as pragmáticas necessidades coevas e não conforme princípios abstratos seja ao nível teológico ou político. O Brasil, ainda conforme a lógica religiosa, tem uma perspectiva em relação ao futuro como algo já inscrito, é o "país do futuro", do "gigante deitado em berço esplêndido". Nos resta esperar.
Evidentemente que, a partir destes significantes, a nossa idéia de futuro é imobilizadora conforme a lógica moderna. Sendo assim, somos uma civilização da expansão do presente, do tempo tríbio, do presenteísmo, que não mobiliza o futuro a não ser pelo locus de espera. Uma civilização sebastianista não é democrática mas contempladora, não crê na representação assim como não se deixa levar por princípios abstratos. Daí a fragilidade das ideologias partidárias em detrimento dos "programas" pessoais, personalistas e carismáticos. Daí também o multipartidarismo excessivo que revela uma hiper-diversidade de discursos que não se situam em lugar nenhum, ou melhor, situam-se no entre-lugar da igualdade-diferença, do público-privado. Em sociedades multiculturais a generalização é estéril pois acarreta na anulação dos atores sociais enquanto sujeitos específicos de existências intersticiais, conforme alerta Homi Bhabha.
Penso que temos um duplo "problema" no Brasil. O primeiro é a própria tradição da cultura política que não permitiu a configuração do político como ator efetivo na esfera pública, enquanto representação. O outro problema enfrentado é correlato a um fenômeno global: a crise do discurso político calcado na idéia de devir, da utopia redentora. O mundo pós-1960 assistiu a desagregação das polaridades ideológicas. A era Kruschev bem como a guerra do Vietnã contribuíram para isso. Direita e esquerda perderam seu significado histórico. A tendência foi a desconstrução do discurso afirmativo, do discurso ideológico.
O que sobrou para o discurso político, quando não o olhar de caranguejo, foi a estética do politicamente correto, o discurso moralizador que tenta uma estratégia transversal frente a heterogeneidade que caracteriza as sociedades contemporâneas. Este discurso, em que pese atender a demanda das diferenças, impede a diferença entre os figurinos políticos. É essa percepção que subjaz o abandono do político e por conseqüência o esquecimento, ou melhor, desmemorialização. O mundo da era migratória é um mundo híbrido que resiste, obviamente, ao chamado da igualdade como era entendida pelo estatuto do Estado-nação, pelo estatuto da fronteira. O politicamente correto pode representar, de certo modo, não uma relação saudável com a alteridade mas uma estratégia de individualização e intolerância com a diferença. Vivemos, penso, num mundo que trocou a solidariedade pela segurança. Estamos mais para Hobbes que para Rousseau.
O que é importante ressaltar é que esta crise global do discurso e locus do político não é percebida como uma grande ruptura no Brasil. A própria tradição política brasileira assimilou esta crise com "tranqüilidade" pois vinha nos adequar numa (a)normalidade que já tínhamos. Não se produziu no Brasil um monstro político ao estilo Le Pen, ao contrário, se produziu discursos dóceis, carismáticos, pessoalizados, híbridos, transversais.
Mesmo os discursos afirmativos e propositivos de partidos ideologicamente mais estruturados são atingidos por esse fenômeno da desconstrução do político, pois, caso contrário, as estratégias de acesso ao poder se tornariam refratária ao apelo plebiscitário/midiático. Sendo assim, o próprio discurso afirmativo não resiste à banalização discursiva. Suas bandeiras são constantemente erguidas por adversários, o que torna confusa a identificação ideológica. A dificuldade de partidos propositivos situa-se justamente na necessidade de diferenciação, no deslocamento do lugar comum ou ainda no contorno da banalização discursiva. Um discurso que consegue vencer esta dificuldade e assim afirmar-se doutrinariamente, entretanto, enfrenta outra dificuldade, de maior dimensão: a escuta. O fenômeno da fragmentação discursiva do político não é outra coisa senão a estratégia de partir da escuta do outro. Deste outro plural, heterogêneo e não mesurável do ponto de vista da universalização. Isso significa, para usar uma metáfora, que o discurso político atual tenta compor a música a partir da dança.

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