O que é História?: problematizações necessárias

Mozart Linhares da Silva

Comumente encontramos na mídia o anúncio da publicação de mais um livro sobre a história de algum município, instituição, monumento “histórico”, comunidade, história de personagens (majoritariamente probos e de moral ilibada), heróis e por aí vai. Mas o que é história? Cabe nessa área do conhecimento todas essas iniciativas, na maioria das vezes bem intencionadas, vale lembrar, de “mostrar”, “resgatar”, “reviver” o passado? Até que ponto a História feita por diletantes, curiosos e amadores tem valor efetivo? Há uma distância considerável entre aquilo que aprendemos na escola (nos ensinos fundamental e médio), o senso comum, o que diz a mídia e a História Acadêmica, a História como uma ciência, como uma forma de conhecimento controlado, metodizado e profundamente reflexivo e teórico, resultado de pesquisa e investigação pertinente, com importante papel social. Esse artigo é o primeiro de uma série que visa problematizar justamente o conceito de História e assim contribuir para um espírito mais critico, menos acomodado e esclarecedor sobre o que é a História e, sobretudo, quem é o historiador, como ele trabalha e como faz sua formação profissional. Uma série de textos que objetiva, na realidade, colocar algumas coisas no lugar certo no que diz respeito à História dos historiadores. Até porque temos em Santa Cruz do Sul um Curso de História na UNISC, que comemora 40 anos, avaliado com conceito máximo pelo MEC e que merece ser conhecido e reconhecido pela comunidade. Iniciemos pelo significado do estudo do passado. O que é o passado?
Duas posturas podem ser consideradas nesse ponto. Uma que diz que o passado existe e cabe ao historiador, através de métodos e técnicas de investigação, reconstruí-lo, sempre com a consciência de que mesmo que esse passado exista jamais será possível reconstruí-lo totalmente e verdadeiramente. O olhar para o passado é sempre um recorte, uma redução, uma focalização no tempo. Não há possibilidade de trazer o passado ao presente e sim problematizar recortes do passado. Outra postura sugere que o passado é uma construção do presente, que ele não existe a não ser que seja produzido, problematizado e criado a partir do presente, que o passado é mais a criação do presente do que o presente a criação do passado, como geralmente se diz.
O que ambas as posturas concordam é que esse passado é sempre o resultado de questionamentos do presente, realizados a partir de temáticas e objetivos específicos, manejados metodologicamente pelo historiador. Na realidade, a História não existe, o que existe é a produção historiográfica. Sem historiador não há história. Ela não está em algum lugar do passado esperando ser resgatada. É por isso que as temáticas históricas são praticamente infinitas: história política, econômica, cultural, da ciência, das idéias, das mentalidades, do imaginário, do jornalismo, da medicina, do direito, e assim vai. O que delimita esses campos e os enfoques necessários para o estudo de cada um deles não é aleatório, depende de uma série de problematizações teóricas acerca da formatação do objeto de análise. A história não é um conjunto de dados, fatos, datas, personagens empilhados e colocados em ordem. Tudo, menos isso. É necessário problematizar a “realidade”, desacomodar o que se tinha como certo e pronto. Não há história sem crise, sem deslocamentos e tremores, do contrário não seria conhecimento e sim loas. Temos que entender que a História não tem por objetivo fazer apologias e estimular ufanismos a partir da criação de uma memória e de um passado conveniente (e higienizado) a determinadas situações do presente. O objetivo da História consiste no estudo das transformações sociais no tempo, das mudanças e das crises, dos processos e desvios. A riqueza do conhecimento histórico está justamente na sua capacidade crítica e desestabilizadora do tempo presente.

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