TROPA DE ELITE, PEGOU GERAL!!!, MAS TEM UM PREÇO!!!



Mozart Linhares da Silva
E-mail: mozartt@terra.com.br
Publicado em 04/02/07 na Gazeta do Sul

Não há como calar frente as matérias veiculadas pela Revista Veja sobre o filme Tropa de Elite, em 17/10/2007. É sem dúvida o conjunto de matérias mais conservador, enganador e truculento publicado nos último anos sobre a questão da violência. E o objetivo é simples, responder/atacar os jornalistas e intelectuais que opinaram criticamente sobre o filme. O maniqueísmo do filme bem como das matérias da Veja são evidentes e até escandalosos. Poderíamos até sugerir mal-intencionados. Um exemplo claro é a matéria Especial intitulada “A realidade, só a realidade” (p. 80-83), onde se diz claramente que o êxito do filme é mostrar que: “Bandidos são bandidos, e não ‘vítimas da questão social’” (p. 82), banalizando toda e qualquer reflexão sobre a violência, as desigualdades e as hierarquias sociais no país. Por sinal, o filme jamais explicita o racismo na ação do BOPE, como no livro Elite da Tropa, no qual foi baseado. As questões sociais, portanto não podem ser pensadas como causas da violência; contudo, no mesmo texto se afirma sobre o “capitão Nascimento”, que pratica torturas e violências de todo gênero, que ele é um “ser humano devastado. Sofre de síndrome do pânico, consome vorazmente remédios de tarja preta e suas explosões freqüentemente resultam em ações que extrapolam o manual do BOPE”. Bem, aqui as questões sociais, o cotidiano violento e miserável vivido por um policial é causa da violência, quando não sua justificativa cabível. Ora, a Revista Veja está claramente usando dois pesos e duas medidas, atacando irresponsavelmente os analistas e mesmo os acadêmicos que se dedicam a estudar a violência no país. Intelectuais, vale lembrar, que não são os estereotipados no filme. A Revista, faz do senso comum, imerso na passionalidade e na brutalidade cotidiana das grandes metrópoles do país, a baliza reflexiva para apontar a solução para o problema da violência, qual seja, eliminar os bandidos, estes seres inumanos, de anormalidade inata, tipos sociais que optaram pela violência. Há ódio nestes textos, uma catarse direcionada contra a academia, os intelectuais, os idealistas e todos aqueles que tentam pensar a violência contornando os paradigmas da própria violência. A ira de Reinaldo Azevedo, por exemplo, autor de um dos textos, intitulado significativamente “Capitão Nascimento bate no Bonde do Foucault” é magnífico nesse sentido. Um artigo confuso, cheio de clichês da “velha direita” (com o perdão da ironia), que ridiculariza o pensamento de Michel Foucault e com ele os intelectuais e estudantes que, segundo o Azevedo, fazem parte da “elite da tropa esquerdopata” nacional. Capitão Nascimento para Azevedo virou, inclusive, um neo-kantiano que patrola os adeptos da psicose dialética. Para o capitão Nascimento, bandido é bandido, polícia é polícia. Pois bem, temos um novo referencial intelectual para pensar a violência no Brasil: capitão Nascimento, que “pegou geral”. O filme revela um cenário real, mas deixa a entender, sobretudo pela predisposição do senso comum em querer entender assim, que a solução para a violência está na eliminação de sua fonte, qual seja, o bandido: favelado, na sua maioria não-branco e de pouca instrução. Lamentáveis as confusões que o filme, mas sobretudo a Revista Veja, formadora de opinião importante no país, fazem de um dos problemas mais sérios e graves que devemos enfrentar nas próximas décadas. Capitão Nascimento não venceu, ele perdeu, ele não é um neo-kantiano, ao contrário, ele é um confuso, antidemocrático, cujas convicções totalitárias se transformaram num receituário fascista para políticas públicas. Falar nisso, é muito importante termos cuidado com os convictos.

Nenhum comentário: