A história anedótica e seus heróis

Mozart Linhares da Silva


Michel Foucault quando se referia à história oficial, cheia de personagens eméritos, heróis de moral ilibada e honrados, cheia de feitos e exemplos a seguir, usava a expressão “história anedótica”. E é evidente que o historiador e filósofo francês tinha razão. A história como um conjunto de dados, fatos, datas e feitos que circundam personagens e heróis é um ato político, um ato interessado, acomodador das consciências.
A história apologética dos heróis, como era feita por historiadores do século XIX, causou enorme prejuízo à imagem da história (como conhecimento sério e acadêmico) nas sociedades contemporâneas. E pelo simples fato de ser uma história não só inventada, mas muito bem inventada, com propósitos e objetivos plenamente alcançados, ou seja, distanciar as sociedades de sua história e, sobretudo, de sua historicidade. O que pouca gente percebe, e essa história trata de fazer com que não se perceba mesmo, é que esse tipo de ato político que é a história dos heróis e personagens, personaliza os acontecimentos e desresponsabiliza a sociedade como um todo. Para o bem ou para o mal. O triunfo assim como as catástrofes seriam atos individuais e assim não nos comprometeria. Assim é que Tiradentes é patrono da independência e Hitler o autor da II Guerra. Dois absurdos, mas tudo bem. Isso absolve a pátria de Hitler da primeira metade do século XX bem como contorna o papel do povo brasileiro do final do século XVIII e início do XIX do papel importante de dinamizar o processo histórico da independência.
Para ficarmos com um exemplo de como a história oficial e conservadora (aquela de decorar fatos e datas e feitos heróicos ensinada nas escolas até os anos 1980) é um ato político, basta pensar no mito de Tiradentes. O alferes que viveu no século XVIII, em Minas Gerais, e participou da tentativa malograda da Inconfidência em 1789, só passou a existir historicamente a partir do período Republicano. E por quê? Simples, porque se precisava de um mito, de um herói fundador que significasse a um só tempo o espírito republicano e antimonárquico. É por isso que Tiradentes não existia no período imperial. Ao criar o mito, tratou-se de aproximá-lo de valores comuns à população, como a imagem cristã, consagrada na representação de Tiradentes de Barba longa (proibida para um alferes na época) no patíbulo, como mártir e salvador. O homem corajoso, destemido e condenado pela antiga metrópole por lutar por seu povo é uma grande anedota, mas com efeito social efetivo no imaginário republicano. Tiradentes não poderia ser um herói do período monárquico, não poderia nem existir, somente como traidor, pois lutava contra a Casa de Bragança, da dinastia imperial. Criam-se heróis conforme convém aos momentos presentes. É o presente criando o passado com um fim pedagógico, com objetivos políticos precisos. Assim é com as terminologias. Ainda há quem chame o golpe/ditadura militar no Brasil de Revolução. Uma disputa conceitual revela um posicionamento político e não apenas uma maneira de entender um fenômeno.
Sorte nossa que essa história oficialesca está sendo condenada ao anedotário da “história” e as sociedades estão percebendo que mais que servir de engodo, a história é fundamental para entendermos as dinâmicas, os processos e os movimentos sociais, políticos, econômicos e culturais que regem nossas vidas. Mais que servir para nos dar lições do passado (que são sempre duvidosas) a história deve nos instruir para viver melhor o presente.

Um comentário:

Ir4an Pas disse...

Ola! Bela iniciativa Mozart, acredito que usando mais essa ferramenta podes contribuir ainda mais com a educação e com o debate e reflexão sobre a sociedade em que vivenos. "Quem não se movimenta não sente as correntes que o amarram." Rosa
Iran Pas
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