PÓS-MODERNIDADE: PROBLEMATIZAÇÕES CONCEITUAIS A PARTIR DA CATEGORIA ESPAÇO-TEMPO

Palestra proferida na UFSM em 2006


Mozart Linhares da Silva



Não pretendo aqui expor uma definição conclusiva da pós-modernidade. Isso teria desdobramentos incontroláveis frente aos inúmeros problemas que suscitaria em vários níveis, na arte, na estética, na história, na filosofia, sociologia, entre outros. Pretendo levantar algumas questões que implicam nas reflexões da chamada pós-modernidade, nomeadamente aquelas que dizem respeito a uma nova relação com a categoria espaço-tempo e assim estabelecer um diálogo.
Ao abrirmos a discussão acerca da Pós-modernidade, o primeiro problema que poderíamos apontar consiste no que chamaremos de “efeito moderno da concepção de tempo” no entendimento da pós-modernidade. É o que implicaria a idéia do Pós. O que este prefixo remete? Segundo o Oxford English Dictionary pós-moderno significa: Subseqüente ou posterior ao que é moderno (Peters, 2000, p. 14). Nesta mesma direção o sociólogo C. W. Mills, em 1959, chamava a atenção para uma “quarta época” da história humana, que seria posterior à modernidade, a pós-moderna. Muitos estudiosos ainda ratificam esta postura primeira em relação à utilização do termo pós-moderno, contudo, está implícita aí uma incompreensão da própria modernidade. Primeiro, Época Moderna e Modernidade se confundem em esquemas cronológicos que nada ajudam a entender a modernidade. Em segundo lugar, posicionar a reflexão acerca da pós-modernidade a partir de sua posição cronológica subsume o mais importante, vale dizer, que é a condição da pós-modernidade no pensamento ocidental e, portanto, de seu nexo cultural, entendido aqui de forma ampla o que significa pensarmos no conjunto as transformações econômicas, sociais, comportamentais e, evidentemente, intelectuais, científicas e ético-valorativas acerca do homem, do sujeito, da história, da verdade, do tempo, da economia, etc..... Estamos tratando de uma nova cosmovisão e não apenas de uma nova etapa, ao sabor do evolucionismo.
Outras formas de nomear estas transformações podem ser utilizadas, respeitando, certamente, as nuances e idiossincrasias estipuladas pelos seus autores. Anthony Giddens (1991) se refere a estas transformações da cosmovisão moderna de “modernidade tardia” ou globalização da modernidade” e Ulrich Beck de “modernidade reflexiva”. De modo geral estes autores consideram uma tendência crítica da modernidade pensar a si mesma lançando mão de instrumentos da própria tradição moderna. Zigmunt Bauman se refere a “Modernidade líquida” (2001), chamando a atenção para uma nova e complexa concepção de realidade, de certeza, de temporalidade e de dinâmica das mudanças sociais no mundo contemporâneo que não se estruturariam mais em bases sólidas e perfeitamente definíveis. A consagração do termo pós-moderno, vale lembrar, adveio do filósofo francês François Lyotard. Autor do célebre “A condição Pós-moderna” (1988), considera que as transformações do conhecimento nas sociedades contemporâneas, sobretudo naquelas cujo processo de industrialização chegou a um limite da eficiência, implicam numa descrença em relação aos valores e formas totalizantes que caracterizaram a modernidade.
Lyotard se refere aos metarrelados da modernidade, as narrativas legitimadoras da modernidade que teriam, nos dias atuais, perdido a crença e a legitimidade. Segundo Michael Peters, as grandes narrativas a que se refere Lyotard “são histórias que as culturas contam sobre suas próprias práticas e crenças, com a finalidade de legitimá-las. Elas funcionam como uma histórica unificada e singular, cujo propósito é legitimar ou fundar uma série de práticas, uma auto-imagem cultural, um discurso ou uma instituição” (2000, p. 18). Anthony Giddens chama a atenção que para Lyotard “a condição da pós-modernidade é caracterizada por uma evaporação da grand narrative – o ‘enredo’ dominante por meio do qual somos inseridos na história como seres tendo um passado definitivo e um futuro predizível” (1991, p. 12). Esse rompimento com a perspectiva de tempo fundante da modernidade desloca evidentemente uma série de estruturas basilares do ocidente. Entre elas a idéia de progresso e devir.
A incredulidade acerca dos metarrelatos da modernidade teria estruturado um outro posicionamento do sujeito no mundo e com isso uma nova cosmovisão. Os efeitos disso são bem conhecidos, podemos caracterizá-los vulgarmente como crise: a crise do Estado-nação, a crise do direito, a crise do conhecimento e a quebra dos paradigmas consagrados, a crise da idéia de tempo newtoniano, a crise dos valores, a crise da educação e do saber e a crise das identidades, entre outras. Em resumo, estamos tratando de um conjunto de fenômenos que se institui como um mal-estar em relação a tudo aquilo que estava assentado nas bases da modernidade.
A falência dos pressupostos básicos da modernidade para darmos conta do nosso mundo caracteriza uma nova perspectiva acerca da experimentação, do risco e acima de tudo da procura de novas formas de expressão que não mais aquelas cercadas pelas idéias de certeza e previsibilidade. O universo construído pela razão na modernidade prometeu um futuro redentor orquestrado pela idéia de progresso, de fé na evolução e, o que é mais importante, no controle seguro dos instrumentos que cumpririam estas promessas, ou seja, a racionalização.
Os corolários do controle, da previsibilidade, do cálculo, da segurança, da totalidade, da igualdade, do progresso, da evolução, do humanismo, da autonomia, da representação e da homogeneidade constituíram bases seguras no advento do projeto da modernidade. E podemos chamar a modernidade de projeto na medida em que ela se constitui sempre como devir, como promessa, como utopia e além. É na trajetória linear que ela se constitui enquanto projeto civilizatório, um projeto da Razão, que em substituição ao teocentrismo se consolidou no antropocentrismo como alavanca do futuro secular e racionalizador do mundo.
O domínio e controle do tempo na modernidade se caracterizam como elementos centrais no processo de racionalização. E este tempo controlado tinha um objetivo nuclear, dominar o espaço. A modernidade atrela o tempo ao espaço e o domínio do segundo estava relacionado ao controle e otimização do primeiro. Vale a pena nos atermos mesmo rapidamente a este dado.
Zigmunt Bauman chama a atenção para a importância da relação entre tempo e espaço na modernidade justamente ao considerar o segundo como supremo valor e o primeiro como ferramenta. Para o sociólogo polonês, “a ‘conquista’ do espaço’ veio a significar máquinas mais velozes. O movimento acelerado significava maior espaço, e acelerar o movimento era o único meio de ampliar o espaço. Nessa corrida, a expansão espacial era o nome do jogo e o espaço, seu objetivo; o espaço era o valor, o tempo, a ferramenta” (2001, p. 131).
É nesse sentido que “para maximizar o valor, era necessário afiar os instrumentos; muito da ‘racionalidade instrumental’ que, como Max Weber sugeriu, era o princípio operativo da civilização moderna, se centrava no desenho de modos de realizar mais rapidamente as tarefas, eliminando assim o tempo ‘improdutivo’, ocioso, vazio e, portanto, desperdiçado; ou, para contar a mesma história em termos dos efeitos e não dos meios da ação, centrava-se em preencher o espaço mais densamente de objetos e em ampliar o espaço que poderia ser assim preenchido num tempo determinado” (Ibid).
As generalizações são perigosas, mas para efeito ilustrativo arriscamos uma. Se a modernidade até o século XVIII emergiu num processo de conquista territorial e de mundialização do comércio ela iniciou no mesmo processo os cercamentos e as delimitações espaciais das novas monarquias e Estados. O século XVIII com a revolução industrial tratou de ocupar e superocupar os espaços ocupados iniciando a chamada modernidade pesada, das fábricas e exércitos nacionais centralizados e disciplinados. Os Estados-nação expandiram suas fronteiras até a exaustão espacial, seja pela fronteira do território ou pela ocupação colonial. Conforme Bauman, “a modernidade pesada foi a era da conquista territorial. A riqueza e o poder estavam firmemente enraizadas ou depositadas dentro da terra – volumosos, fortes e inamovíveis como os leitos de minério de ferro e de carvão” (Bauman, 2001, p. 132). O Espaço vital dos impérios e potências comerciais e industriais foram construídos a partir da aquisição do valor supremo: o espaço. A delimitação da fronteira do Estado-nação se fez também graças a identificação da população à este espaço, ou melhor a este espaço-tempo identitário, carregado de memórias, mitos, lendas e sobretudo de uma história de pertencimento genealógica, cuja matriz racial fora determinante. A raça ou a etnização da identidade garantia assim a vitalidade do espaço e do território nacional frente a outras nações. A naturalização das fronteiras seguiu e foi seguida pela naturalização da identidade nacional/cultural/étnica.
A essencialização e a naturalização são fenômenos estruturais do discurso moderno. Constituem sua totalidade e abarcam suas fissuras e desvios. Não podemos esquecer que foi a partir da invenção da natureza que a modernidade secularizou sua historicidade e sua funcionalidade. No mesmo caminho os valores e os códigos societários mereceram um ethos fundante ligado a natureza. Veja-se como exemplo o direito natural e o imperativo categórico que propõe a conciliação “da vontade à lei universal da natureza” ou mesmo do posicionamento mais geral da Aufklärung: “de unir a razão e a vontade, de defender uma liberdade que é menos revolta contra a ordem social do que submissão à ordem natural” (Touraine, 1995, p. 31).
No discurso da modernidade a diversidade é obscena, a homogeneidade e a igualdade são a regra e o princípio de ordem. É neste sentido, pois, que a diversidade cultural com sua decorrente diversidade temporal, são subsumidas pela imposição do tempo moderno. É nessa direção que a história ocidental, calcada numa concepção de tempo linear, indiferencia a multiplicidade das temporalidades idiossincráticas das diversas culturas (Ver: Gauer, 1998, p. 17). A essencialização ou mesmo naturalização do tempo moderno, do devir e da idéia de irretroatividade do tempo, impede a relativização acerca das diversas possibilidades de percepção do tempo o que acarreta em etnocentrismos, melhor dizendo, cronocentrismos, emuladores de processos de exclusão. A percepção unívoca do tempo constitui também um critério seguro da percepção unívoca de sociedade. Esta percepção permite a unicidade e a homogeneidade do discurso identitário histórico-nacional, por exemplo (1998, p. 203).
Ora, o que se chama pós-modernidade é justamente a crise deste edifício cultural construído desde o século XV sobre as bases da razão. O mundo contemporâneo não crê mais na razão redentora, na utopia salvacionista. Uma outra dinâmica social insurgiu e marcou forte as novas formas de apreensão do mundo. Tomamos como exemplo a velocidade e seus desdobramentos, sobretudo os advindos das novas tecnologias de comunicação e informação. Uma das características basilares da modernidade foi acelerar os processos. Mas este saiu de controle e escapou do headquarter.
A velocidade, que instaura uma outra ordem do tempo na vida social contemporânea, rasura a idéia de projeto, de planificação a longo ou mesmo a médio prazo. É a dinâmica do cartão de crédito que segundo Pascoal Bruckner, (1998, p. 56), promoveu um “curto circuito no tempo”, consubstanciado no desaparecimento do “intervalo entre o desejo e a sua satisfação”.
A sociedade “desejante”, consumista, voraz pelo novo, enfrenta o dilema do refugo, para usar a feliz expressão Bauman (2004). O novo reificado é traduzido na efemeridade, num movimento repetitivo e circular que implica que se renove tudo sempre. O contraponto desta renovação incessante é o refugo, o lixo, o amontoamento do que é descartado. Segundo Bauman, “ninguém quer voltar a pensar em coisas que já foram rejeitadas (2004, p. 8). Os rejeitos contemporâneos podem ser considerados metáforas do próprio refugo humano, da (des)empregabilidade, cuja proliferação das prisões é um desdobramento revelador. Em que pese os diagnósticos possíveis, é bom lembrar que as possibilidade de previsibilidade segura se esvaem na medida em que o presente-futuro se expande e proselitiza a lógica do efêmero.
Mais importante do que estabelecer um critério para nos posicionarmos quanto a chamada pós-modernidade, é preciso reconhecer que o prioritário é perceber que o mundo contemporâneo nos coloca uma série de questões que nos levam inevitavelmente a chamada questão da complexidade. A complexidade tão alardeada não é um fenômeno contemporâneo, já estava lá, mas subsumida pelo discurso homogeneizador da modernidade. Reconhecer este conjunto de problemas que a contemporaneidade nos coloca é estar disposto a enfrentar outro problema, ou seja, da validade de nossos instrumentos analíticos disponibilizados pela ciência moderna.
Reconhecer ainda que nosso tempo nos coloca uma série de problemas complexos e complexos também porque são planetários, é estar disposto, da mesma forma, a abrir o flanco das defesas teóricas empedernidas para uma postura mais humilde e flexível. Já vivemos o ocaso das teorias de ferro. É necessário pensar a complexidade a partir de instrumentos complexos e não a partir de modelos totalizantes.
A pós-modernidade se instaura como uma nova forma de posicionamento no mundo, uma nova forma de espreitar, de pensar e experimentar o mundo sem pressupostos totalizantes do bem e do mal, do certo e do errado, produtivo ou improdutivo. É bom lembrar Nietzsche que afirmava que “a vontade de verdade traduz uma impotência da vontade de criar” (In: Machado, 1985, p. 85).
Ora, paralelamente às incertezas sociais, subjaz uma incerteza e uma crise da verdade e da ciência. Para lembrar Morin, “A grande descoberta deste século é que a ciência não é o reino da Certeza” Morin, 1988, p. 239).
A certeza e a previsibilidade que formam as condições não somente para a ciência mas para os valores e para a ética não resistem a este niilismo contemporâneo e a esta desconstrução do tempo moderno. E para esta afirmação vale lembrar a Ilya Prigogine, as conseqüências da idéia de certeza podem ser entendidas a partir de duas afirmações complementares, oriundas uma da tradição teológica e outra da empirista: 1) “Uma ciência da certeza está próxima da ciência divina, que não admite a dúvida”; 2) “Uma ciência da certeza é uma ciência em que o mundo é manipulável, à nossa vontade” (Prigogine, 1988, p. 236). Noutro texto o mesmo autor se refere à mudança de perspectiva em relação a previsibilidade e a certeza da seguinte forma: “a física tradicional unia conhecimento completo e certeza: desde que fosse dadas condições iniciais apropriadas, elas garantiam a previsibilidade do futuro e a possibilidade de retroceder o passado. Desde que a instabilidade é incorporada, a significação das leis da natureza ganha um novo sentido. Doravante, elas exprimem possibilidades” (Prigogine, 1996, p. 12).
Este mundo da ordem e da certeza, manipulador e pretensamente seguro da modernidade, não engendra mais a cosmovisão contemporânea. A modernidade que assegurou pra si a responsabilidade de apontar caminhos dá lugar a renúncia e a desculpabilização. O mundo da instantaneidade e do efêmero não advoga pela realidade e sim pelo simulacro e pela multiplicação das cópias, da duplicação, da clonificação sem culpa e sem Édipo.

Referências:

BAUMAN, Zigmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
____. Vidas Desperdiçadas. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
BRUCKNER, Pascoal . BRUCKNER, Pascoal. “Filhos e Vítimas: o tempo da inocência”. In: MORIN, Edgar e PRIGOGINE. (Orgs.) A Sociedade em Busca de Valores. Lisboa: Instituto Piaget, 1988, pp. 51-64.
GAUER, Ruth M. Chittó. "Falar em tempo, viver o tempo!". GAUER, Ruth M. Chittó (Coord) e SILVA, Mozart Linhares da. (Org.). Tempo/história. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998.
GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. São Paulo: Unesp, 1991
LYOTARD, Jean-François. O Pós-moderno. 3. ed., Rio de Janeiro: José Olympio, 1988.
MACHADO, Roberto. Nietzsche e a verdade. 2. ed., Rio de Janeiro: Rocco, 1985.
MORIN, Edgar. “Complexidade e liberdade” In: MORIN, Edgar e PRIGOGINE. (Orgs.) A Sociedade em Busca de Valores. Lisboa: Instituto Piaget, 1988, pp. 239-254.
PETERS, Michel. Pós-estruturalismo e filosofia da diferença. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.
PRIGOGINE, Ilya. “O reencantamento do mundo”. In: MORIN, Edgar e PRIGOGINE. (Orgs.) A Sociedade em Busca de Valores. Lisboa: Instituto Piaget, 1988, pp. 229-238.
PRIGOGINE, Ilya. O Fim das certezas: Tempo, Caos e as Leis da Natureza. São Paulo: UNESP, 1996.
TOURAINE, Alain. Crítica da modernidade. 3. ed., Petrópolis: Vozes, 1995.

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