Epígrafes

Sobre saber-poder

“A Importância da linguagem para o desenvolvimento da cultura está em que nela o homem estabeleceu um mundo próprio ao lado do outro, um lugar que ele considerou firme o bastante para, a partir dele, tirar dos eixos o mundo restante e se tornar seu senhor (...)”
Nietzsche

"A ciência pela ciência é a última cilada que nos arma a moral - e é precisamente essa que envolve a todos inextrincavelmente em sua rede"
Nietzsche



Sobre os historiadores

"À força de querer buscar as origens nos tornamos caranguejo. O historiador olha para trás e acaba crendo para trás".
Nietzsche


Sobre o saber acadêmico

“Gostaria que se considerassem as idéias como temas alegres, como idéias de piquenique, que não se condenassem de antemão todas as outras pesquisas em nome de nossa vontade de poder”.
Paul Veyne

Sobre Tradição e modernidade

“Nas inúmeras discussões entre os Antigos e os Modernos, ambos têm hoje igual número de vitórias, e nada mais nos permite dizer se as revoluções dão cabo dos antigos ou os aperfeiçoam”
Bruno Latour


Relativismo sobre tradição e modernidade

“Dizer que a Ibéria, em última análise, furtou-se às grandes ‘revoluções’ não é negar que fosse sensível às tendências provenientes de todas as partes da Europa, e muito menos dizer que fosse um caso de desenvolvimento estancado”.
Richard Morse



Sobre os novos tempos, a modernidade

"A pena agora, como a espada outrora, edifica reinos..."
Castanheiro, personagem de Eça de Queirós em A Ilustre Casa de Ramires


Sobre a Prisão, de quem a vivenciou

“Esse sistema rouba ao homem a sua energia física, excita-lhe a alma, debilita-lha, intimida-lha, e depois apresenta-nos uma múmia moralmente seca, um meio louco, como obra da correção e do arrependimento”.

Fiódor M. Dostoiévski


Um filantropo das prisões, otimista do encarceramento

“A disciplina das prisões é uma ciência nova que depende de todas as observações do físico e do moral do homem. O crime é uma doença que trataremos mal se nos limitarmos à amputação: é preciso saber curá-lo”.
La Rochefoucauld, filantropo francês


Sobre a prisão

“Mas a obviedade da prisão se fundamenta também em seu papel, suposto ou exigido, de aparelho para transformar os indivíduos. Como não seria a prisão imediatamente aceita, pois se só o que ela faz, ao encarcerar, ao retreinar, ao tornar dócil, é reproduzir, podendo sempre acentuá-los um pouco, todos os mecanismos que encontramos no corpo social? A prisão: um quartel um pouco restrito, uma escola sem indulgência, uma oficina sombria, mas, levando ao fundo, nada de qualitativamente diferente”.
Michel Foucault


Imperativo categórico, “triunfo da razão”.

“Age de tal modo que a máxima da tua vontade possa valer sempre ao mesmo tempo como princípio de uma legislação universal”.
Immanuel Kant


Sobre liberalismo e Escravismo no Brasil, discussão sobre o Código Criminal de 1830.

“Mas, diz-se, os escravos como se conterão sem a pena de morte: como abolir a pena de morte enquanto houver escravos?”
Deputado Rebouças, em 1830.

“Feliz o dia em que a legislação vir banidos diante da luz divina esses dois grandes escândalos da razão do século dezenove: a escravidão e a pena de morte”
Lamartine


Sobre racismo e eugenia

“À margem da higiene propriamente dita, que elimina o perigo de infecção, da higiene social, que se empenha em fazer regredir os fatores sociais de propagação da doença e da delinqüência, entra em cena um rebento das ciências médicas infinitamente menos glorioso: a higiene racial”.
Pierre Darmon



"Se for possível provar que os movimentos atuais são obra de homens pertencentes a uma classe biologicamente, anatomicamente, psicologicamente, psiquiatricamente desviante, então ter-se-á o princípio de discriminação. E a ciência biológica, anatômica, psicológica, psiquiátrica, permitirá que logo se reconheça, num movimento político, o que for efetivamente válido e o que deve ser desqualificado".
Michel Foucault



“Raça é uma construção política e social. É a categoria discursiva em torno da qual se organiza um sistema de poder socioeconômico, de exploração e exclusão – ou seja, o racismo”.
Stuart Hall


Sobre a nova eugenia

“Agora que o microscópico cedeu lugar de modo tão abrangente ao molecular, quero perguntar se essas convenções obsoletas de representação e de observação foram deixadas para trás”.


“Pele, ossos e, até mesmo, o sangue não são mais as referências primárias do discurso racial”
Paul Gilroy



Sobre a sociedade disciplinar e ortopédica

“Destruir huns habitos, e crear outros he sempre a obra do tempo. Por isso a custódia do prezo, e as restrições nas suas commodidades dentro da prizaó formaó a parte mais essencial da disciplina reformatoria”.
Carta Nona de Américus


Sobre as instituições modernas

"Na época atual, todas as instituições - fábrica, escola, hospital psiquiátrico, hospital, prisão - têm por finalidade não excluir, mas, ao contrário, fixar os indivíduos".
Michel Foucault


Sobre os Outros

“Sempre há um número demasiado deles. ‘Eles’ são os sujeitos dos quais devia haver menos – ou, melhor ainda, nenhum. E nunca há um número suficiente de nós. ‘Nós’ são as pessoas das quais devia haver mais”
Zigmunt Bauman.


Sobre o tempo

“O tempo real da inteligência coletiva só pode ser uma emergência; ele sincroniza intensidades de pensamento, de aprendizado e de vida”.
Pierre Lévy

“Realmente, o passado não deixa de indicar-nos que a evolução é a evolução apenas quando ela não seguiu processo provável”.
Edgar Morin


Sobre a velocidade

“Hoje não se viaja, se chega”
Mário Quintana



Sobre as identidades

“Definições são inatas; identidades são constituídas”
Zigmunt Bauman



Sobre o Iberismo e as idéias fora do lugar

“Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas idéias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra”.
Sérgio Buarque de Holanda

Sobre as possibilidades e incertezas

“A Viagem expõe ao desconhecido, à diferença e à incerteza. Ela desenrola-se segundo a modalidade do possível e do contingente. A história cumpre-se, a viagem abre”.

Fernando Gil

IDENTIDADE CULTURAL E ALTERIDADE: UMA CRÍTICA AO ESSENCIALISMO

Mozart Linhares da Silva


O objetivo deste artigo é apresentar algumas reflexões acerca da identidade cultural e suas relações com a alteridade, mas, sobretudo, posicionar a crítica à concepção essencialista de cultural. Este posicionamento crítico é considerado extremamente importante não apenas para a reflexão teórica sobre a identidade cultural, mas para o uso político-estratégico que uma concepção essencialista da identidade propicia. O essencialismo identitário anda de mãos dadas com vieses totalitários, fascistas, nacionalistas e racistas e, vale lembrar, neo-comunitaristas.
Esta é uma dimensão profunda da crítica ao essencialismo, pois ele estrutura a matriz segregacionista lançando mão de uma “regra” “universal” e “natural” que contorna a dimensão política do preconceito.
Tratemos, pois, de três questões, a nosso ver fundamentais, acerca da identidade cultural e da matriz essencialista: a) a “comunidade imaginada” do estado nacional como matriz da identidade cultural moderna; b) o essencialismo e o construtivismo identitário; c) o comunitarismo e o essencialismo identitário e d) o ideal de pureza e a hybris.



a) Identidade/diferença Cultural e Estruturação dos Estados-nação

Norbet Elias (1990) chama a atenção para o dualismo presente na cultura européia entre o Universalismo francês e o Particularismo alemão. O primeiro cunhado nos termos da Civilização enquanto entidade universal e o segundo nos termos da cultura enquanto marcação da diferença. Este dualismo é importante em vários níveis, mas chamo a atenção aqui para o desdobramento da idéia de Kultur, ou melhor, de diferença no processo de construção do Estado-nação na segunda metade do século XIX, período, como sabemos, de unificação da Itália e da Alemanha. Herder, um dos pensadores mais importantes do paradigma das diferenças nacionais, ainda no século XVIII escrevia, antecipando o romantismo, acerca do gênio nacional de cada povo, onde se posicionava pela diversidade de culturas e contra o universalismo iluminista que considerava empobrecedor (Cuche, 1999, p. 27). Nas palavras de Denys Cuche, “Herder queria devolver a cada povo seu orgulho, começando pelo povo alemão. Para Herder, na realidade, cada povo, através de sua cultura própria, tem um destino específico a realizar”. O relativismo de Herder e mesmo o romantismo do oitocentos na Alemanha prepararam o terreno para que o Estado cultural antevisse o Estado político. A unidade cultura enquanto estoque moral, étnico e artístico se fundi à idéia de nação, esculpindo as condições da unificação do Estado.
A construção do nacionalismo como ideologia da nação idiossincrática permitiu a radicalização das diferenças enquanto atributo hierárquico a partir do qual o “nós” se distanciou do “eles”. A definição do campo identitário tornou-se assim assunto de Estado e a identidade passou a ser tratada a partir da monoidentificação, tornando a identidade nacional refratária a culturas alienígenas, consideradas, inclusive, perigosas. Na composição da teia do nacionalismo a diferença marca a positividade do nós em relação ao “eles”. Se o nacionalismo se opõe à alteridade dos outros, dos de fora, ele também, neste processo unificador do Estado, tratou de homogeneizar seu povo, destruindo os regionalismos e os localismos comunitários tanto nas manifestações lingüísticas, artísticas e culturais. Assim é que segundo Bauman, “Afinal, o Estado-nação deveu seu sucesso à supressão de comunidades que se auto-afirmavam; lutou com unhas e dentes contra o ‘paroquialismo’, os costumes ou ‘dialetos’ locais, promovendo uma língua unificada e uma memória histórica às expensas das tradições comunitárias (...)” (2001, p. 198).
O autor continua, afirmando que “os Estados-nação não se lançaram à tarefa no escuro e nem pensariam em depender apenas da força da doutrinação. Seu esforço tinha o poderoso apoio da imposição legal da língua oficial, de currículos escolares e de um sistema legal unificado (...)”. Os recursos pedagógicos como a imprensa e a própria história constituíram também um excelente veículo de desestruturação do localismo que desafiava a construção da textualidade do Estado-nação. Neste texto constitutivo da nação a memória torna-se estratégica na medida em que alenca os elementos balizadores a partir dos quais a comunidade unificada em povo deverá se identificar e se constituir enquanto tal. Assim é que a história torna-se um poderoso elemento de politização da memória e do tempo e, sendo assim, do esquecimento e da exclusão. Práticas como as repetições de signos, datas comemorativas, idealizações do passado, ufanismos e apanágios dos heróis da pátria, narrativas épicas e, sobretudo, a história enquanto lastro político da memória foram estratégicos neste processo de formação do sentimento de pertencimento nacional. Foi somente assim que foi possível imaginar a idéia de origem homogênea das nações. A história naturalizou os aspectos da cultura e a nação naturalizou sua comunidade unificada em povo e este, evidentemente, com o pedigree étnico definido.
A cultura tornou-se, no dizer de Edgar Montiel (2003, p. 18), o “cimento constitutivo” que tendeu a homogeneizar os traços de cada população, “constituindo, assim, um recurso fundamental do Estado para lograr a coesão da Nação”. O conjunto de elementos que são definidos no processo de identificação do Estado-nação pode ser considerado o que Benedith Anderson chamou de “nação Imaginada”. Esta construção imagética da nação forma o espectro identificatório basilar da Identidade nacional. A partir daí não foi difícil tomar a cultura como essências, como dados concretos e definidos, capazes de transitar pelo tempo imaculadamente. Sacralizamos em templos e museus o que é da ordem da dinâmica, da mudança e da construção ininterrupta.
As identidades nacionais/culturais reclamam sempre uma politização do tempo, um reconhecimento espacial estratégico e uma definição de etnicidade. Isso é o que permitiu aos Estados-nação europeus se auto-intitularem alemão, italiano, português entre outros. Mas o que é este pertencimento identitário? Até que ponto podemos pensar a identidade como uma essência ou ainda como algo que nos liga ao universo da cultura como se fosse um vínculo biológico ou genealógico?


b) Essencialismo e Construtivismo Identitário

De modo geral as abordagens acerca das identidades, sobretudo acerca das identidades culturais, podem ser consideradas a partir de duas perspectivas: uma essencialista e a outra a construtivista. Para os essencialistas, pautados na tradição clássica, as identidades são consideradas fatos, entidades e dados dotados de objetividade na sociedade. Segundo Semprini, “Sua existência, sua homogeneidade interna, sua especificidade cultural seriam um fato, aceito como tal e pouco suscetível de evolução. Assim, os negros, os índios ou as demais minorias, são considerados como as peças imóveis do mosaico social” (Semprini, 1999, p. 90-91). Não é difícil perceber que esta concepção de identidade enquanto uma essência permite a justificativas de situações sociais e legitima o status quo, criando ainda, as condições para a resistência às mudanças sociais. Os essencialistas utilizam vários mecanismos para justificar a objetividade identitária, entre os quais vale mencionar a etnia e a herança história, ou mesmo genealógica. Entendem que a cultura é algo que pode ser carregado na bagagem como um conjunto de valores e tradições monolíticas reproduzíveis em qualquer espaço-tempo. Vale lembrar ainda que os defensores do essencialismo hoje procuram legitimar sua posição utilizando-se da chamada autoridade científica pautada no controverso “essencialismo genético”, segundo o qual “cada grupo humano está condicionado definitivamente quanto à inteligência e em seu potencial de mobilidade social conforme seu patrimônio genético” (Semprini, 1999, p. 91). (Para uma crítica às teorias raciais e a própria categoria raça ver, entre outros: Gold, 1999, Darmon e Cavalli-Sforza, 2003).
Ao contrário dos essencialistas, os construtivistas pensam as identidades do ponto de vista histórico considerando as escolhas políticas, econômicas e ainda as relações de poder. Isso porque “toda identidade é fundada sobre uma exclusão (o que não se é ou o que não se deve ser) e, nesse sentido, é um efeito do poder” (Hall, 2003, p. 85). A dinâmica que embala as relações sociais é considerada um fator primordial para entendermos que as identidades não são fixas, objetivas e perenes. Elas são, isso sim, dinâmicas e em permanente construção. Identidades são, numa palavra, híbridas. Não é possível a pureza quando se está em movimento, se está vivo. Segundo Stuart Hall (2003, p. 83), “As comunidades migrantes trazem as marcas da diáspora, da ‘hibridização’ e da différance em sua própria constituição. Sua integração vertical a suas tradições de origem coexiste como vínculos laterais estabelecidos com outras ‘comunidades’ de interesse, prática e aspirações, reais ou simbólicas”. É preciso concordar com Enoch Powell (Apud. Hall, 2003, p. 78) para quem, “a vida das nações, não menos que a dos homens [sic], é vivida em grande parte na mente”. Sendo a nação, na realidade, uma forma imagética que tende a homogeneizar os traços constitutivos da identidade, é evidente, a primeira vista, que a nação se funda na igualdade. Como alerta Hall (2003, p. 78), “Ao contrário do que se supõe, os discursos da nação não refletem um estado unificado já alcançado. Seu intuito é forjar ou construir uma forma unificada de identificação a partir das muitas diferenças de classe, gênero, região, religião ou localidade, que na verdade atravessam a nação”. Na realidade, o discurso identitário nacional se constitui como sistema assimilacionista e nas palavra de Bauman, “o propósito das pressões pela assimilação era despojar os ‘outros’ de sua ‘alteridade’: torná-los indistinguíveis do resto do corpo da nação, digeri-los completamente e dissolver sua idiossincrasia no composto uniforme da identidade nacional” (2003, p. 85).
Enfim, a postura construtivista percebe a identidade como uma construção que implica numa diversidade de fatores que merecem atenção sobretudo pela sua complexidade. Imaginar que as identidades são concretas e fixas é desconsiderar a complexidades das relações em que as narrativas identitárias são construídas.
Segundo o construtivismo então, as identidades não são essências, não são entidades ou dados objetivos mas sim construções plásticas, móveis, fluidas e dinâmicas. É na dinâmica da hybris que podemos apreender o fenômeno identitário e não na pureza ou na herança. É na produção de espaços intervalares que podemos vislumbrar a criatividade identitária, espaços de contato em que as culturas friccionam e iniciam novas experiências.

c) Comunitarismo e essencialismo identitário

É fundamental para pensarmos a identidade cultural superarmos o determinismo de oposições binárias nós-eles, os de dentro e os de fora. Se é aceitável que a identidade se constrói também por contraste e, portanto, não pode ser separada da marcação da diferença, é importante ressaltar que isso não significa que podemos apreender os nós ou os eles como entidades fixas, acabadas ou mesmo fechadas. Se entendemos que a identidade é uma construção simbólica que resulta na significação de nós mesmos é impreterível que se perceba que este sistema de significação não só não é aleatório como não é um dado objetivo e final ou mesmo imóvel. Para entendermos esse fenômeno relacional da identidade podemos utilizar, como já é corrente nos Estudos Culturais e pos-estruturalistas, o conceito de différance derridiano. A par deste conceito, o “significado é sempre diferido ou adiado; ele não é completamente fixo ou completo, de forma que sempre existe algum deslizamento” (Woodward, 2000, p. 28). É por isso que a identidade é sempre, como sugere Stuart Hall, um “tornar-se”. A différance possibilita entender também que não se pode “conservar intactas as formas antigas e tradicionais de vida (...) pois ela impede que qualquer sistema se estabilize em uma totalidade inteiramente saturada” (Hall, 2003, p. 60). Derrida ao enunciar as várias dimensões do conceito em pauta afirma que “primeiramente, différance remete ao movimento (ativo ou passivo) que consiste em diferir, por retardo, delegação, adiamento, reenvio, desvio, prorrogação, reserva” (2001, p. 14).
Tomando-se o conceito de différance assim definido e associando-o à problemática da identidade temos uma abordagem que oferece importantes subsídios à crítica a visão essencialista. No universo das representações é que as identidades (individuais, nacionais e culturais, entre outras) precisam ser posicionadas e negociadas. Nesse sentido, as identidades nacionais não podem ser percebidas como entidades substantivas; ao contrário, seguindo as pistas de Benedict Anderson, a comunidade imagina, ou no caso, a nação imaginada, oferece ao Estado-nação um efeito de realidade que se por muito tempo se manteve seguro e estruturado hoje não sobrevive às diversas diásporas e movimentos migratórios que expuseram as identidades no cenário de crise.
A crise de identidade no mundo pós-guerra, diagnosticada por vários especialistas (Woodward, 2000, Hall, 2003; Bhabha, 1998; e Silva, 2000, entre outros) expôs um fenômeno que senão recente agora se tornou evidente. A pureza identitária é uma quimera e seus efeitos políticos devastadores. Coloca-se em xeque não apenas a pobreza das abordagens que entendem a identidade como monocultural mas sobretudo pôs sob as lentes da crítica as apropriações políticas da própria diversidade cultural entendida nos quadros do multiculturalismo e mesmo o chamado comunitarismo moderno que tende a demonizar a globalização para encobrir a perversidade de seu discurso homogeneizador na esfera local ou regional. Assim é que, comunidades que se pretendem puras, purificadas, homogêneas, monoculturais ou mesmo etnicamente definidas tendem a se auto-guetificar, para usar uma expressão de Bauman. Penso que este processo comunitarista reifica a identidade regional ou local se posicionando numa trincheira politicamente inquestionável nos dias atuais que consiste na crítica às pretensões homogeneizadoras da globalização. Tendemos a pensar o comunitarismo como aliado na luta contra os efeitos “perversos” da globalização sem nos darmos conta que o inimigo está na trincheira, ou seja, o discurso comunitário reproduz a lógica do nacionalismo em escala local e trata a diferença como ameaça. Os processos de exclusão de minorias e dos chamados forasteiros é evidente e a etnização da cultura seu efeito mais perverso. Assim como o local e o tribal significaram uma ameaça ao Estado-nação, o discurso comunitarista entende a diferença ou os diferentes como ameaças intramuros. A guetificação voluntária (Ver: Bauman, 2003, p. 105) que se constitui em mecanismo de defesa identitário procura afastar o perigo do estrangeiro. Ele, o estrangeiro, é o responsável pela impureza, criminalidade, imoralidade, empobrecimento, endemias e tudo o mais. Em oposição ao estrangeiro, temos no comunitarismo o nativo, aquele cujas “raízes” estão pautadas na tradição da comunidade. Não é sem sentido que as narrativas identitárias das comunidades tendem a buscar desesperadamente um passado unívoco comum como mobilizador ideológico.
O estrangeiro é recepcionado na comunidade com a marca indelével de não pertencer a este passado comum e sua diferença é eterna frente ao grupo considerado homogêneo. Conforme Bauman, “o pecado da origem errada – o pecado original – pode ser tirado do esquecimento a qualquer momento e transformado em acusação contra o mais consciencioso e devoto dos ‘assimilados’. O teste de admissão nunca é definido; não há aprovação conclusiva” (2003, p. 87).
Vale a pena reproduzir a seguinte citação de Jeffrey Weeks, colhida por Bauman (2003, p. 91-92) acerca do comunitarismo: “O mais forte sentido de comunidade costuma vir dos grupos que percebem as premissas de sua existência coletiva ameaçadas e por isso constroem uma comunidade de identidade que lhes dá uma sensação de resistência e poder. Incapazes de controlar as relações sociais em que se acham envolvidas, as pessoas encolhem o mundo para adaptá-lo ao tamanho de suas comunidades e agem politicamente a partir dessa base. O resultado é com freqüência um particularismo obsessivo como modo de enfrentar e/ou lidar com a contingência”.

O comunitarismo é um efeito direto do proselitismo identitário, do fechamento do grupo frente à diferença. A relação entre identidade comunitária e Identidade Cultural é entendida a partir de uma lógica simples: a identidade comunitária se fixa com estratégias comuns àquelas utilizadas na estruturação da Identidade nacional só que em escala microscópica. O regionalismo torna-se o meio termo entre a comunidade e o global. Reclama para ele um status imaginário de congregação das diferenças num discurso homogeneizador que pretende dar conta dos laços da comunidade com o nacional e o global. Seria, a região, a última fronteira antes da comunidade.

d) O ideal de pureza e a hybris
Frente às colocações acima não se torna difícil entender que não podemos nos referir a identidades puras, fixas e imutáveis. As identidades são construções híbridas. Seja àquela constituída na esfera do Estado-nação, constituidora da chamada “comunidade imaginada”, seja as identidades hoje consideradas em crise em função do processo pós-colonial e o embaralhamento simbólicos das antiga comunidades imaginadas pela pressão infatigável das narrativas identitárias dos chamados outros, os oriundos das antigas colônias ou mesmo das minorias que adquiriram direito a voz no universo público da res-pública. O fato é que as identidades nacionais criaram o ideal da pureza, o discurso da unidade insuspeita. Ora, este ideal que, vale lembrar, foi embasado pelo discurso oitocentista da eugenia e higienia e chegou ao seu ápice no século XX na tragédia do holocausto, merece ser enfocado. Isso porque o ideal de pureza se constituiu como um elemento civilizatório de grande mote pois se apresentou como a antinomia da mistura, da sujeira, do impuro, do maculado, etc. A própria idéia de razão, estrutural na modernidade, implica numa representação da clareza, da luminosidade, da harmonia e do cristalino. A concepção de desrazão leva ao entendimento do embaçado, confuso, indistinto, impuro, caos. Não é sem sentido, como lembra Bauman acerca da Narrenschiffen (naus dos loucos) se referindo a metáfora de Michel Foucault em História da Loucura, que “Nos primeiros anos da idade moderna (...) os loucos eram arrebanhados pelas autoridades citadinas, amontoados dentro de Narrenschiffen e jogados ao mar; os loucos representavam ‘uma obscura desordem, um caos movediço (...) que se opõe à estabilidade adulta e luminosa da mente’; e o mar representava a água, que ‘leva deste mundo, mas faz mais: purifica’” (Bauman, 1998, p. 13).
O discurso da identidade pura remete justamente a este processo higienizador, de eliminação das impurezas, leia-se dos Outros, dos de fora. Mas o entendimento da pureza está na ordem da cultura e é necessário para pensá-la, adentrar no campo da relatividade. Ou melhor ainda, o conceito de pureza deve ser pensado a partir da idéia de ordem e de posicionamento. O cotidiano de certa comunidade é cercado pela ordem, pela previsibilidade, pelo (re)conhecimento dos códigos sociais. O estranho, estrangeiro, forasteiro ameaça esta ordem. O estranho “despedaça a rocha sobre a qual repousa a segurança da vida diária” (Bauman, 1998, p. 19). Daí o ideal de pureza definir a comunidade como pura e o estranho como o que traz o caos, a desordem, aquele que altera a ordem ordinária. Mas, mais do que isso, o estranho mostra a comunidade que adentra que ela não é tão segura assim de sua pureza, mostra a ela a sua fraqueza e fragilidade. Aterroriza pela sua contra-narrativa, pela sua inconveniência de estar fora do lugar ou no lugar que não deveria pertencê-lo.
É justamente a ordem das coisas, o lugar ou a posição das coisas no mundo é que definem o critério da pureza. “Sapatos magnificamente lustrados e brilhantes tornaram-se sujos quando colocados na mesa de refeição. Restituídos ao monte dos sapatos, eles recuperam a prístina pureza. Uma omelete, uma obra de arte culinária que dá água na boca quando no prato do jantar, torna-se uma mancha nojenta quando derramado sobre o travesseiro” (Bauman, 1998, p. 14).
Os movimentos higienistas do início do século XX estiveram sempre aliados ao movimento eugenista ou seja, os cuidados com a limpeza e com a higiene estavam relacionados à própria limpeza racial. A ambição da pureza racial levou aos resultados que todos conhecemos. Mas é importante notar que mesmo com os efeitos impressionantes que o ideal de pureza da modernidade acarretou mantemos a pureza como valor insuspeito e negamos relacionar as políticas segregacionistas e xenófobas com este comportamento e esta percepção.
O contraponto da pureza pode ser colocado na hybris. O que os teóricos contemporâneos como Gruzinski (2001), Bauman (1998), Stuart Hall (1999), Homi Bhabha (1998), entre outros, demonstram é que o sonho da pureza é justamente uma concepção da pureza que exclui a possibilidade de ordem com a hybris. Mas é justamente a hybris que pode ser considerada um valor universal. Foi justamente o caráter nômade da humanidade que permitiu sua diversidade e enriquecimento cultural ou seja, sem o contato com a diversidade, sem o movimento não teria a humanidade desenvolvido o processo de hominização. A evolução não ocorre na ordem mas na desordem, no inusitado promovido pelo desequilíbrio da ordem (Ver: Morin, 1986).
A identidade cultural concebida a partir de uma visão essencialista evidentemente não percebe que a condição da criação, desenvolvimento e enriquecimento cultural está na sua possibilidade de transformação constante, na sua negação a fixação. A identidade cultural é o resultado constante de suas relações com a diversidade. Não há identidade que não seja híbrida. Este foi o sonho do segregacionismo. O neo-comunitarismo contemporâneo vem justamente se apropriar de um discurso da pureza para promover a demonização dos outros. Negar a diferença e promover a exclusão.

Referências:
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BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
_________. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
__________. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
BHABHA, Homi K. (1994) O local da cultura. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1998.
CUCHE, Denys. (1996) A noção de cultura nas ciências sociais. Bauru, EDUSC, 1999.
DARMON, Pierre. Médicos e assassinos na Belle Epoque. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.
DERRIDA, Jacques. Posições. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.
ELIAS, Norbert. O processo civilizador: uma história dos costumes. Rio de Janeiro: Zahar, 1990.
GOULD, Stephen Jay. A falsa medida do homem. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
GRUZINSKI, Serge. O pensamento mestiço. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
HALL, Stuart. (1992).A identidade cultural na pós-modernidade. 3ª ed., Rio de Janeiro: DP&A, 1999.
MONTIEL, Edgar. “A nova ordem simbólica: a diversidade cultural na era da globalização” In: SIDEKUM, Antônio (Org.). Alteridade e multiculturalismo. Ijuí: Ed., Unijuí, 2003.
MORIN, Edgar. O método III o conhecimento do conhecimento/1. Mira-Sintra: Publicações Europa-América, Biblioteca Universitária, 1986.
SEMPRINI, Andrea. Muticulturalismo. Bauru/São Paulo: EDUSC, 1999.
SILVA, Tomaz Tadeu da. “A produção social da identidade e da diferenaça”. In: SILVA, Tomaz Tadeu da (Org). Identidade e Diferença: A perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2000.
WOODWARD, Kathryn. “Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual”. In SILVA, Tomaz Tadeu da (Org). Identidade e Diferença: A perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2000.