O caminho para a liberdade

Esse texto é de um grande amigo e escritor que convidei para publicar nesse espaço!

Luís Fernando Ferreira
E-mail: lufcamus@yahoo.com.br


Carl Sagan conta essa história no livro O mundo assombrado pelos demônios. Frederick Bailey era uma criança negra norte-americana na Maryland de 1828. Uma criança escrava, arrancada há muito tempo dos braços da mãe e vendida como uma posta de carne. Em 1828, Bailey tinha dez anos e vivia como escravo doméstico na casa do capitão Hugh Auld, em Baltimore. Nesse ambiente ele se deparava, todos os dias, com livros e pessoas que sabiam ler. E seu interesse foi cativado em pouco tempo.
Bailey memorizava as letras do alfabeto e tentava entender os sons que elas representavam. Um dia criou coragem e pediu a Sophia, esposa de Auld, que lhe ajudasse no aprendizado. Fascinada com a inteligência e dedicação do menino, ela concordou. Mas acabou infringindo – por desconhecimento, talvez – uma das leis mais emblemáticas da escravidão: todos os escravos deveriam permanecer analfabetos. No Sul antes da guerra civil, os brancos que ensinassem um negro a ler eram severamente punidos.
Quando Bailey já soletrava palavras de três e quatro letras, o capitão descobriu o que estava ocorrendo. Furioso, ordenou a Sophia que interrompesse as aulas. Na presença mesmo do garoto, explicou à mulher: “Um preto deve apenas saber obedecer ao seu senhor – deve cumprir as ordens. O conhecimento estragaria o melhor preto do mundo. Se você ensinar esse preto a ler, não poderemos ficar com ele. Isso o inutilizaria para sempre como escravo.”
Auld repreendeu Sophia desse modo, como se Bailey não estivesse na sala com os dois, como se fosse um pedaço de madeira. Mesmo assim, acabara de fazer ao menino uma revelação que este jamais esqueceria: “Eu agora compreendia (...) o poder do homem branco de escravizar o homem negro. A partir daquele momento, eu compreendi qual era o caminho da escravidão para a liberdade”. Anos mais tarde, Frederick Bailey fugiu para a Nova Inglaterra (onde a escravidão era proibida), mudou seu nome para Frederick Douglass e se transformou num dos maiores oradores, escritores e líderes políticos da história norte-americana.
A grande pergunta que Carl Sagan nos faz é esta: “Se Frederick Douglass, uma criança escravizada, conseguiu ensinar a si mesmo o caminho para o conhecimento e a grandeza, por que alguém em nossos tempos mais esclarecidos continuaria incapaz de ler?” Não se refere somente aos que tiveram barrado o acesso à alfabetização; fala também dos que, sabendo ler, não lêem. Estes são os piores analfabetos, como já disse Millôr Fernandes. Renunciaram à própria capacidade de compreender o mundo.
A falta de leitura comprime os horizontes e escraviza o espírito. “Não há liberdade para o ignorante”, observa o filósofo Alain Finkielkraut (A derrota do pensamento). Especialmente em uma sociedade de mercado pós-moderna, onde o indivíduo tem de assumir a responsabilidade por si próprio, pois não há mais instituições preocupadas em protegê-lo. Cabe a ele a tarefa de se “qualificar”, isto é, adaptar-se às constantes mudanças do mundo globalizado. Isso exige confiança e criatividade: a capacidade de agir ou pensar de forma inovadora em relação aos padrões de atividade preestabelecidos. Mas sem ler nos tornamos escravos, ainda que livres de correntes ou grilhões visíveis.
A falta de leitura condena a uma condição subalterna, quase subumana. A percepção crítica definha e somos incapazes de distinguir o principal do secundário, o essencial do banal, o coerente do absurdo; tudo o que determinada conseqüência implica e o que, pela mesma razão, ela impede. O resultado é a impotência. Assistimos à violência, fome, desemprego, corrupção e outras mazelas angustiantes sem saber o que fazer, porque não compreendemos o que ocorre. Não conseguimos “ler” o mundo. Ele é um quebra-cabeças insondável cujas peças estão fadadas ao isolamento: analfabetos funcionais, falta-nos discernimento para juntá-las. “Compreender” é estabelecer conexões.
A falta de lógica pode ser vista em muitas redações de vestibular, cheias de parágrafos incoerentes, frases sem nexo e uma alarmante falta de conteúdo. Inevitável pensar: se alguém não é capaz de interpretar um texto, um simples enunciado, como vai interpretar a realidade, muito mais complexa que qualquer texto? Há um volume crescente de informações lançadas por toda parte, mas não servem para nada: os eleitores praguejam contra a corrupção e votam em corruptos, preocupam-se com o aquecimento global e depreciam os ambientalistas. Quer dizer, comportam-se sem a menor lógica, feito imbecis. Na melhor das hipóteses, são fantoches submissos que aguardam soluções salvadoras do poder. Mas onde está “o poder”?
“O indivíduo sente-se preso, sem saída, em uma caótica massa de dados e aguarda, com paciência comovente, que os especialistas descubram o que fazer e para onde ir.” (Erich Fromm, O medo à liberdade) O diagnóstico foi feito no final da década de 1930, mas ainda é válido. E como falta capacidade analítica para entender o “caos”, apela-se às explicações fantasiosas. E elas surgem de todo tipo: teorias conspiratórias (“os judeus estão por trás disso”, “a mídia quer dominar o mundo”), desígnios misteriosos de Deus, conjunções astrais, etc. O fundamental é achar explicações, porque não conseguimos viver sem elas. E se a razão não as oferece, talvez o pensamento mágico ofereça... a resposta talvez esteja nos cristais ou em outra vida. Porque nossa racionalidade é insuficiente, precária, possivelmente ilusória.
É o que dizem. Mas há um problema: como alguém pode aproveitar a razão se nem a desenvolveu? Um adulto que não consegue organizar idéias num pedaço de papel não chegou à maturidade intelectual. É uma criança, pronta a ser enganada pelo primeiro charlatão atrás de votos que cruzar seu caminho. Crianças pequenas fazem vários esforços inarticulados até proferirem uma frase. Rimos das tentativas frustradas e torcemos para que ela as supere. Ora, adultos incapazes de articular o pensamento estão em situação análoga. A diferença é que, ao contrário da criança, muitos não querem se superar. Rigorosamente, não fazem uso da razão. Não pensam por si próprios e dependerão sempre de “muletas”.
“Se não podemos pensar por nós mesmos, se não estamos dispostos a questionar a autoridade, somos apenas massa de manobra nas mãos daqueles que detêm o poder. Mas, se os cidadãos são educados e formam as suas próprias opiniões, aqueles que detêm o poder trabalham para nós.” (Carl Sagan, O mundo assombrado pelos demônios). Certamente, os tiranos e governantes ineptos preferem populações mergulhadas na ignorância. Mas a liberdade é uma possibilidade sempre aberta.

2 comentários:

Eduardo Cardoso disse...

Parabéns pelo texto! Tenho um pequeno portal e gostaria de divulgá-lo para nossos leitores, se me permitir. Aguardo o retorno. De já, agradeço.

Eduardo Cardoso

Mozart Linhares da Silva disse...

Oi Eduardo, obrigado pelo comentário, pode divulgar sim.

abraço