APRESENTAÇÃO

Identidades rasuradas: o caso da comunidade afro-descendente de Santa Cruz do Sul (1970-2000) de Mateus Skolaude enfrenta a problemática da construção das identidades da comunidade afro-descendente em regiões de colonização germânica, no caso, na região de Santa Cruz do Sul, no Vale do Rio Pardo. E enfrenta essa problemática a partir da perspectiva dos Estudos Culturais, contornando as concepções essencialistas da identidade e da cultura, normalmente legitimadas por abordagens folclorizadas das expressões e manifestações “culturais”. Ao se distanciar da tradição historiográfica regional, normalmente tendente a uma visão ufanista em relação aos mitos fundadores da comunidade étnica, o autor focaliza as identidades que são construídas para além das narrativas homogeneizadoras, caracterizadas pelo germanismo. Desloca o olhar, justamente, para os sujeitos afro-descendentes e ressalta como ocorrem os processos de subjetivação dessas identidades frente o discurso identitário germânico regional. É nesse sentido que Mateus procura chamar a atenção para o fato inequívoco de que as identidades são construídas a partir de relações de poder e tencionamentos políticos que merecem ser analisados. É assim que demonstra como as identidades que pretender ser homogeneizadoras, como no caso da germânica em Santa Cruz do Sul, se constroem a partir de narrativas contrastivas que necessitam do “Outro”, do diferente, nem que para isso esse outro seja construído, inventado. Daí os processos de estereotipação das identidades rasuradas, no caso, dos negros em Santa Cruz do Sul, considerados em sua positividade quando está em jogo o arranjo multicultural (no sentido conservador da categoria) na região.
Por essas razões, entre outras, que o leitor vai descobrir, este livro cumpre um duplo papel na história e sociologia da Região do Vale do Rio Pardo e mesmo do Rio Grande do Sul. Primeiro porque enfrenta um tema por muito tempo negligenciado no que tange as relações sociais e étnicas na história da formação das regiões coloniais do Estado, sobretudo por colocar em evidência as relações hierárquicas e conflitivas na construção das identidades étnicas e culturais em regiões cujas narrativas identitárias são caracterizadas majoritariamente pelo triunfalismo étnico, no caso o germânico. É inegável que esse tipo de enfoque é comumente contornado pela historiografia e sociologia tradicionais. Nesse aspecto, o trabalho de Mateus Skolaude se distancia também das “sociologias frias”, comumente calcadas em interpretações quantitativas cujos sujeitos são apresentados como meras abstrações da dinâmica social.
O segundo papel que este livro cumpre situa-se nas suas opções metodológicas. Consciente de que seu objeto de estudo é por demais provocativo, o autor procurou seguir uma série de procedimentos e cuidados metodológicos que de fato cercassem de cuidados as afirmações e conclusões apresentadas. Além de uma reflexão acerca do papel da historiografia regional na construção e legitimação de discursos proselitistas e míticos de cunho étnico, realizou uma perspicaz análise do papel da imprensa escrita nesse processo constituidor das identidades étnicas em Santa Cruz do Sul. Para isso instrumentalizou alguns dos procedimentos da Análise de Discurso, próxima dos ensinamentos da escola Francesa, nomeadamente de autores como Michel Pêcheux e Michel Foucault. Utilizando dessa mesma metodologia o autor analisou 16 entrevistas que realizou com a comunidade afro-descendente de Santa Cruz. Uniu, de certo modo, as duas pontas analíticas, a da imprensa, considerada um poderoso recurso pedagógico na produção das narrativas identitárias homogeneizadoras da região e a dos chamados sujeito rasurados, aqueles constituídos e subjetivados por discursos identitários para os quais são considerados como contrastivos. Entre a visibilidade e invisibilidade do “Outro”, as identidades e suas relações de poder são colocadas em “xeque” e reveladas em suas estratégias políticas. As hierarquias e estereotipias sociais e étnicas são cuidadosamente reveladas pelo autor demonstrando uma outra história das relações étnicas em regiões de colonização, como é o caso de Santa Cruz do Sul.
Ao realizar a escuta do outro, no caso, dos afro-descendentes, Mateus contribui também para demonstrar como funcionam os processos naturalizadores e essencialistas da identidade étnica e cultural, como eles atuam incisivamente na subjetivação desses sujeitos rasurados do arranjo comunitário regional.
O distanciamento das abordagens tradicionais que procuram enfatizar a história do triunfo dos pioneiros, das genealogias étnicas, dos valores agregados desde a chegada dos heróis fundadores, permitiu ao autor contornar a cegueira paroquial e revelar outras dimensões por vezes invisibilizadas na constituição da região de Santa Cruz do Sul.


Mozart Linhares da Silva
Santa Cruz do Sul, abril de 2008

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