A Igreja, o nazismo e a violência: a trágica conjunção histórica

Mozart Linhares da Silva


Em que pese ser trágico, é esclarecedor que no mesmo contexto que um Bispo ultraconservador da Igreja Católica, Richard Williamson, tenha colocando em dúvida as atrocidades, mais que documentadas, do horror nazista e da execução planejada e fria de mais de seis milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial, uma equipe médica tenha sido excomungada pela Igreja Católica, pasmem, por salvar a vida de uma menina de nove anos grávida de gêmeos resultado de abuso sexual. Não fosse a Igreja Católica uma das instituições que mais pregou a violência e o constrangimento na história ocidental e, sobretudo, acobertou obscuramente a pedofilia entre seus membros, tudo isso poderia ter certa coerência canônica. Coerência em se tratando de uma “racionalidade” interna aos textos cuja exegese insiste em deitar tintas.
Vivemos uma época interessante, não fosse assustadora. O movimento revisionista das atrocidades e crimes do século XX, propagandeada entre outros pelo Presidente Iraniano Mahmud Ahmadinejad é um bom exemplo de irracionalidade histórica. Em que pese a desastrada e violenta política israelense no oriente médio, nada autoriza colocar em xeque os acontecimentos da II Guerra. Outro exemplo da política do esquecimento é a decisão do Reino Unido, pressionado pelas comunidades muçulmanas, de retirar dos manuais escolares a temática do holocausto.
O constrangido Papa, símbolo do atraso da Igreja do século XXI, espera a retratação do Bispo, o que na opinião da Santa Madre Igreja resolveria o “lapso” da declaração (espera-se mais do que isso). Todos sabem da participação, seja pelo silêncio ou mesmo pelo ativismo, de membros da Igreja nos programas nazi-fascistas europeus. O que nos espanta é que passado meio século de fatigantes e detalhadas investigações sobre o maior crime já cometido por uma nação nos tempos modernos seja ainda colocado em dúvida, e com o pífio argumento da matemática das vítimas. O que importa se foram um, dois ou seis milhões de pessoas brutalmente assassinadas? O que muda? Segundo a declaração do bispo: "não existiram as câmaras de gás na Alemanha nazista" e que só morreram "200.000 a 300.000 judeus" e não os seis milhões que se calcula (Ver: O globo, 18/01/2009). Para a Igreja, defensora do espírito humanista, ter entre seus membros tipos como o Bispo Williamson já é motivo para colocar em dúvida a própria ética católica, ultimamente comprometida por vários escândalos.
O movimento neonazista europeu tem crescido significativamente nos últimos anos, e provas disso são divulgadas pela imprensa internacional diariamente. Vale à pena dar uma consultada na internet para se ter uma idéia disso.
O próprio Estado-nação alemão através de inúmeras declarações reconhece e ainda continua se desculpando ao mundo pelo holocausto. Significativo é o pedido de desculpas da primeira ministra alemã, Angela Merkel, em Israel no ano de 2008, quando visitava o Museu do Holocausto. (Ver O Globo, 17-03-2008). Quando o governo de um Estado confirma sua história oficial dessa maneira é o suficiente para se dissiparem as dúvidas. É bom lembrar que na Alemanha colocar o Holocausto em dúvida é crime. Os campos de concentração ainda estão lá para visitação pública, com folhetos explicativos e guias que orientam meticulosamente apontando para os fatos mais aterrorizantes praticados pelo Nazismo. Uma luta histórica e elogiável pelo não-esquecimento. Um constante constrangimento é vivenciado pelo Estado Alemão para não permitir esse esquecimento, em que pese os grupos neonazistas ainda dizerem o contrário. É necessário uma iniciativa parecida do Estado do Vaticano. É preciso estarmos atentos e nos posicionar contra o revisionismo irresponsável, contra o racismo e todas as formas de preconceitos, sobretudo quando são difundidas por instituições com forte apelo popular.

Um comentário:

Stefano disse...

http://www.youtube.com/watch?v=Jr5Q5Volv88