Nietzsche

















Quando não se coloca o peso da vida na própria vida, mas sim no "além", no nada, então retira-se da vida toda sua importância. A grande mentira da imortalidade pessoal destrói toda razão, todo instinto natural. Tudo que é benéfico, vital, promissor nos instintos, suscita cada vez maior desconfiança. Viver assim, de modo a esvaziar o sentido do viver, isso tornou-se atualmente o "sentido" da vida. (O Anticristo)




O cristianismo tem necessidade de doença, da mesma forma mais ou menos como os gregos tinham necessidade de excesso de saúde; criar doentes é a meta obscura de todo sistema de procedimentos de cura da Igreja. (O Anticristo)



O homem de fé, o crente de qualquer espécie é obrigatoriamente um homem dependente, um desses que não pode colocar sua própria meta ou colocar metas para si mesmo. O crente não se pertence, só sabe ser um meio, tem de ser consumido, precisa de alguém que o consuma. Seu instinto fornece a honra mais alta à moral de auto-esvaziamento: tudo persuade para isso, sua inteligência, sua experiência, sua vaidade. Toda forma de crença é em si mesma uma expressão de auto-esvaziamento, e auto-afastamento. (O Anticristo)

Charles Baudelaire!!!


Deus é o único ser que, para reinar, nem precisa existir!


O trabalho não é o sal que conserva as almas mumificadas?


As nações não têm grandes homens senão contra a vontade delas - assim como as famílias!

Pessoa / Álvaro de Campos



POEMA EM LINHA RETA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Quintanares....




Quintana sabia ser sábio com alegria e simplicidade! E claro, com sarcasmo singular!

O milagre não é dar vida ao corpo extinto,
Ou luz ao cego, ou eloqüência ao mudo...
Nem mudar água pura em vinho tinto...
Milagre é acreditarem nisso tudo!




A GRANDE SURPRESA

Mas que susto não irão levar essas velhas carolas se Deus existe mesmo...

Tempos Sombrios

Mozart Linhares da Silva


Dizer que brasileiro tem memória curta é lugar comum, contudo, é preciso levar a sério o que entendemos por memória e seus desdobramentos políticos e culturais, seja pela política do esquecimento ou, o que é pior, pela política de construção de uma memória revisionária. O esquecimento pode ser um bom mecanismo de defesa, uma boa maneira de amenizar nossos fardos sociais. Foi assim na era Vargas e na Ditadura Militar quando se educou gerações para esquecer a escravidão e as atrocidades cometidas no Brasil, o esquecimento dos mecanismos de produção da pobreza e do racismo, as estratégias obscenas de esquecimento das vítimas das torturas e desmandos dos períodos sombrios de nossa História.
Isso tudo não é exclusividade nossa. Faz parte das dinâmicas sociais e dos jogos de poder de qualquer regime. É preciso lembrar a maquinaria de esquecimento da antiga União Soviética, por exemplo, ou mesmo da Revolução Cultural Chinesa. Mas vivemos atualmente uma política perversa de revisionismos, e isso nos torna reféns da construção de uma memória no mínimo escandalosa. Um dos casos mais debatidos atualmente é o posicionamento da Folha de São Paulo sobre a Ditadura Militar, cujo eufemismo “Ditabranda” caiu como uma bomba nos setores mais críticos da sociedade. Esse é o tipo de revisionismo trágico. Mais uma vez a utilização da matemática das vítimas é usada como critério comparativo para contrastar a Ditadura brasileira com as outras latino-americanas, sobretudo as da Argentina e Chile. O fato de nossos vizinhos terem se esmerado em torturar e matar com mais afinco que nossos algozes faz da ditadura no Brasil apenas uma “brincadeira de mau gosto”. Posso imaginar o sentimento das pessoas cujos amigos e familiares tombaram nos porões da polícia-política das ditaduras nacionais. Será que alguém ainda lembra do chefe de polícia Varguista? O senhor Filinto Muller? Pois é, nossos monstros são esquecidos facilmente. A política revisionista do período mais sombrio de nossa história republicana deseduca, é um retrocesso no processo de amadurecimento democrático, uma estratégia poderosa de embrutecimento social. Da mesma forma que a política do esquecimento fez retornar ao cenário político tipos como Collor de Mello, manter no poder do Senado um dos Presidentes mais infames da República, como José Sarney, devolver Calheiros a um lugar de honra na Câmara, ela produz o abrandamento das responsabilidades e a panacéia da impunidade. Efetivamente, estamos vivendo tempos sombrios, maquiados pelo figurino da prosperidade e da liberdade. Já destruímos a Educação desse país, amputamos a humanidade de nossos currículos, tecnificamos as relações sociais e optamos por uma via da farsa, do engano e da injustiça. Não é sem sentido que possamos também ressignificar períodos como a Ditadura Militar em uma “Ditabranda” quando, ao invés disso, poderíamos estar nos educando melhor para fazer da memória um bom mecanismo crítico para um acerto de contas com nossa história republicana.
"O professor disserta sobre ponto difícil do programa. Um aluno dorme. Cansado das canseiras desta vida. O professor vai sacudí-lo? Vai repreendê-lo? Não. O professor baixa a voz, com medo de acordá-lo."

Carlos Drummond de Andrade