Tempos Sombrios

Mozart Linhares da Silva


Dizer que brasileiro tem memória curta é lugar comum, contudo, é preciso levar a sério o que entendemos por memória e seus desdobramentos políticos e culturais, seja pela política do esquecimento ou, o que é pior, pela política de construção de uma memória revisionária. O esquecimento pode ser um bom mecanismo de defesa, uma boa maneira de amenizar nossos fardos sociais. Foi assim na era Vargas e na Ditadura Militar quando se educou gerações para esquecer a escravidão e as atrocidades cometidas no Brasil, o esquecimento dos mecanismos de produção da pobreza e do racismo, as estratégias obscenas de esquecimento das vítimas das torturas e desmandos dos períodos sombrios de nossa História.
Isso tudo não é exclusividade nossa. Faz parte das dinâmicas sociais e dos jogos de poder de qualquer regime. É preciso lembrar a maquinaria de esquecimento da antiga União Soviética, por exemplo, ou mesmo da Revolução Cultural Chinesa. Mas vivemos atualmente uma política perversa de revisionismos, e isso nos torna reféns da construção de uma memória no mínimo escandalosa. Um dos casos mais debatidos atualmente é o posicionamento da Folha de São Paulo sobre a Ditadura Militar, cujo eufemismo “Ditabranda” caiu como uma bomba nos setores mais críticos da sociedade. Esse é o tipo de revisionismo trágico. Mais uma vez a utilização da matemática das vítimas é usada como critério comparativo para contrastar a Ditadura brasileira com as outras latino-americanas, sobretudo as da Argentina e Chile. O fato de nossos vizinhos terem se esmerado em torturar e matar com mais afinco que nossos algozes faz da ditadura no Brasil apenas uma “brincadeira de mau gosto”. Posso imaginar o sentimento das pessoas cujos amigos e familiares tombaram nos porões da polícia-política das ditaduras nacionais. Será que alguém ainda lembra do chefe de polícia Varguista? O senhor Filinto Muller? Pois é, nossos monstros são esquecidos facilmente. A política revisionista do período mais sombrio de nossa história republicana deseduca, é um retrocesso no processo de amadurecimento democrático, uma estratégia poderosa de embrutecimento social. Da mesma forma que a política do esquecimento fez retornar ao cenário político tipos como Collor de Mello, manter no poder do Senado um dos Presidentes mais infames da República, como José Sarney, devolver Calheiros a um lugar de honra na Câmara, ela produz o abrandamento das responsabilidades e a panacéia da impunidade. Efetivamente, estamos vivendo tempos sombrios, maquiados pelo figurino da prosperidade e da liberdade. Já destruímos a Educação desse país, amputamos a humanidade de nossos currículos, tecnificamos as relações sociais e optamos por uma via da farsa, do engano e da injustiça. Não é sem sentido que possamos também ressignificar períodos como a Ditadura Militar em uma “Ditabranda” quando, ao invés disso, poderíamos estar nos educando melhor para fazer da memória um bom mecanismo crítico para um acerto de contas com nossa história republicana.

Nenhum comentário: