Genealogias e além

Gostaria de apontar alguns problemas no comentário publicado nesse espaço, dia 27 de agosto, pela Coordenadora de Comunicação Karen Hägele, a respeito de meu artigo Falso Aprendizado e Genealogias, publicado dia 22 de agosto. Não voltaria a escrever sobre o assunto não fosse o caso de perceber uma série de confusões conceituais, posições equivocadas e juízos de valores que muito pouco tem a ver com a discussão que levantei naquela ocasião.
A autora inicia seu artigo me acusando de ser desrespeitoso com pessoas que são adeptas das genealogias. Não foi minha intenção apontar os indivíduos e sim as práticas sociais. A autora foi desrespeitosa ao se autorizar a discutir publicamente um assunto que não domina, e que necessita de formação acadêmica específica, como é o caso da Educação e da História. Essas áreas não podem ser consideradas como passatempo lúdico ou diletante. A autora tenta construir um conceito de História que, vale dizer, já foi usual durante boa parte do século XIX, período de construção das identidades Nacionais e primeira metade do século XX, na construção dos nacionalismos. Ao contrário do que afirma a Sra. Karen, a História não tem como fim a genealogia, a História não é feita por indivíduos e famílias. E também não é feita de “heróis”, “grandes homens” e “grandes mulheres”! Esse conceito positivista e ufanista da História foi superado a mais de 70 anos. Todo o historiador profissional, com formação acadêmica, que produz conhecimento histórico sério e responsável, sabe que as dinâmicas históricas, as mentalidades, a cultura e as relações de poder colocam a História para além dos personalismos. Uma produção profícua na área da História atesta isso há quase um século, como é o caso das incontáveis publicações da Escola dos Annales, dos historiadores da Nova História, da História Cultural e das Idéias. Mas para um entendimento mais pontual desses equívocos creio que a leitura de Arqueologia do Saber, de Michel Foucault seria importante, um texto básico e muito conhecido pelos especialistas.
Concordo com a autora quando ela afirma que a prática genealógica é um passatempo lúdico. E é a isso que a prática genealógica diletante deve se limitar. E de fato, acompanhando alguns sites de genealogias na internet (majoritariamente freqüentado por amadores e diletantes sem formação acadêmica na área) o que se verifica é isso, pessoas que utilizam as genealogias para manifestar seus orgulhos, sejam familiares, culturais, tradicionais, regionais e por aí vai. Quase sempre um certo ufanismo e proselitismo deixam sua sombra nesses discursos.
Agora, quando utilizadas pedagogicamente, as genealogias possuem implicações graves sim, sobretudo considerando as mudanças na lógica de estruturação familiar dos últimos 30 anos. No caso brasileiro, por exemplo, onde um número assustador de crianças não possui o nome paterno em sua certidão de nascimento (30% de 180 mil certidões de nascimento analisadas no País. Ver Jornal do Comércio, 14/08/2009), a prática genealógica corre o risco de se tornar humilhante e estigmatizante. Como um professor pode gerenciar pedagogicamente, de forma construtiva, uma atividade como essa sem que muitas crianças em sua classe se defrontem com questões no mínimo constrangedoras? Que modelo de família é esse que estimula as práticas genealogias nas escolas? Evidentemente que esta prática é profundamente conservadora, não raro etnicista.
As genealogias possuem inúmeras utilidades, nomeadamente, na medicina e nas áreas biomédicas em geral. Do ponto de vista histórico e social, serve para fornecer dados que, se tratados por profissionais com formação adequada (Historiadores profissionais, Cientistas Sociais, Antropólogos), podem ajudar em algumas análises de contexto e processo históricos.
Quando as genealogias são utilizadas para afirmação identitária como sugere a Sra. Karen (entenda-se identidade num sentido essencialista) ela corre o risco de produzir discursos diferencialistas, laudatório, regionalistas e mesmo nacionalistas, como foi o caso da primeira metade do século passado.
O bom da “boa” genealogia, se ela fosse possível na prática (ela o é teoricamente) é que demonstra sim nossa ancestralidade, mas a comum a todos nós, e nos leva inevitavelmente para um mesmo lócus de origem, a uma mesma família, a de todos nós, para além dos nomes e sobrenomes. Façamos o exercício, como passatempo, sugerido pelo geneticista Barbujani: Cada um de nós tem pai e mãe, quatro avôs e oito bisavôs, 16 trisavôs (raramente conhecidos) e 32 tetravôs e assim por diante. Em tese isso significa que em 250 anos ou 10 gerações cada um de nós teve cerca de 1024 antepassados cada um dos quais teve também mil antepassados. Cada um de nós descende de 1 milhão de antepassados que viveram no tempo de Colombo, de 1 milhão de milhões de antepassados no ano 1000, e vários bilhões no tempo de Cristo. Se isso pode não ser possível em função dos casamentos consangüíneos, nos mostra, isso sim, que cada um de nós tem um número despropositado de antepassados, muitos dos quais está lendo esse artigo. Não há saída. Segundo Guido Barbujani (2007, p. 15), “recentemente, Douglas Rohde, de Massachusetts Institute of Technology, calculou que quaisquer duas pessoas de nosso tempo têm um antepassado comum que viveu há pouco mais de três mil anos. Podemos apostar que qualquer desconhecido é um parente mais ou menos chegado”.
Esse é um bom exercício pedagógico, dissipar os diferencialismos étnicos e as hierarquias sociais embasadas por falsas histórias e falsas pedagogias. Num mundo da diversidade e do hibridismo, num país cuja formação é calcada na miscibilidade, genealogias são constituidoras de um ideal de “pureza” inconcebível. A sala de aula é um espaço da diversidade de sujeitos sociais. Nela temos crianças brancas, negras, mestiças, órfãos, que não conhecem pais e mães, e muito mais. Um exercício de genealogia nesse ambiente pode ser desastroso.

3 comentários:

Mozartt disse...

Excelente texto, meu camarada. Devastador! Só um estúpido discordaria dessa sua resposta.. Uma boa variante para o título desse artigo poderia ser Genealogias do Além.

Márcia disse...

Muito bem meu caro, diria que mesmo sem domínio sobre o assunto só com um pouco de visão crítica e senso de humanidade qualquer um compreende a importância do teu alerta, mas para isso é preciso ler com atenção o texto... PENSAR... PENSAR... PENSAR... (risos)... mas a moça teve peito pena que não conhecia o amigo.

marilia disse...

Pois é colega e eu que havia achado muito interessante o trabalho que minha filha teve de fazer sobre genealogia da família..claro que como ela estuda numa escola de classe média ninguçem teve problemas do tipo falta do nome do pai etc etc...mas certamente numa escola de outro tipo poderia haver...mas ainda me assaltam dúvidas...fico pensando quanto importante é a questão da origem...quantos filhos adotados querem saber de onde realmente vieram...outra coisa...mesmo concordando em parte com o fato de que genealogias podem levar ao reforço de preconceitos, penso que existe algo de simbólico nesse lance de buscar sua identidade familiar, saber de onde viemos, mesmo que isso acabe lá no fundo em origens comuns como tu dizes, gostaria de te ver explorar mais este aspecto do simbólico e de certa necessidade de saber de onde viemos...sei que me meti numa seara que não domino, mas me interesso muito...grande abraço