O Falso Aprendizado e as Genealogias

Publicado em 22/08/09 na Gazeta do Sul de Santa Cruz do Sul
O que significa genealogia? Por que as escolas durante o século XIX e primeira metade do XX pediam a seus alunos para fazerem a chamada “árvore genealógica” de suas famílias?
A partir da segunda metade do século XIX, até a segunda Guerra Mundial, era prática comum os professores, sobretudo das Ciências Naturais e de História, solicitarem aos seus alunos que fizessem suas árvores genealógicas. Naquele contexto as genealogias não tinham mais o mesmo significado social e cultural que tiveram entre os séculos XVI e XVIII, quando essa prática era uma questão política, relacionada à verificação de pertencimento a nobrezas, diretamente vinculada à consangüinidade.
No final do século XIX as genealogias eram realizadas pelas famílias nobres decadentes que procuravam firmar o que sobrava de seus sobrenomes ou pelas novatas famílias burguesas que procuravam amparar/firmar seu status em ascendências hereditariamente convincentes, pois o mérito pessoal passou a ser o resultado também de qualidades inatas herdadas. Era a época do evolucionismo e da construção da ciência eugênica, que, amparada pelo novo conceito de raça fazia da hereditariedade um fator importante de status social. Época de autores racialistas como Jean Louis Rodolphe Agassiz (1807-1873), Joseph Arthur de Gobineau (1816-1882), Houston Stewart Chamberlain (1855-1927), Cesare Lombroso (1835-1909), o delirante criminalista criador da categoria Criminoso Nato; Francis Galton (1822-1911), criador da eugenia, entre outros legitimadores da raça como categoria científica.
As genealogias nos tempos atuais não só não possuem o menor sentido, do ponto de vista social e identitário, mas, sobretudo, reforçam percepções racialistas, hoje infundadas, e preconceito social, que merece ser combatido. Orgulho de pertencimento por linhagem pode ter sido uma prática comum no período anterior a Segunda Guerra, quando os próprios Estados autoritários faziam uso das genealogias para estigmatizar indivíduos e grupos ou mesmo escolher seus eleitos. Na realidade, as genealogias tornaram-se formas de purificação hereditária. Alguém conhece alguma árvore genealógica que aponte os membros familiares mais desviantes, que aponte para o interior das prisões e das margens sociais? Geralmente as árvores genealógicas são cuidadosamente ou inconscientemente construídas para purificar, para apontar uma linhagem positiva. Ora, per si, as genealogias são procedimentos desagregadores do discurso familiar, pois trariam à memória o que não se pode memorar ou admitir. O contrário é ficção. E uma ficção perigosa.
Quando as Escolas do período anterior a Segunda Guerra pediam árvores genealógicas para seus alunos nós podemos entender muito bem o que se passava. Hoje não só seria retrógrado, como antipedagógico. Na contramão de uma educação para diversidade e alteridade. As genealogias não podem ser consideradas um exercício pedagógico caso não sejam colocadas sob olhar crítico de professores e alunos, caso não tenham um propósito construtivo para o entendimento das dinâmicas familiares na história e mais, como o orgulho de “raça” foi construído na esfera familiar. Caso contrário, as genealogias são meramente discursos ufanistas, laudatórios e preconceituosos que depõem contra uma educação moderna e aberta ao mundo.

2 comentários:

Iuri disse...

Muito bom, Mozart! Não consegui ler quando saiu no jornal. Mas achei excelente e necessário o teu artigo, ainda mais quando se vê o quanto alguns continuam, ingênua ou deliberadamente (não sei), prontos a chocar o "ovo da serpente"...

Potira disse...

Muito bom mesmo Mozart!

E ainda há "educadores" que acham maravilhoso construir árvores genealógicas e realizar exposições das mesmas...

Eu presenciei uma demonstração dessas ano passado e o irônico é que foi intencionalmente bem registrado para quem quiser ver.

Um absurdo.

Muito bom que o texto foi para o jornal, espero que eles tenham lido e que surta algum efeito.

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