Novo livro: Ciência, raça e racismo na modernidade


Editora: EDUNISC
Cidade: Santa Cruz do Sul - RS



SUMÁRIO

Apresentação
Mozart Linhares da Silva - Ciência, raça e racismo: caminhos da eugenia

Patrícia Lovatto - Evolução humana e engenharia genética: a inexistência de raças no contexto das ciências biológicas modernas

Mauro Gaglietti - O que nos faz humanos: quando a raça e a etnicidade criam um mal-estar paradigmático

Luiz Ricardo Michaelsen Centurião - Racismo e nacional-socialismo

Ruth Maria Chittó Gauer - Etnopsiquiatria e Diferença

Marçal de Menezes Paredes - De convergências e dissidências: notas sobre o repertório teórico do final do século XIX




APRESENTAÇÃO



O que torna a idéia de raça tão sedutora? O que faz com que a ciência tenha tantas dificuldades em abandonar sua obsessão em relação à raça, mesmo frente às inúmeras demonstrações, da própria ciência, da inexistência da raça? Qual o legado científico que amparou as políticas racistas do século XX, como o Nazismo e os movimentos eugenistas? Qual o percurso da raça enquanto categoria no oitocentos, considerando as matizes do positivismo e do evolucionismo? O que diz a engenharia genética sobre isso hoje? Quais os novos figurinos do racismo cientificamente conduzido? Como a etnopsiquiatria ressignificou a raça em cultura em sua abordagem biopolítica da alteridade, normalidade e anormalidade, da ubiqüidade que se constitui no conceito de humano, de homem?
Os seis ensaios reunidos nessa coletânea, a partir de diversas áreas do conhecimento, procuram apresentar algumas possibilidades de respostas para essas questões e mostrar como a ciência forneceu os aportes teóricos para a legitimação de uma categoria, hoje refutada, cujas implicações políticas podem ser traduzidas nas formas do racismo e dos genocídios vivenciados no século XX. Da mesma forma, os ensaios aqui reunidos colocam em “xeque” o status da ciência desinteressada, ingenuamente ou estrategicamente amparada pela neutralidade científica e, partir de saberes específicos, mas não engessados, conduzem a discussão das questões prementes que permitem pensar o “devir da raça”, seu percurso histórico, seu aparato científico, epistemológico e, evidentemente, suas implicações políticas. Escritos de forma simples, mas com rigor acadêmico, convidam o leitor a pensar sobre os dilemas ainda presentes nas sociedades contemporâneas.
As questões suscitadas pelo biodeterminismo, pela bioética e pelos novos figurinos da eugenia colocam às sociedades contemporâneas a necessidade premente de repensar o estatuto da ciência como força motriz das formas de organização sociais. As manifestações revisionistas acerca do holocausto, propagadas por líderes de Estado e mesmo de instituições religiosas não são simples recursos de retórica circunstanciadas, elas revelam permanências e posturas que inevitavelmente nos convidam a pensar o alcance político que o racialismo ainda possui. E não se pode imaginar que essas manifestações são isoladas ou mesmo inocentes, elas são repercutidas também pelo campo da ciência. É o caso da publicação do best-sellers The Bell Curve, pelos “cientistas” Richard J. Herrnstein e Charles Murray, em 1994.
The Bell Curve não foi traduzido no Brasil, o que nos causa certa surpresa. Esse livro impressionante foi publicado em 1994 nos EUA e foi logo conduzido a best-sellers, entusiasticamente debatido e elogiado por muitos. E o que ele propunha era provar a inferioridade intelectual dos negros norte-americanos, demonstrando o quanto era absurdo investir em famílias cuja prole não contribuiria para a grandeza da nação. Baseado nos reciclados e decantados testes de coeficiente de inteligência, essa obra procura provar a inferioridade intelectual dos negros apontando para a raça como rasura da civilização norte-americana. Na mesma direção, o que leva um renomado cientista, premiado com o Nobel de Medicina por sua participação na descoberta da estrutura de dupla hélice do DNA, James Watson, declarar que pessoas que já tiveram empregados negros não acreditam que seja verdade que eles possuem inteligência igual a nossa; ou defender a idéia de tratamentos genéticos para a feiúra feminina; ou ainda defender o aborto quando as grávidas puderem saber se a criança nasceria homossexual? (Ver: FOLHA UOL, 2007). O que tem de ciência nessas posturas? O que tem o sexismo, a homofobia, o racismo e outros preconceitos sociais com o a porte científico?
Ao recolocar o debate acerca da raça como categoria analítica em pauta, essa coletânea visa contribuir para tencionar suas possibilidades analíticas e apresentar, a partir de diversas áreas e matizes, as implicações da ciência na construção do paradigma racial e seus desdobramentos políticos, traduzidos no racismo. Colocar em questão, com isso, o status da ciência desinteressada, ingenuamente ou estrategicamente amparada pela neutralidade política e científica, ambas igualmente refutadas.


Mozart Linhares da Silva
Organizador
Maio de 2009