Texto de Juremir Machado cita obra de aluno do Curso de História da UNISC

Correio do Povo, domingo, 12 de dezembro de 2010, pg 02.

Malditos e estranhos

Há algum tempo, citei aqui uma frase de Tolstoi: "Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira". Saiu sem a palavra "felizes". Dormi no ponto. Um leitor percebeu. A felicidade é tão sem graça literariamente que me escapou. O sociólogo polonês, professor na Inglaterra, Zygmunt Bauman, transformou a sacada de Tolstoi em "todas as sociedades produzem estranhos. Mas cada espécie de sociedade produz sua própria espécie de estranhos e os produz de sua própria maneira". É água no vinho. Bauman está na moda no Brasil graças a textos na Folha de S. Paulo. Ele teve uma grande ideia na vida: a modernidade líquida, o amor líquido, etc. Tudo é líquido com ele.



A frase que citei acima é a epígrafe de um livro (Edunisc) interessante, "Identidades Rasuradas, o Caso da Comunidade Afrodescendente de Santa Cruz do Sul (1970-2000)", de Mateus Skolaude. Como ser negro numa comunidade germânica? Eis a questão. Vale à leitura. Bauman não diz nada melhor do que Gilles Lipovetsky, Michel Maffesoli ou Jean Baudrillard. Tem a vantagem, no entanto, de não ser francês, num ambiente hostil ao ceticismo e ao niilismo parisienses, e de falar em modernidade em lugar de pós ou hipermodernidade. A modernidade, apesar de nunca ter sido completamente praticada no Brasil, é uma obsessão de escritores, empresários e marxistas. Graças a essa mania, trocamos o transporte ferroviário pelo rodoviário, queremos arranha-céus dentro dos rios, publicamos dezenas de romances ilegíveis todo ano e ainda temos pencas de professores marxistas em nossas universidades públicas.



O grande desafio pós ou hipermoderno é abandonar o esquerdismo marxista sem cair no direitismo. No caso do estudo das comunidades afrodescendentes, Lipovetsky, o rei dos paradoxos, seria talvez mais inspirador do que Bauman: como manter e valorizar uma identidade numa época de crise das identidades? Somos quase todos estranhos. Eu sou estranho e maldito. Qual a minha identidade? Sei apenas das minhas identificações. Passageiras, quase sempre. Sou líquido? Há muito de sólido ainda em nossas vidas. Sou colorado. Sempre. Amo os meus e não os abandono. A maldição e a estranheza são novas formas de identidade ou de identificação. Como já dizia o poeta Jean-Arthur Rimbaud, "o eu é um outro". Mas é o mesmo. Todos os dias, diante do espelho, sou o mesmo. Sempre.



Imaginei um personagem que, de repente, passasse a ter o rosto de outro homem. No começo, chamado pelo nome de outro, estranharia. Diante do espelho, não se reconheceria. A cada manhã, teria um novo rosto. O imaginário, contudo, seria o mesmo. Que pesadelo! O contrário - um mesmo rosto para um imaginário diferente a cada dia - não é menos assustador. Queremos mudar e permanecer, ser estranhos e reconhecíveis. Gostamos de ter a possibilidade de fluir, não de escorrer pelo ralo da vida como um jato de água suja. A maior estranheza ainda é não pertencer a grupo algum. Somos sempre tribais. Nossa fluidez termina na solidez de um grupo.



JUREMIR MACHADO DA SILVA
juremir@correiodopovo.com.br

Revista Mal-estar e subjetividade

http://www.unifor.br/index.php?option=com_content&view=article&id=2026&Itemid=1021

TÍTULO:

SUJEITOS RASURADOS: UMA ANALISE DA CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE AFRO-DESCENDENTE A PARTIR DOS ESPAÇOS EDUCATIVOS NO TERRITÓRIO DO RIO GRANDE DO SUL



Mozart Linhares da Silva e

Viviane Inês Weschenfelder


Resumo:

Resumo


Este artigo tem por objetivo analisar o processo de construção das narrativas identitárias étnicas, sobretudo dos afro-descendentes, no ambiente escolar da região Sul do Brasil, enfatizando, a partir de um estudo de caso, o Vale do Rio Pardo, nomeadamente na região do município de Santa Cruz do Sul, município caracterizado pelo discurso imigrantista teuto. A partir do levantamento de dados obtidos junto ao INEP, IBGE e NUPES, realiza-se uma análise da distribuição étnica da população escolar do Estado e focaliza as regiões de colonização alemã no intuito de caracterizar os processos de visibilidade/invisibilidade das populações afro-descendentes bem como os processos de exclusão legitimados pela imobilidade social oriunda da espacialidade das escolas de periferia, onde se encontram a maioria absoluta dos afro-descendentes. A pesquisa demonstra que os processos de exclusão, que não se resumem à etnicidade, estão relacionados à territorialidade urbana e à localização das escolas, legitimando a imobilidade social e os processos de estigmatização, no caso, de cunho étnico. As escolas não apenas constituem dispositivos identitários, como subjetivam os sujeitos sociais construindo identidades e estereotipias étnicas que rasuram os sujeitos afro-descendentes, impedindo relações interculturais mais amplas, trocas e processos de alteridades que possibilitam a afirmação dos laços de pertencimento comunitário no município em questão, promovendo a invisibilidade e a exclusão identitária.

Universidades Comunitárias

Prezados, a UNISC como Universidade Comunitária está participando (liderando seria melhor dizer) de um movimento de reconhecimento do status de Pública Não Estatal. Não somos uma Universidade Privada, mas não nos enquadramos no conceito de Estatal. Essa situação é incômoda e assim sendo um abaixo assinado está sendo divulgado para mobilizar congressistas a apoiarem o projeto que regula o status de Universidade Comunitária.

Quem, por gentiliza, quiser contribuir entre no site abaixo:

http://www.comunitarias.org.br/site/index.php?option=com_ckforms&view=ckforms&id=2&Itemid=55

História Regional da Infâmia



Faltava esse livro no Rio Grande do Sul. Não que tudo o que está dito na obra seja novidade, não o é por certo, sobretudo para os historiadores. Mas esse livro de Juremir Machado da Silva, que promete muita polêmica, é, realmente, um bom guia para aqueles que detestam o romantismo tolo e infame dos criadores de mitos sociais. História Regional da Infâmia: o destino dos negros farrapos e outras iniquidades brasileiras (ou como se produzem os imaginários), publicado pela L&PM, trata da desconstrução dos mitos que sustentam o imaginário heroico farroupilha e do próprio tradicionalismo sulista. Livro obrigatório nas bibliotecas das escolas e leitura profícua para os implementadores de políticas educacionais no Estado que, muitas vezes, tratam a história do Rio Grande do Sul ou mesmo o tradicionalismo de forma ingênua e acrítica. É lugar comum entre os pesquisadores profissionais os meandros da criação dos mitos regionais: a invenção do gaúcho, as formas de legitimação das histórias míticas acerca da identidade do sul do Brasil, do açorianismo como traço identitário, a ode e os mitos sobre a inexistência de escravos nas regiões de imigração, a democracia pampiana com sua horizontalidade social e assim por diante. Autores importantes, mas ignorados pela grande mídia e pelos promotores de políticas educacionais, Ruben Oliven, Tau Golin, Mário Maestri, Décio Freitas, entre outros, já apontaram em diversas obras como a história oficialesca do estado tem se comportado frente a temas políticos estratégicos, como é o caso da ancoragem da identidade sulista na Revolução Farroupilha, etc,...

Mas esse livro de Juremir carrega consigo o peso de um autor midiático que é, também, um pesquisador profissional, um acadêmico conhecido e cercado por polêmicas também conhecidas. Desde o começo da leitura do livro algo importante é evidenciado. A Pesquisa é ancorada em fontes documentais precisas, não se trata de um ensaio, mas de um texto bem escrito e lastreado pelo espírito investigativo.

O livro mostra com clareza a corrupção entre os líderes da Revolução Farroupilha, o financiamento da campanha a partir da venda de escravos, as traições, entre muitíssimos outros exemplos. Nada de heróis, pouco espírito republicano, nenhum homem saiu com a moral ilibada do evento. Um evento fratricida, como também o foi a Revolução Federalista de 1893, que nada deveria orgulhar uma sociedade. O mundo real, efetivamente. Tudo isso que deveria ser ensinado nas escolas, mas é subtraído por versões romantizadas e doutrinárias, produzidas por diletantes e ideólogos e, pior, distribuídas gratuitamente nas escolas do Estado e adotadas passivamente nos currículos.

A publicação desse livro de Juremir, no entanto, não significa que a partir de agora as coisas serão diferentes. Penso que a indiferença e a precariedade cultural em que vivemos não nos fará sensíveis a infâmia de nossa História Regional. Penso que continuaremos consumindo e ensinando nas escolas uma História anedótica dos heróis, da tradição e por aí vai, no melhor estilo do fascio, com as louváveis exceções, claro. Rubem Oliven, na obra A parte e o Todo, nos mostra um exemplo esclarecedor de como as identidades e as tradições são inventadas, forjadas e até ingenuamente legitimadas, que ilustra esse ceticismo. Trata-se de um poema épico finlandês, intitulado Kalevala, publicado no século XIX, a partir do qual se forjava o folclore e a identidade finlandesas. Mesmo depois de os folcloristas, os intelectuais e, claro, o povo, saberem que se tratava de um poema inventado recentemente e não um épico, portanto, um engodo, preferiram acreditar na sua veracidade. Continuaram a considerar Kalevala um lastro imemorial da identidade da Finlândia. É isso, entre a história e o mito há uma tênue fronteira. É preciso levar a sério a História e aprender com ela, não usá-la como figurino da farsa.

Estatuto da Igualdade Racial em debate

O senador Paulo Paim, autor do projeto original do Estatuto da Igualdade Racial, sancionado pelo presidente Lula em julho deste ano, será o palestrante do Seminário “O Estatuto da Igualdade Racial – avanços e desafios na superação do racismo no Brasil”. O evento ocorre no dia 4 de novembro, às 19h30min, no Auditório Central da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). A promoção é do Diretório Central de Estudantes da Unisc, com o apoio da Universidade, da Prefeitura Municipal de Santa Cruz do Sul e da Comissão Organizadora da Ciranda Afro 2010 de Santa Cruz do Sul. As inscrições são no local, com entrada franca.

"Casa Grande e Senzala" é tema dos Encontros com O LIVRO E A LEITURA desta segunda-feira

Nesta segunda, dia 13/09, às 19 horas, na sala 5330, o Prof. Dr. Mozart Linhares da Silva, comentará o livro "Casa Grande e Senzala", de Gilberto Freyre, em mais um Encontro com O LIVRO E A LEITURA. O evento é uma promoção do Programa de Pós-Graduação em Letras - Mestrado, que tem como objetivo analisar, a partir de diferentes perspectivas teóricas, por meio de uma abordagem interdisciplinar, uma seleção de textos clássicos de autores de língua portuguesa nos âmbitos da Literatura, da Educação e das Ciências Humanas e Sociais.

Mestrado em Educação da UNISC - 2011

Estão abertas, até 05.11.2010, as inscrições para o processo seletivo, turma 2011, do Mestrado em Educação da UNISC. O curso é aberto a portadores de diplomas e concluintes de cursos de graduação nas diversas áreas do conhecimento.

As inscrições podem ser feitas pelo site www.unisc.br/ppgedu <file://www.unisc.br/ppgedu>  ou na Secretaria do Programa (endereços abaixo), mediante apresentação do formulário de inscrição, curriculum vitae documentado, foto 3x4 recente, proposta de investigação e resumo em duas vias (ver modelo no site do Programa), comprovante de pagamento da taxa de inscrição no valor de R$ 80,00, cópia autenticada do diploma de graduação, histórico escolar, carteira de identidade e CPF.

O processo seletivo consiste de prova escrita, de caráter eliminatório, entrevista e análise da proposta de investigação, do curriculum vitae e demais documentos. São oferecidas 20 vagas, conforme as linhas de pesquisa: Aprendizagem, Tecnologias e Linguagens na Educação - 6 (seis) vagas; Educação, Trabalho e Emancipação - 7 (sete) vagas; e, Identidade e Diferença na Educação - 7 (sete) vagas. A lista dos selecionados será disponibilizada, a partir do dia 03 de dezembro de 2010, no site do Programa.



Informações: www.unisc.br/ppgedu <https://evs.unisc.br/exchweb/bin/redir.asp?URL=http://www.unisc.br/ppgedu> / ppgedu@unisc.br <mailto:ppgedu@unisc.br>  / (51) 3717-7543.

Ética do trabalho, escravidão e comunidades imigrantistas no Brasil Meridional


A Ética do Trabalho

O trabalho entendido como um valor social só pode ser analisado se levarmos em conta as diferenças culturais onde é exercido e mesmo a época em que é organizado. Implica na organização dos grupos sociais e dá significado cultural às manifestações político-sociais.
Quando se coloca a questão da comparação entre o trabalho como valor em municípios como Rio Pardo e Santa Cruz do Sul, por exemplo, está-se colocando um problema de fundo antropológico e histórico complexo, mas, sobretudo, está-se colocando uma questão política. Por si só a comparação entre a concepção de trabalho entre grupos descendentes de imigrantes alemães e grupos descendentes de portugueses ou outra etnia qualquer, implica uma intencionalidade, um ato político, sobretudo quando essa questão é suscitada num contexto onde o foco da análise situa-se na comemoração dos 200 anos de um município de tradição luso-brasileira. Espera-se de tal comparação certa hierarquia e, noutro sentido, certo proselitismo étnico. Mas, adverte-se, uma análise mais profunda entre as concepções do trabalho em diferentes culturas pressupõe certo cuidado, um relativismo controlado e uma hermenêutica apurada. Não se trata, dito isso, de uma comparação valorativa, simplista, e sim esclarecedora, analítica.
Em que pese serem grupos sociais que mantêm contato (cotidiano, comercial ou político), desde a segunda metade do século XIX, os teuto-brasileiros da região de Santa Cruz do Sul e a população de Rio Pardo, possuem trajetórias históricas marcadamente distintas, com papeis sociais para ambas as regiões, da mesma forma, muito distintos. A própria fundação dessas regiões ocorreu em contextos históricos diferentes. O que está se problematizando aqui pode ser colocado na seguinte interrogação: Quais as diferenças da concepção de trabalho para ambos os grupos, teuto-brasileiros e luso-brasileiros? Para essa questão ser colocada é preciso imaginar uma hipótese ideal, qual seja, que essas culturas sejam de certa forma preservadas no tempo e refratárias uma a outra, o que é evidentemente um esforço imaginativo, puramente didático. E esse esforço imaginativo funciona para apontarmos algumas diferenças importantes sobre o significa do trabalho para ambos os grupos sociais em sua origem, mas não em sua constituição história de média duração. Como veremos abaixo há alguns pontos de contato da mesma forma importantes que impede que se considere o valor do trabalho agregado a ambos os grupos sociais como de fato tão contrastivos. Trata-se do escravismo imperial que não deixou de penetrar também nas colônias, como colocado abaixo.
Para comparar a ética do trabalho que norteou ambos os grupos sociais, de Rio Pardo e Santa Cruz do Sul, é necessário nos remeter à análise das tradições católica e protestante e perceber como o trabalho como valor foi estruturado a partir de um start religioso. Não se pode considerar esse fenômeno como imutável e refratário às relações e condições históricas que moldaram a constituição de ambos os municípios. Até porque  se a ética do trabalho per si fosse determinista, a região de colonização italiana no planalto não seria bem mais desenvolvida economicamente que outras regiões do Estado. A ética do trabalho é potencial na organização comunitária e na construção de laços de confiabilidade que podem gerar, em ambientes estabilizados e endógenos, certa regularidade econômica, mas não dá conta sozinha da dinâmica história como um todo.


A ética Católica e Protestante: Desvalor e Valor do Trabalho

Desde o Império Romano a palavra trabalho designa um castigo, o tripalium, ou do latim vulgar tripaliare, uma espécie de canga para torturas. O sentido do trabalho como um castigo, como um fardo ou mesmo uma penitência acompanhou o Catolicismo medieval e legou às cortes e à nobreza européia uma postura avessa ao trabalho. Esse era atributo de servos e escravos. O próprio castigo divino no início dos tempos, como no mito de Adão e Eva, foi a condenação ao trabalho como forma de sobrevivência, após o pecado original. A idéia de trabalho como um castigo justificou, na Escolástica dos séculos XVI e XVII, época da expansão dos impérios ibéricos para o Novo Mundo, a própria escravidão. A nobreza lusitana responsável pela ocupação e colonização do Brasil esteve impregnada dessa ética do trabalho como desvalor, o que imputou para a escravidão toda a força de trabalho manual. Os rastros desse legado da ética do desvalor do trabalho acompanham as sociedades latinas até nossos dias, o que não significa que essas sociedades não trabalhem ou trabalhem menos que outras, mas que percebem o trabalho como um meio e não como um fim, o trabalho como oposição ao ócio e ao prazer. O trabalho não é redentor.
No sentido protestante, o trabalho era a condição primeira para desenvolver uma ética social, de responsabilidade individual. O trabalho tinha um determinante extramundano que se refere à graça de Deus. Portanto, como dizia o apostolo Paulo, “a falta de vontade trabalhar é um sintoma da ausência do estado de graça ”. O trabalho tornou-se um caminho para Deus e o sucesso pessoal uma forma de graça. Nesse sentido, o trabalho encontra sua positividade como valor, entendido como um fim.
Segundo o Antropólogo Roberto DaMatta (1991, p. 31), o trabalho em nossa cultura é concebido como castigo. “Muito diferente da concepção anglo-saxã que equaciona o trabalho (work) com agir e fazer, de acordo com sua concepção original. Entre nós, porém, perdura a tradição católica romana e não a tradição reformadora de Calvino, que transformou o trabalho como castigo numa ação destinada à salvação”.
Dessas considerações podemos pensar algumas diferenças marcantes que orientam os valores sociais em sociedades como a de Santa Cruz do Sul e Rio Pardo. Mesmo a população católica da “Alemanha” foi contaminada pelos valores associados ao trabalho na concepção protestante. Os imigrantes que aqui chegaram, sejam católicos ou protestantes, foram educados em sociedades onde o trabalho era um valor social em si, uma forma agregadora da família e da comunidade. Essa ética, evidentemente, sofreu mudanças e, num contexto diferente, como no Império Brasileiro, novos arranjos valorativos foram sendo construídos. O contato com a escravidão e as novas formas de organização econômico-sociais do império colocaram outros elementos formadores nas comunidades oriundas do processo imigratório.

Alguns Mitos que estão sendo superados sobre o Escravismo no Brasil Meridional

            É muito comum apontar a escravidão nas regiões Luso-brasileiras como um fato contrastante com as colônias alemãs. Numa o escravismo teria minado o valor do trabalho, o que é correto, noutra, imune à escravidão, a ética do trabalho teria triunfado, o que explicaria as diferenças de desenvolvimento econômico entre ambas as regiões. Mas se trata de uma história de fundo étnico que a partir desses mitos procura construir uma ética do trabalho calcado no esforço pessoal ou comunitário de grupos sociais que estariam deslocados das estruturas de um Império Escravista. 
A historiografia oficial-tradicional tem comumente tomado a lei como fato no que diz respeito à escravidão nas colônias alemãs, aceitando a legislação que proibia a escravidão nas colônias como uma verdade das práticas sociais. As pesquisas nas últimas décadas, no entanto, vêm esclarecendo e confirmando que as colônias e regiões de imigração não só possuíam escravos, mas participavam ativamente do escravismo imperial brasileiro. Como afirma o historiador Eduardo Silva, no Brasil do século XIX, “A escravidão está por toda parte” e no caso de São Leopoldo, para tomar um exemplo já bastante estudado, “Não deixa de ser uma bela colônia alemã, mas sua história pertence ao Império do Brasil”. É o que mostram várias pesquisas, sobretudo realizadas no âmbito do Programa de Mestrado em História da UNISINOS, que vem contribuindo significativamente para a historiografia do Brasil Meridional. Na mesma direção, as pesquisas do Pastor Luterano Elio E. Müller vêm apontando a participação ativa de escravos na colônia protestante alemã de Três Forquilhas, entre outros trabalhos que estão sendo realizados há quase duas décadas. No caso de Três Forquilhas, a presença de escravos é fartamente comprovada. Segundo o pesquisador: “a compra de escravos por parte de pastor Voges tivera a seguinte motivação: ao término da Revolução Farroupilha, o pastor Voges, vendo que a construção que servia como igreja e escola estava decaindo, propôs que se fizesse uma nova igreja, mais sólida, de pedra. Ele viajara muitas vezes até a Vila de Torres e assim pudera observar que os católicos da Colônia São Pedro também estavam com plano idêntico. Ele não desejava ficar para trás. Os colonos protestantes receberam o plano com satisfação. Porém, ninguém se dispunha a assumir o trabalho de talhar pedras. Diziam que tal tarefa só poderia ser destinada a condenados ou escravos. O fato é que diversos desses imigrantes haviam saído das prisões de Mecklemburgo e Rostock. Talvez os mesmos até tivessem sido forçados a quebrar pedras e fazer outros trabalhos pesados. Essa indisposição da parte dos colonos evangélicos levaria o pastor Voges a buscar uma solução particular. Na primeira viagem a Porto Alegre, ele seguiu até o mercado de escravos. Procurou por negros que conhecessem bem o trabalho de talhar pedras de construção. Foi atendido. Adquiriu então alguns escravos” MÜLLER, 2001). O mesmo pastor, segundo Müller, havia comprado uma jovem mulher escrava, recém-chegado ao Brasil, que serviria a sua esposa: “O pastor decidira adquiri-la com o propósito de aliviar a pesada carga de tarefas que repousava sobre a sua esposa, Elisabetha. Ela, além de mãe de crianças ainda pequenas e do cuidado pelas lides domésticas, também lecionava na escola da Igreja, mantida pelo pastor. Dessa forma, em 1847, entraria na casa pastoral a jovem Maria, da nação nagô, conforme se verifica pelo Registro Eclesiástico” (MÜLLER, 2001). O exemplo do pastor logo foi seguido pela comunidade que também passou a possuir escravos.
Superados os mitos da ausência de escravidão nas colônias é preciso abrir novas rotas de pesquisa no sul do Brasil. Alguns trabalhos podem ser consultados nos Anais do I Encontro “Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional”, realizado no Paraná, em 2003. Em Santa Cruz pesquisas do gênero já estão começando a avançar.


Anais do I Encontro “Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional. Castro, PR, de 23 a 26/09/2003
DAMATTA. Roberto. O que faz o brasil Brasil?. 5. ed.,  Rio de Janeiro: Rocco, 1991, p. 31
MÜLLER, Elio E. “Afro-descendentes da Colônia Alemã Protestante de Três Forquilhas”. Estudos Teológicos 2001, v. 41, n. 2, p. 75-85
SILVA, Eduardo. Apresentação do livro de: OLIVEIRA, Vinícius Pereira de. De Manuel Congo a Manoel de Paula: Um africano ladino em terras meridionais. Porto Alegre: EST editora, 2006.

COMUNITARISMO E NARRATIVAS LEGITIMADORAS NO CONTEXTO PÓS-ESTADO-NAÇÃO

Em breve na página da ANPUH-RS
http://www.eeh2010.anpuh-rs.org.br/



Mozart Linhares da Silva
UNISC
mozartt@terra.com.br

Resumo

O artigo articula o fenômeno atual do comunitarismo com a globalização procurando estabelecer os nexos dessa relação com a profusão de narrativas identitárias de cunho étnico e comunitário. O cenário que se apresenta a partir dos anos 1970 é entendido como um contexto caracterizado pelo neoliberalismo e avanço da globalização e, nessa direção, a profusão de narrativas identitárias étnicas e comunitaristas apontam não só para as formas de resistência ao mundo global, mas também para a descentração do sujeito moderno. O que se problematiza nesse artigo é a relação entre a construção discursiva dessas “identidades” étnicas e comunitárias e a matriz conservadora que articulou, do ponto de vista formal, as narrativas do nacionalismo do século XIX, sobretudo as norteadas pelo Volksgeist.  

Nova edição da Revista Reflexão & Ação

Convido a todos a acessarem a nova edição da Revista Reflexão & Ação. A temática dessa edição, que tive o prazer de organizar, é Educação e Etnicidade e encontra-se no site:

http://online.unisc.br/seer/index.php/reflex/issue/view/81

2ª Jornada acadêmica Mestrado em Educação


Quarta, dia 09/06/2010
Oficina

Currículo, vida acadêmica e poder: normas, números e periódicos.

UNISC, sala 101, as 15:30

Igreja e Pedofilia

Que perigo!!! "Vinde a mim as ciancinhas"!!!

Resenha do livro Ciência, raça e racismo na modernidade




No jornal Gazeta do Sul de hoje (23/04/10) foi publicada a seguinte matéria sobre o livro Ciência, raça e racismo na modernidade, publicado no final de 2009 pela editora EDUNISC.
Autor da resenha: Luís Fernando Ferreira/ luisferreira@gazetadosul.com.br









Site: http://www.gazetadosul.com.br/default.php?arquivo=_noticia.php&intIdConteudo=131000&intIdEdicao=2071



O que torna tão sedutora a ideia de “raça”, de que os seres humanos são essencialmente diferentes em razão de suas características físicas? O que faz com que a ciência tenha tantas dificuldades em abandonar sua obsessão em relação à raça, mesmo frente às inúmeras demonstrações, da própria ciência, da inexistência de raças humanas? São algumas das questões abordadas no livro Ciência, raça e racismo na modernidade, coletânea de seis ensaios organizada por Mozart Linhares da Silva, doutor em História pela PUCRS e professor da Unisc. Publicada pela Edunisc, a obra investiga de que formas o preconceito se revela, muitas vezes, sob o manto da “autoridade científica”.

Ainda hoje existem cientistas que defendem a existência de raças humanas, não só diferentes como “superiores” e “inferiores”. É o caso de Richard J. Herrnstein e Charles Murray, autores de The Bell Curve, livro publicado em 1994 nos EUA (sem tradução no Brasil). Os autores defendem que os negros norte-americanos são intelectualmente inferiores aos brancos, por isso é perda de tempo o Estado investir montanhas de dinheiro na educação daqueles. Também é o caso do biólogo James Watson, famoso por suas descobertas na genética. Em 2007, Watson declarou que pessoas que já tiveram empregados negros não acreditam que sua inteligência é igual à dos brancos. Em outras ocasiões, ele defendeu um tratamento genético para deixar mulheres feias mais bonitas e ainda o direito ao aborto, se as grávidas pudessem saber se a criança nasceria homossexual. Suas afirmações causaram o repúdio imediato de vários geneticistas.

Diante desses fatos, Ciência, raça e racismo na modernidade põe em xeque o caráter “neutro” e “desinteressado” da ciência e aponta suas contribuições na legitimação do racismo e de todo tipo de preconceitos. Mostra como cientistas forneceram os aportes teóricos para a legitimação de uma categoria, hoje refutada – a “raça” –, cujas implicações políticas podem ser traduzidas nas formas do racismo e dos genocídios vivenciados no século XX, principalmente o extermínio dos judeus da Europa. Não foram poucos os médicos e biólogos que participaram de experiências mortais com cobaias humanas nos campos de concentração.

Os ensaios de Mozart Linhares da Silva, da bióloga Patrícia Lovatto, do filósofo Luiz Ricardo Centurião e dos historiadores Mauro Gaglietti, Ruth Chittó Gauer e Marçal de Menezes Paredes propõem vários enfoques de discussão. Patrícia, por exemplo, observa que “a cor da pele corresponde apenas a uma parte ínfima do nosso patrimônio genético: talvez 8 a 10 genes num total de dezenas de milhares. Ela não está ligada a qualquer caráter biológico importante, não podendo, portanto, servir para classificar de modo significativo as populações”.

DIVERSIDADE – Vários estudos foram realizados nas últimas duas décadas sobre a distância genética entre grupos humanos espalhados pelo globo. Constatou-se que 85% da diversidade genética humana fica no interior das populações, e uma fração muito menor – 10% – separa grupos diferentes. A genética contemporânea comprova que a cor da pele não indica sequer a ancestralidade do indivíduo. Como observa Mauro Gaglietti, “nada garante que uma pessoa negra tenha a maior parte de seus ancestrais vindos da África. No Brasil há brancos com ancestralidade preponderantemente africana e negros com ancestralidade predominantemente europeia”. A diversidade é tão grande que poderíamos dizer que, dentro da concepção tradicional de raça, cada indivíduo significa uma raça à parte.

The Bell Curve fez grande sucesso nos EUA. Para Mozart Linhares, “uma prova derradeira para nossos preconceitos históricos seria confortante, sobretudo se pudésemos naturalizá-los de uma vez por todas. As sociedades parecem aceitar com maior entusiasmo publicações que venham de fato “provar” a existência de raças do que aquelas publicações que as desqualificam”. Nesse sentido, os progressos da engenharia genética ameaçam ressuscitar os esforços de “melhoria” e purificação da “raça”. Ciência, raça e racismo na modernidade alerta para o risco de, mais uma vez sob o amparo da autoridade científica, as sociedades caírem no delírio de corrigir ou eliminar as “anormalidades”, em nome do aperfeiçoamento da espécie.

Para (tentar) Pensar!!

"A objeção, o desvio, a desconfiança alegre, a vontade de troçar são sinais de saúde: tudo o que é absoluto pertence à patologia" (Nietzsche)

"Historiador, a quinta melhor profissão do mundo"

Segundo o Jornal Washington Post, na relação entre as 200 melhores e piores profissões do mundo a de historiador está entre as 5 melhores.

A pesquisa foi realizada pelo site CareerCast.com e levou em conta cinco critérios, entre eles renda e ambiente de trabalho.
As cinco melhores profissões:

1. Estatístico
2. Engenheiro de Computação
3. Analista de Sistemas
4. Biólogo
5. HISTORIADOR

http://online.wsj.com/public/resources/documents/st_BESTJOBS2010_20100105.html