Resenha do livro Ciência, raça e racismo na modernidade




No jornal Gazeta do Sul de hoje (23/04/10) foi publicada a seguinte matéria sobre o livro Ciência, raça e racismo na modernidade, publicado no final de 2009 pela editora EDUNISC.
Autor da resenha: Luís Fernando Ferreira/ luisferreira@gazetadosul.com.br









Site: http://www.gazetadosul.com.br/default.php?arquivo=_noticia.php&intIdConteudo=131000&intIdEdicao=2071



O que torna tão sedutora a ideia de “raça”, de que os seres humanos são essencialmente diferentes em razão de suas características físicas? O que faz com que a ciência tenha tantas dificuldades em abandonar sua obsessão em relação à raça, mesmo frente às inúmeras demonstrações, da própria ciência, da inexistência de raças humanas? São algumas das questões abordadas no livro Ciência, raça e racismo na modernidade, coletânea de seis ensaios organizada por Mozart Linhares da Silva, doutor em História pela PUCRS e professor da Unisc. Publicada pela Edunisc, a obra investiga de que formas o preconceito se revela, muitas vezes, sob o manto da “autoridade científica”.

Ainda hoje existem cientistas que defendem a existência de raças humanas, não só diferentes como “superiores” e “inferiores”. É o caso de Richard J. Herrnstein e Charles Murray, autores de The Bell Curve, livro publicado em 1994 nos EUA (sem tradução no Brasil). Os autores defendem que os negros norte-americanos são intelectualmente inferiores aos brancos, por isso é perda de tempo o Estado investir montanhas de dinheiro na educação daqueles. Também é o caso do biólogo James Watson, famoso por suas descobertas na genética. Em 2007, Watson declarou que pessoas que já tiveram empregados negros não acreditam que sua inteligência é igual à dos brancos. Em outras ocasiões, ele defendeu um tratamento genético para deixar mulheres feias mais bonitas e ainda o direito ao aborto, se as grávidas pudessem saber se a criança nasceria homossexual. Suas afirmações causaram o repúdio imediato de vários geneticistas.

Diante desses fatos, Ciência, raça e racismo na modernidade põe em xeque o caráter “neutro” e “desinteressado” da ciência e aponta suas contribuições na legitimação do racismo e de todo tipo de preconceitos. Mostra como cientistas forneceram os aportes teóricos para a legitimação de uma categoria, hoje refutada – a “raça” –, cujas implicações políticas podem ser traduzidas nas formas do racismo e dos genocídios vivenciados no século XX, principalmente o extermínio dos judeus da Europa. Não foram poucos os médicos e biólogos que participaram de experiências mortais com cobaias humanas nos campos de concentração.

Os ensaios de Mozart Linhares da Silva, da bióloga Patrícia Lovatto, do filósofo Luiz Ricardo Centurião e dos historiadores Mauro Gaglietti, Ruth Chittó Gauer e Marçal de Menezes Paredes propõem vários enfoques de discussão. Patrícia, por exemplo, observa que “a cor da pele corresponde apenas a uma parte ínfima do nosso patrimônio genético: talvez 8 a 10 genes num total de dezenas de milhares. Ela não está ligada a qualquer caráter biológico importante, não podendo, portanto, servir para classificar de modo significativo as populações”.

DIVERSIDADE – Vários estudos foram realizados nas últimas duas décadas sobre a distância genética entre grupos humanos espalhados pelo globo. Constatou-se que 85% da diversidade genética humana fica no interior das populações, e uma fração muito menor – 10% – separa grupos diferentes. A genética contemporânea comprova que a cor da pele não indica sequer a ancestralidade do indivíduo. Como observa Mauro Gaglietti, “nada garante que uma pessoa negra tenha a maior parte de seus ancestrais vindos da África. No Brasil há brancos com ancestralidade preponderantemente africana e negros com ancestralidade predominantemente europeia”. A diversidade é tão grande que poderíamos dizer que, dentro da concepção tradicional de raça, cada indivíduo significa uma raça à parte.

The Bell Curve fez grande sucesso nos EUA. Para Mozart Linhares, “uma prova derradeira para nossos preconceitos históricos seria confortante, sobretudo se pudésemos naturalizá-los de uma vez por todas. As sociedades parecem aceitar com maior entusiasmo publicações que venham de fato “provar” a existência de raças do que aquelas publicações que as desqualificam”. Nesse sentido, os progressos da engenharia genética ameaçam ressuscitar os esforços de “melhoria” e purificação da “raça”. Ciência, raça e racismo na modernidade alerta para o risco de, mais uma vez sob o amparo da autoridade científica, as sociedades caírem no delírio de corrigir ou eliminar as “anormalidades”, em nome do aperfeiçoamento da espécie.

Um comentário:

Rô Candel disse...

Aprendo lendo teus textos e deles retiro conteúdo para os meus comentários em aula. Dei uma aula, na semana passada, de Bioética e apresentei algumas imagens dos campos de concentração, alemães e japoneses, para os meus alunos da área da saúde. Eles ficaram impactados e a aula terminou meio silenciosa! Parabéns pela fonte inspiradora que és para os teus alunos da História. A Semana Acadêmica que eles geriram é prova disso! Abração! Rô