Ética do trabalho, escravidão e comunidades imigrantistas no Brasil Meridional


A Ética do Trabalho

O trabalho entendido como um valor social só pode ser analisado se levarmos em conta as diferenças culturais onde é exercido e mesmo a época em que é organizado. Implica na organização dos grupos sociais e dá significado cultural às manifestações político-sociais.
Quando se coloca a questão da comparação entre o trabalho como valor em municípios como Rio Pardo e Santa Cruz do Sul, por exemplo, está-se colocando um problema de fundo antropológico e histórico complexo, mas, sobretudo, está-se colocando uma questão política. Por si só a comparação entre a concepção de trabalho entre grupos descendentes de imigrantes alemães e grupos descendentes de portugueses ou outra etnia qualquer, implica uma intencionalidade, um ato político, sobretudo quando essa questão é suscitada num contexto onde o foco da análise situa-se na comemoração dos 200 anos de um município de tradição luso-brasileira. Espera-se de tal comparação certa hierarquia e, noutro sentido, certo proselitismo étnico. Mas, adverte-se, uma análise mais profunda entre as concepções do trabalho em diferentes culturas pressupõe certo cuidado, um relativismo controlado e uma hermenêutica apurada. Não se trata, dito isso, de uma comparação valorativa, simplista, e sim esclarecedora, analítica.
Em que pese serem grupos sociais que mantêm contato (cotidiano, comercial ou político), desde a segunda metade do século XIX, os teuto-brasileiros da região de Santa Cruz do Sul e a população de Rio Pardo, possuem trajetórias históricas marcadamente distintas, com papeis sociais para ambas as regiões, da mesma forma, muito distintos. A própria fundação dessas regiões ocorreu em contextos históricos diferentes. O que está se problematizando aqui pode ser colocado na seguinte interrogação: Quais as diferenças da concepção de trabalho para ambos os grupos, teuto-brasileiros e luso-brasileiros? Para essa questão ser colocada é preciso imaginar uma hipótese ideal, qual seja, que essas culturas sejam de certa forma preservadas no tempo e refratárias uma a outra, o que é evidentemente um esforço imaginativo, puramente didático. E esse esforço imaginativo funciona para apontarmos algumas diferenças importantes sobre o significa do trabalho para ambos os grupos sociais em sua origem, mas não em sua constituição história de média duração. Como veremos abaixo há alguns pontos de contato da mesma forma importantes que impede que se considere o valor do trabalho agregado a ambos os grupos sociais como de fato tão contrastivos. Trata-se do escravismo imperial que não deixou de penetrar também nas colônias, como colocado abaixo.
Para comparar a ética do trabalho que norteou ambos os grupos sociais, de Rio Pardo e Santa Cruz do Sul, é necessário nos remeter à análise das tradições católica e protestante e perceber como o trabalho como valor foi estruturado a partir de um start religioso. Não se pode considerar esse fenômeno como imutável e refratário às relações e condições históricas que moldaram a constituição de ambos os municípios. Até porque  se a ética do trabalho per si fosse determinista, a região de colonização italiana no planalto não seria bem mais desenvolvida economicamente que outras regiões do Estado. A ética do trabalho é potencial na organização comunitária e na construção de laços de confiabilidade que podem gerar, em ambientes estabilizados e endógenos, certa regularidade econômica, mas não dá conta sozinha da dinâmica história como um todo.


A ética Católica e Protestante: Desvalor e Valor do Trabalho

Desde o Império Romano a palavra trabalho designa um castigo, o tripalium, ou do latim vulgar tripaliare, uma espécie de canga para torturas. O sentido do trabalho como um castigo, como um fardo ou mesmo uma penitência acompanhou o Catolicismo medieval e legou às cortes e à nobreza européia uma postura avessa ao trabalho. Esse era atributo de servos e escravos. O próprio castigo divino no início dos tempos, como no mito de Adão e Eva, foi a condenação ao trabalho como forma de sobrevivência, após o pecado original. A idéia de trabalho como um castigo justificou, na Escolástica dos séculos XVI e XVII, época da expansão dos impérios ibéricos para o Novo Mundo, a própria escravidão. A nobreza lusitana responsável pela ocupação e colonização do Brasil esteve impregnada dessa ética do trabalho como desvalor, o que imputou para a escravidão toda a força de trabalho manual. Os rastros desse legado da ética do desvalor do trabalho acompanham as sociedades latinas até nossos dias, o que não significa que essas sociedades não trabalhem ou trabalhem menos que outras, mas que percebem o trabalho como um meio e não como um fim, o trabalho como oposição ao ócio e ao prazer. O trabalho não é redentor.
No sentido protestante, o trabalho era a condição primeira para desenvolver uma ética social, de responsabilidade individual. O trabalho tinha um determinante extramundano que se refere à graça de Deus. Portanto, como dizia o apostolo Paulo, “a falta de vontade trabalhar é um sintoma da ausência do estado de graça ”. O trabalho tornou-se um caminho para Deus e o sucesso pessoal uma forma de graça. Nesse sentido, o trabalho encontra sua positividade como valor, entendido como um fim.
Segundo o Antropólogo Roberto DaMatta (1991, p. 31), o trabalho em nossa cultura é concebido como castigo. “Muito diferente da concepção anglo-saxã que equaciona o trabalho (work) com agir e fazer, de acordo com sua concepção original. Entre nós, porém, perdura a tradição católica romana e não a tradição reformadora de Calvino, que transformou o trabalho como castigo numa ação destinada à salvação”.
Dessas considerações podemos pensar algumas diferenças marcantes que orientam os valores sociais em sociedades como a de Santa Cruz do Sul e Rio Pardo. Mesmo a população católica da “Alemanha” foi contaminada pelos valores associados ao trabalho na concepção protestante. Os imigrantes que aqui chegaram, sejam católicos ou protestantes, foram educados em sociedades onde o trabalho era um valor social em si, uma forma agregadora da família e da comunidade. Essa ética, evidentemente, sofreu mudanças e, num contexto diferente, como no Império Brasileiro, novos arranjos valorativos foram sendo construídos. O contato com a escravidão e as novas formas de organização econômico-sociais do império colocaram outros elementos formadores nas comunidades oriundas do processo imigratório.

Alguns Mitos que estão sendo superados sobre o Escravismo no Brasil Meridional

            É muito comum apontar a escravidão nas regiões Luso-brasileiras como um fato contrastante com as colônias alemãs. Numa o escravismo teria minado o valor do trabalho, o que é correto, noutra, imune à escravidão, a ética do trabalho teria triunfado, o que explicaria as diferenças de desenvolvimento econômico entre ambas as regiões. Mas se trata de uma história de fundo étnico que a partir desses mitos procura construir uma ética do trabalho calcado no esforço pessoal ou comunitário de grupos sociais que estariam deslocados das estruturas de um Império Escravista. 
A historiografia oficial-tradicional tem comumente tomado a lei como fato no que diz respeito à escravidão nas colônias alemãs, aceitando a legislação que proibia a escravidão nas colônias como uma verdade das práticas sociais. As pesquisas nas últimas décadas, no entanto, vêm esclarecendo e confirmando que as colônias e regiões de imigração não só possuíam escravos, mas participavam ativamente do escravismo imperial brasileiro. Como afirma o historiador Eduardo Silva, no Brasil do século XIX, “A escravidão está por toda parte” e no caso de São Leopoldo, para tomar um exemplo já bastante estudado, “Não deixa de ser uma bela colônia alemã, mas sua história pertence ao Império do Brasil”. É o que mostram várias pesquisas, sobretudo realizadas no âmbito do Programa de Mestrado em História da UNISINOS, que vem contribuindo significativamente para a historiografia do Brasil Meridional. Na mesma direção, as pesquisas do Pastor Luterano Elio E. Müller vêm apontando a participação ativa de escravos na colônia protestante alemã de Três Forquilhas, entre outros trabalhos que estão sendo realizados há quase duas décadas. No caso de Três Forquilhas, a presença de escravos é fartamente comprovada. Segundo o pesquisador: “a compra de escravos por parte de pastor Voges tivera a seguinte motivação: ao término da Revolução Farroupilha, o pastor Voges, vendo que a construção que servia como igreja e escola estava decaindo, propôs que se fizesse uma nova igreja, mais sólida, de pedra. Ele viajara muitas vezes até a Vila de Torres e assim pudera observar que os católicos da Colônia São Pedro também estavam com plano idêntico. Ele não desejava ficar para trás. Os colonos protestantes receberam o plano com satisfação. Porém, ninguém se dispunha a assumir o trabalho de talhar pedras. Diziam que tal tarefa só poderia ser destinada a condenados ou escravos. O fato é que diversos desses imigrantes haviam saído das prisões de Mecklemburgo e Rostock. Talvez os mesmos até tivessem sido forçados a quebrar pedras e fazer outros trabalhos pesados. Essa indisposição da parte dos colonos evangélicos levaria o pastor Voges a buscar uma solução particular. Na primeira viagem a Porto Alegre, ele seguiu até o mercado de escravos. Procurou por negros que conhecessem bem o trabalho de talhar pedras de construção. Foi atendido. Adquiriu então alguns escravos” MÜLLER, 2001). O mesmo pastor, segundo Müller, havia comprado uma jovem mulher escrava, recém-chegado ao Brasil, que serviria a sua esposa: “O pastor decidira adquiri-la com o propósito de aliviar a pesada carga de tarefas que repousava sobre a sua esposa, Elisabetha. Ela, além de mãe de crianças ainda pequenas e do cuidado pelas lides domésticas, também lecionava na escola da Igreja, mantida pelo pastor. Dessa forma, em 1847, entraria na casa pastoral a jovem Maria, da nação nagô, conforme se verifica pelo Registro Eclesiástico” (MÜLLER, 2001). O exemplo do pastor logo foi seguido pela comunidade que também passou a possuir escravos.
Superados os mitos da ausência de escravidão nas colônias é preciso abrir novas rotas de pesquisa no sul do Brasil. Alguns trabalhos podem ser consultados nos Anais do I Encontro “Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional”, realizado no Paraná, em 2003. Em Santa Cruz pesquisas do gênero já estão começando a avançar.


Anais do I Encontro “Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional. Castro, PR, de 23 a 26/09/2003
DAMATTA. Roberto. O que faz o brasil Brasil?. 5. ed.,  Rio de Janeiro: Rocco, 1991, p. 31
MÜLLER, Elio E. “Afro-descendentes da Colônia Alemã Protestante de Três Forquilhas”. Estudos Teológicos 2001, v. 41, n. 2, p. 75-85
SILVA, Eduardo. Apresentação do livro de: OLIVEIRA, Vinícius Pereira de. De Manuel Congo a Manoel de Paula: Um africano ladino em terras meridionais. Porto Alegre: EST editora, 2006.

Um comentário:

Anônimo disse...

Olá Mozart

ótima iniciativa... mando um e-mail com umas indicações de documentos.

grande abraço

zeh