Sociedade de Hiperconsumo

Publicado na Gazeta do Sul, dia 24-12-11


O efeito da sociedade de consumo, ou melhor, de hiperconsumo, é que ela cria uma lógica de vida social baseada na recusa das frustrações e na apologia da satisfação imediata dos desejos.  Entre o desejo e sua satisfação suprimimos a espera. Esta foi a grande conquista do Crédito: provocar, segundo o sociólogo Jean Chesneaux, um curto circuito no tempo. Se há poucas gerações atrás a conquista de um bem de consumo estava condicionada à espera de uma poupança, com o crédito aceleramos esse processo. Eis que vivemos numa sociedade da velocidade, da aceleração, porém sem rumo definido. Não é sem sentido que ouvimos tanto por aí que o importante é viver o presente, aproveitar ao máximo o “aqui e agora”. Esse agora, esse presente que superocupa nossa vida, é o tempo do efêmero. O grande desdobramento desse presenteísmo é a falência da política, das utopias e da ideia de projeto. O discurso político não se sustenta sem a ideia de futuro; por outro lado, ao afirmar o futuro, não tem ouvidos numa sociedade do efêmero.
As sociedades contemporâneas fizeram do consumismo uma lógica social poderosa, que invade todos os espaços da vida, da aquisição e descarte compulsivo de bens a aquisição e descarte das relações afetivas. É muito difícil a responsabilização pelo outro num tempo que nos impulsiona para o individualismo e as trocas ininterruptas de interesses. Uma pesquisa realizada na França constatou que o grande número de cãezinhos de raça abandonados tinha uma razão inusitada, mas não contraditória, com o mundo do consumismo. Os pais presenteavam as crianças com filhotes que, assim que perdiam a graça da infância e se tornavam adultos, eram abandonados pelas crianças, que também perdiam o interesse por eles, recusavam o cuidado e simplesmente os abandonavam, para, em seguida, serem presenteadas com outro filhote. Se responsabilizar pelo outro requer recusas, tem ônus e necessita de tempo. O atual “ficar”, comum entre os jovens, é um efeito colateral dessa dinâmica social que multiplica desejos ao mesmo tempo em que prega a satisfação imediata dos mesmos.
Por último, a sociedade do efêmero é também uma sociedade infantilizada, que nega a frustração e a espera, assim como as crianças. O hiperconsumo multiplica os desejos, as frustrações e as efemeridades. Não é sem sentido que vivemos uma sociedade medicalizada, que substituiu a tristeza pela depressão, que multiplicou as esquizofrenias sociais. Somos consumidores vorazes de medicamentos, acreditamos que podemos viver uma eternidade, desde que jovens. As farmácias se tornaram os paraísos de consumo de eternidade de uma sociedade hipocondríaca. Abominamos a velhice, símbolo maior de que o tempo está lá a correr. Inventamos até eufemismos para falar da velhice, como o falacioso e cínico “melhor idade”.  Somos “cyborgs”, cheios de próteses e recortes. Não há tempo para viver na duração do tempo.

A Falência do Pensamento



Publicado na Gazeta do Sul, dia 17-12-2011

O pensamento crítico no Brasil sempre foi um grande problema, seja porque trai uma postura que nos é cara, que consiste na nossa tendência a evitar o conflito e buscar a conciliação, seja porque numa cultura hierárquica e conservadora a crítica é sempre entendida como negativa. Negativa, pois desacomoda e desestabiliza estruturas sociais que, mesmo arcaicas, ainda fazem sentido. Machado de Assis, num conto magnífico, sugestivamente intitulado Teoria do Medalhão, já chamava a atenção para o funcionamento das ideias no país, ideias que jamais devem contrastar, criticar, inovar, contestar, etc. Não somos fãs do debate e da livre opinião, a não ser que não levem a lugar algum, que não mude nada e que a ninguém incomode. Ideias políticas? Somente se não forem firmes, baseadas em convicções. Nosso voto de confiança é sempre direcionado a pessoas e não a ideias, lamentavelmente. Discordar de alguém criticamente é o mesmo que apontar para a pessoa, um problema de grande magnitude, sobretudo porque não suportamos a crítica às ideias, pois sempre é um ataque pessoal. Machado aconselhava a utilização das “frases feitas, locuções convencionais, fórmulas consagradas pelos anos, incrustadas na memória individual e pública”, o que evitaria, evidentemente, um posicionamento ou convicção. Não somos liberais, republicanos e nem democráticos quando está em jogo o conflito, a concorrência, ou coisa que o valha. Preferimos acertar o preço do pãozinho a entrar numa regra de mercado. Combinamos o preço do combustível ao invés de travarmos uma concorrência mais saudável ao espírito público. Assim como nossa aversão à concorrência ou ao conflito, nossas ideias são produzidas para evitar a crítica. Criticar é injuriar. “Se criticas o que eu faço, o meu ofício, porque não assume o meu lugar e faz melhor?” Armadilha retórica que impede qualquer avanço das ideias e responsabilização social pelos nossos atos, afazeres e atitudes. A facilidade com que partidos políticos fazem conciliações aberrantes e a dificuldade que têm em estabelecer um debate público verdadeiro é notável.
Lidar com o registro crítico é algo significativamente eficaz à gestão, ao governamento, à ciência e à política. Como seguimos uma regra social baseada na cordialidade, nas relações pessoais - coisas de amigos -, a crítica é sempre vista com desconfiança, como algo da oposição. Num mundo ordenado pelos amigos, é muito difícil estabelecermos o distanciamento que rege o mundo republicano, moderno, dos indivíduos iguais perante a lei. Não conseguimos negar aos amigos o que negamos aos outros, àqueles diminutivos sociais, considerados iguais perante a lei e sujeitos a concorrências, a filas e ao mérito.
Desde os tempos de Machado de Assis a crítica é uma obscenidade entre nós. É melhor garantir os amigos por perto, a iniquidade das ideias, a imobilização do pensamento e deixar as coisas como estão... 

Artigos

Nas segundas será postado o artigo da coluna de sábado da Gazeta do Sul!

Corrupção a la Carte

Publicado no jornal Gazeta do Sul dia 10-12-11


Seis ministros em sete caíram por “suspeita” de corrupção no primeiro ano de Dilma Rousseff. Quando assistiremos um ministro cair por incompetência? Posso imaginar que os ministros que ainda administram suas pastas são meritórios e por isso permanecem nos cargos. Ou posso supor que os ministros ficarão em seus respectivos ministérios até que se descubra alguma falcatrua, o que me parece mais razoável. Interessante como isso não nos abala muito, não é motivo de indignação de fato, pelo menos ao ponto de nos tirar o sono ou a passividade. Parece que estamos ainda impregnados do velho mito de que o Brasil é um país que “anda”, em que pese seus políticos ou mesmo seus governos. Referencia, evidentemente, as potencialidades do país que, mesmo com a tara destrutiva que o acompanha, continua sendo “a terra em que se plantando tudo dá”. Mitos a parte, sabemos que essa visão, oriunda da época de Cabral, representa nossa passividade frente aos descalabros políticos e nossa ingenuidade frente às potencialidades da nação. Esta não é uma terra em que se plantando tudo dá; essa é uma terra em que se planta e colhe miséria há séculos, uma terra da falta e da carestia. O resto é mito, hipérboles reconfortantes para nossas culpas jamais admitidas. Esse é um país que insiste em não tratar a corrupção como crime - e crime hediondo, pois é homicida, infanticida e fratricida. Corruptos são bandidos que, pasmem, circulam glamourosamente pelas colunas sociais do país. São bandidos que assaltam a merenda escolar, verbas da saúde, da educação, etc., e nem por isso merecem a nossa efetiva indignação, reservada para os pequenos ladrões, pulhas e assaltantes ordinários. Há uma miopia nacional em relação à corrupção. Jaqueline Roriz, uma criminosa pega em flagrante embolsando pilhas de dinheiro, foi absolvida por seus 265 comparsas do Congresso sem o menor constrangimento. Hoje anda cercada de seguranças pagos com o erário público. O ex-ministro fanfarrão Carlos Lupi, depois de tanto palavrório vulgar, sai do governo sem nem mesmo macular o espaço político de seu partido. Uma premiação de lambuja. Orlando Silva, do PC do B, tentou constranger a Presidente com ameaças veladas, quando da eminência de cair. Uma piada!. O uso de cargos políticos para pacificar as possíveis oposições é abjeto. Temos Maluf, Collor, Sarney, Renan Calheiros, Wagner Rossi, Palocci, entre tantos outros criminosos na ativa, contrariando o ingênuo ditado popular de que “o crime não compensa”.
A corrupção é uma praga que corrói as estruturas sociais, destrói os padrões de conduta e espalha a injustiça, a miséria e a degradação dos valores. Das mais baixas funções públicas ao topo das hierarquias funcionais, a corrupção vai ocupando seus espaços. Da bendita e “ingênua” cola escolar, do malandro plágio acadêmico, dos pequenos desvios de verbas públicas, assim vamos crescendo e cultivando a nossa indecência civilizatória.



A (i)lógica dos Documentos

Publicado no Jornal Gazeta do Sul, dia 03-12-11

O Senhor Virgulino, conhecido como Lampião, cangaceiro, marido de Maria Bonita e herói popular do nordeste do início do século XX, gostava de dar a seguinte ordem a seus asseclas: “Procurem fulano e tirem os “documento” dele. Isso significa uma coisa assustadora, como pode-se depreender, mas considere-se ainda o termo utilizado para dizer “as partes” masculinas. Os documentos eram/são coisas preciosas no Brasil. Não deixa de ser interessante que num país que se pretende capitalista os documentos tenham mais valor do que o próprio capital. Não é outro o sentido de manifestações do tipo: “Fui assaltado mas, graças a Deus, o ladrão roubou ‘só’ o dinheiro e deixou ou documentos”. O que sugere essa superimportância dos documentos no Brasil?
Os documentos são papéis oficiais que pretendem não apenas identificar, mas qualificar os indivíduos. Num país hierárquico como o nosso, ter os documentos certos e o acesso às instituições e autarquias que os distribuem representa algo a mais. E esse algo a mais é a possibilidade de ter esses documentos sem precisar enfrentar os tramites ordinários para consegui-los. Daí, ou precisamos entrar em filas, geralmente desumanas, ou pagar para que alguém o faça, ou as “fure”, o que é mais comum. Os documentos dificultam o cotidiano, sobretudo daqueles que são considerados indivíduos iguais perante a lei, àqueles que não possuem o chamado “pistolão” ou mesmo um amigo no Estado. Essa forma de hierarquização revela um tipo de Estado autoritário, burocrático, que exige que o “cidadão” tenha que provar várias vezes que ele é ele mesmo. Este é um Estado que faz do cidadão um contraventor a priori.
Os trabalhadores nos anos 1970-80 andavam com suas carteiras azuis a mostra no bolso da camisa. Era o sinal suficiente para a polícia: mais um abnegado com documentos que provava que não era um pária social. Era o documento do trabalhador, que atestava sua entrada no mundo da cidadania, do trabalho formal, o que era uma coisa muito rara, portanto, digna de documento.
Os documentos se constituíram, historicamente, no paraíso dos políticos. Distribuir documentos era uma prerrogativa, sem dúvida, fundamental para montar um curral eleitoral. Eis aí a fórmula do Estado autoritário, burocrático e elitista: exigir documentos pra tudo e fazer de tudo para dificultar o acesso a eles. Quanto mais documentos um Estado exige, mais autoritário ele é. Com a abertura política, no final dos anos 1980, tivemos até Ministério da Desburocratização. Um monstrengo que tinha por objetivo destruir documentos!
Os documentos, na era neoliberal, perderam muito de seu valor tradicional, mas ainda convivemos com esses traços do arcaísmo nacional. No mundo das novas tecnologias, um IP e um cartão de crédito são mais valiosos que muitos documentos de Estado. Isso porque, para esses tipos de registros/documentos, estamos não apenas disponíveis, mas desejantes.

Traquinagens do Coronel

Publicado dia 26/11/2011 na Gazeta do Sul 



Lembrei do Maranhão essa semana. De fato, volta e meia lembro do Maranhão, e não por causa dos belíssimos lençóis - patrimônio natural protegido da sanha imobiliária, com exceção, claro, de uma pousada da família Sarney construída por lá - mas sim porque o Senhor José Sarney reapareceu nos semanários em função de mais um caso patético de corrupção. Sarney é o Maluf com elegância e garbo. Se Maluf é a corrupção elevada à comicidade, de tão caricatural, Sarney é o tipo trágico, taciturno, que se leva a sério. Sarney cuida de sua biografia com afinco, se preocupa com a memória que deixará para a posteridade. É por isso que conseguiu até mesmo tirar dos Anais do Congresso os ataques e adjetivos utilizados contra ele na tribuna. Ele é vaidoso, se acha um literato e conseguiu ser eleito para a Academia Brasileira de Letras, portanto, ele é imortal. Sarney encarna o tipo mais perfeito do coronel tradicional, cercado de pompa, cargos, impunidade, longevidade política, amigos, defensores e, evidentemente, uma turma de agregados aduladores.
Uma viagem ao Maranhão é uma triste aula de tradição política brasileira. Décadas de desmandos e sangria do erário público colocaram o Estado do norte entre os mais pobres do país. O desastre social e o descaso humano provocados no Maranhão são hiperbólicos e não teríamos espaço aqui para descrevê-los. Vamos nos ater a última traquinagem do coronel, não porque seja de grande monta econômica, mas sim pelo que representa em termos políticos, de baixeza moral.
Preocupado com sua imagem e com os resvalos morais sofridos nos últimos tempos, o Senador contratou a empresa Prole Consultoria em Marketing para avaliar sua situação perante a opinião pública e montar uma estratégia para “retocar” a sua biografia. Sarney, aconselhado pela Prole, lançou uma página na internet (josesarney.org) voltada a valorizar sua biografia política e intelectual, onde sua trajetória impecável de estadista e de brilhante escritor está detalhadamente esboçada. Traduzindo: Sarney, envolvido em casos de corrupção até o pescoço, contratou uma empresa para melhorar seu nome frente à opinião pública e, o que é mais espantoso, pagou os custos do serviço com dinheiro público. Foi daí que o pobre Maranhão me veio à memória! Trágico, um Estado ser lembrado em função de um político como o Coronel Sarney. Por consequência, lembrei que Sarney também tem poderes sobre a memória nacional, pois, durante uma exposição sobre História do Brasil no Senado, mandou tirar os documentos que tratavam do impeachment de Collor. Justificativa: “Isso não devia ter acontecido”, segundo ele.
Sarney representa uma geração de estadistas/corruptos que está em decadência. Os corruptos atuais são menos elegantes, não têm biografia a preservar, são pragmáticos e utilitaristas. Levaram a política à lógica da sociedade de hiperconsumo, cuja ética é entendida como um obstáculo. 

Multiculturalismo em “Xeque”


Publicado no jornal Gazeta do Sul, dia 19/11/2011 


Há exatamente um ano, Angela Merkel, a chanceler do governo alemão, declarou abertamente o que muitos já sabiam: o multiculturalismo alemão fracassou. E não se trata do multiculturalismo alemão apenas, podemos considerar um fenômeno europeu. Como ônus desse fracasso, temos a retomada de discursos racistas, xenófobos e étnico-comunitaristas que desafiam os planejadores sociais e, acima de tudo, as políticas de convivência nas sociedades pluriculturais, característica marcante dos países europeus. Mas afinal, quais são os limites do multiculturalismo, as razões de sua falência?
A política multicultural teve início após a II Guerra Mundial, quando as falidas potências europeias passaram a perder suas colônias afro-asiáticas e enfrentar as consequentes ondas migratórias. No caso dos EUA, a vitória contra o Nazismo fez do seu modelo racista de organização social uma ambiguidade que precisava ser enfrentada, pois, afinal de contas, os norte-americanos lutaram justamente contra um modelo de Estado baseado no mito da pureza racial. A solução foi o reconhecimento de que as nações não são homogêneas e sim construções pluriculturais, isso tanto na Europa quanto nos EUA. Noutras palavras, teve início a crise do modelo de Estado-nação moderno, baseado no princípio “um estado, uma nação”.
Se para as nações europeias o multiculturalismo foi a resposta admitida frente à derrota do modelo de Estado até então estruturado, nos EUA o multiculturalismo foi a condição de ascensão à potência mundial, cuja “missão” seria a universalização da democracia e da liberdade. Em ambos os casos o reconhecimento das diferenças foi fundamental para organizar novas bases de convívio social.
O multiculturalismo, portanto, é uma política de Estado, baseada nos princípios do reconhecimento de minorias, tolerância e manutenção da segurança social. Mas porque se anuncia hoje a falência desse modelo de gestão que tentou durante meio século fazer com que culturas diferentes pudessem conviver juntas sob os mesmos princípios de governamento?
O arranjo multicultural não abandonou, de fato, o espectro da pureza e da homogeneidade étnica. O que se fez foi ordenar culturas em mesmo território, mas mantendo as fronteiras étnicas bem definidas, impedindo uma dinâmica transcultural. A “tolerância” é a postura que garante esse convívio baseado na ideia de “juntos, mas separados”. Sinaliza ainda quem tolera quem, pois garante as diferenças de status entre os nativos (estabelecidos), e os forasteiros (diferentes ou outsiders).
Essa política de “deixar viver por aqui” implica também que a tolerância esteja muito próxima da indiferença. Os arranjos políticos do multiculturalismo não foram capazes de romper com a ideia conservadora de cultura, nem de superar a tolerância como valor privilegiado de sustentação do convívio social. Não é de se estranhar ao retorno das narrativas étnicas e diferencialistas. 

Viva a República!

Publicado na Gazeta do Sul, dia 12-11-2011

No dia 15 de novembro de 1889 andavam uns poucos a alardear pelo centro de Porto Alegre que a monarquia havia caído. No Rio de Janeiro, uma placa de confeitaria era trocada: Confeitaria Imperial para Confeitaria da República. E foi isso. Como manda a tradição latino-americana um governo é derrubado com pouca participação da população, e uns poucos oligarcas assumem o comando de uma “nova” camarilha. A chamada República Velha nos deixou uma herança política significativa, permeada pelo militarismo, clientelismo, autoritarismo, violência policial e uma nefasta concepção eugenista que marginalizou negros e pardos, com consequências trágicas para a sociedade brasileira.

A República inicia com um Golpe Militar comandado pelo amigo pessoal de Dom Pedro II e republicano de última hora, Deodoro da Fonseca. Em 1891, dois anos após o golpe, Deodoro, fazendo jus à tradição autoritária que iniciara, dá um novo golpe e fecha o Congresso. Desastrado, renuncia a favor de seu vice e oposicionista Floriano Peixoto. Estava iniciada a triste participação do Exército na História brasileira.

A República se consolidou, de fato, com as Oligarquias regionais, sobretudo as de São Paulo e Minas Gerais e com os chamados coronéis, que, amparados pelo federalismo instituído pela Constituição de 1891, conseguiram amealhar o poder em diversas regiões do país. Uma tradição que nos persegue até hoje, basta olhar as alianças políticas regionais e os figurões de Brasília. O coronelismo instituiu a política do clientelismo de tal forma que as eleições desse período eram conhecidas pela corrupção, voto de cabresto, voto em aberto e todas as formas de abusos e violências que podemos imaginar. É preciso lembrar ainda que os coronéis, através de seus currais eleitorais, articularam com o poder central uma catastrófica política dos governadores, uma verdadeira escola da tradição clientelista da política nacional.

Menos lembrado e esquecido nos manuais escolares, está o movimento eugenista, que precisamos trazer a memória. Inspirado nas teses “evolucionistas” e nas elucubrações de eugenistas nacionais como Renato Kehl e Octávio Domingues, para citar apenas dois, foi criado, nesse período, um programa de branqueamento da nação que deveria eliminar a população negra num prazo de cem anos, a contar de 1911. Neste ano, numa conferência internacional, o eugenista Batista de Lacerda lançou a pedra fundamental da eugenia brasileira que, por sorte, funcionou tão bem quanto as provas do Enem.

Para encerrar, vale a pena lembrar que a ideia clássica da República, baseada na clara separação entre as esferas pública e privada, sempre foi um mal-entendido entre nós. Construímos uma República dos amigos, baseada no demérito e na reificação dos laços pessoais e familiares. Nosso patrimonialismo político continua assaltando a Res/Pública (coisa pública) e contribuindo para o adágio “Aos amigos tudo, aos inimigos a lei”.

O que é o Estado-nação?

Publicado dia 05-11-2011 no jornal Gazeta do Sul

Esta foi a grande discussão que norteou os intelectuais do século XIX. E o esforço em respondê-la nos legou inúmeros textos importantíssimos para pensarmos, nos dias atuais, na crise das identidades nacionais e no reavivamento das narrativas localistas ou mesmo regionais.

As identidades nacionais são construções imaginárias que procuram articular uma série de elementos que dinamizam o sentimento de pertencimento a uma coletividade homogênea. Na realidade, são narrativas que conectam os indivíduos e moldam os sistemas de representação da nação, conferindo a esta uma “essência” própria em detrimento das culturas, línguas e mitos regionais/comunitários que, vale lembrar, acusavam a heterogeneidade nacional. Se o território é uma condição fundamental para o Estado-nação se constituir, não menos importante é a língua, a História, os mitos e os heróis fundadores, os símbolos e rituais, a mobilização afetiva e a invenção do povo/ “raça” (estamos falando do século XIX, quando esse conceito tinha algum sentido). Ninguém nasce com uma nacionalidade e sim se constitui como tal a partir dos sistemas de representação da nação. A unificação da língua nacional foi uma conquista importante nesse sentido, pois, a partir dela, foi possível compartilhar visões de mundo e códigos sociais. A História nacional nasce nesse contexto em que era necessária uma genealogia da nação, uma percepção comum de pertencimento a um passado compartilhado. Uma História romântica e épica que se institui como oficial, objeto de culto e reverência. Relacionados à produção dessa História oficial estão os mitos e heróis fundadores que são ritualisticamente cultuados e atualizados cotidianamente. A nação, portanto, mobiliza laços de afetividade entre os indivíduos e a própria nação, percebida então como pátria, que abarcava a fraternidade nacional. Trata-se do sentimento que transforma “muitos como um”. Morrer pela pátria era um valor perfeitamente normal nesse período. Os símbolos da pátria, como bandeiras, brasões e hinos, formam o relicário cívico, fundamental para a sedimentação dos valores nacionais, pois a eles cabia a função de reforçar os laços afetivos. Mas como a nação precisava ainda de um cimento constitutivo, que naturalizasse todos esses elementos, que permitisse inventar a ideia de um “sangue” nacional, foi lançado mão de uma narrativa poderosa, influente até nossos dias: a “raça” nacional. A raça, no séc. XIX, era considerada uma categoria “cientifica” e fora largamente usada para naturalizar a identidade nacional.

Não é mais possível pensar esse modelo clássico de Estado-nação no mundo globalizado, marcado pelas diásporas, movimentos migratórios e políticas multiculturais da diferença. É preciso considerar a dinâmica dos hibridismos culturais e as novas relações entre globalização e localismo para problematizar as identidades culturais no mundo contemporâneo.

Monteiro Lobato e o Racismo!

Publicado na Gazeta do Sul, em 28-10-2011




Não há nada mais anacrônico do que julgar o passado com o olhar do presente, isso é uma regra do pensamento histórico. É necessário sempre um cuidado hermenêutico com os textos do passado. Não faz muito tempo, uma polêmica acerca da postura racista do autor do Sítio do Pica-pau Amarelo recolou os textos de Lobato em evidência. Na ocasião a polêmica teve início numa tentativa autoritária e tipicamente tupiniquim de tentar censurar a presença de Lobato nas escolas, como se o fato de o autor ser um racista empedernido fosse motivo para impedir suas obras de serem estudadas, discutidas e, evidentemente, criticadas como um bom exercício pedagógico. Mas os censores do politicamente correto estão sempre à espreita, prontos para proibir algo, moralizar alguém, corrigir alguma coisa ou simplesmente impor padrões de pensamento. Esta é uma matriz autoritária e não simplesmente ignorância, é preciso estar atento.

No caso de Monteiro Lobato, a outra ponta do debate também merece atenção: os que saíram em defesa do autor, atacando veementemente a tentativa de censurar suas obras, alegando que o fato de o terem acusado de racismo ser um absurdo. Do meu ponto de vista, ambas as posturas são irascíveis. As tentativas autoritárias de censura deveriam ser vistas como escandalosas, assim como o fato de muitos tentarem negar a postura racista de Lobato e aproveitarem a ocasião, inclusive, para negar o racismo no Brasil como um todo. Monteiro Lobato era, sim, um racista, que viveu em pleno contexto das teses racistas que levaram, vale lembrar, à eugenia e aos genocídios da primeira metade do século XX. Mas Lobato num determinado período de sua vida política e intelectual demonstrou ter abandonado essa postura e se filiado ao Movimento Higienista. Isso significava ter rompido com a visão determinista que considerava os negros, os mestiços e os sertanejos exemplos de degeneração racial. Mas, na realidade, era um jogo de interesses políticos e Lobato voltou à velha trincheira racista inspirada em autores como Le Bon, Tayne, Renan, entre outros. Dentre tantos textos de Lobato que poderíamos citar para chamar a atenção de sua postura racista, penso que a obra intitulada O Presidente Negro, escrita em 1926, recentemente reeditada pela editora Globo, já é suficiente. O texto é um libelo da eugenia e uma defesa inconteste do racismo como a “Chave da História”, para usar a feliz expressão de Hannah Arendt. Essa obra nos ajuda a entender melhor a “infeliz” afirmação do autor em carta ao eugenista Arthur Neiva: “País de mestiços, onde branco não tem força para organizar uma Ku Klux Klan, é país perdido”.

A educação tem o dever de fazer falar o racismo, jamais silenciá-lo ou mesmo impedir os alunos de ter acesso a tais ignomínias. Lobato deveria ser um autor estudado nas escolas, e muito estudado, inclusive para ensinar que ideias que hoje sabemos que são absurdas já foram, outrora, regra de pensamento, até mesmo para grandes homens.


Direita/Esquerda

Publicado na Gazeta do Sul em 22-10-2011


Edgar Morin, célebre intelectual da complexidade, certa vez disse que há palavras mestras, que carregam o mundo as costas, palavras anteus, que estão superocupadas de sentido, de modo que (re)significá-las seria uma tarefa pouco promissora. Abandoná-las por perda de sentido seria mais sensato. As palavras mestras de tão densas podem acabar também por se tornarem redundantes, opacas, ocas etc... Esquerda e direita são exemplos clássicos de palavras mestras. Encerram em si grande parte da tradição política moderna. Esses termos surgiram em plena Revolução Francesa (1789), no período conhecido como Convenção (1793), quando os Jacobinos tomaram o poder dos chamados Girondinos. Na Convenção, espécie de Assembleia, o grupo dos Jacobinos, conhecidos pela sua radicalidade contestatória e pela defesa do sufrágio universal, se colocava a esquerda da Mesa Diretora. Os Girondinos, burgueses conservadores, adeptos do voto censitário (que influenciaram a Constituição Imperial brasileira de 1824) se posicionavam a direta da Mesa. Havia ainda o pessoal do centro, chamados de Planície ou Pântano, sem grande importância, pois andavam a pular de um lado para o outro na busca de uma migalha política. Esquerda e direita passaram a identificar esses grupos e logo os termos foram associados às posturas políticas, permanecendo no vocabulário ocidental até os dias de hoje. Hoje, por sinal, é interessante pensar como esses termos históricos se instituem como signos políticos. Não demorou para que esquerda se tornasse toda a postura política que lutasse pelas classes desfavorecidas, pelos valores e posturas mais libertárias, pela igualdade de direitos, pela emancipação dos grupos sociais considerados explorados, alienados, etc... A direita, ao contrário, ficou conhecida pelas posturas conservadoras, que lutava pela manutenção de privilégios, pelo discurso da meritocracia liberal, pela defesa da propriedade, do mercado e do individualismo. A tendência “humanista” moderna não demorou a relacionar a esquerda ao “Bem” e a direita ao “Mal”. Esta forma maniqueísta de enquadrar a esquerda e a direita perdurou mesmo depois da queda da ditadura stalinista, da divulgação dos horrores dos Gulags, das mortandades na Ucrânia e das denúncias dos expurgos dentro do próprio PC da URSS. As tragédias do mundo contemporâneo não haviam sido monopólio da direita. Após a queda do mundo comunista esses termos sofreram sensível queda de prestígio, até porque funcionavam muito bem enquanto um podia contrastar com o outro. Esquerda e direita sozinhas perdem força e significado. Já não são bússolas confiáveis. Palavras mestras são assim, ou tudo ou nada. Não há mais superioridade moral a ser defendida. Esquerda e direita ao perderem sua força contrastiva perderam sentido. Esquerda e direita se confundem em inúmeras instâncias, ofuscam suas antigas especificidades, pois se tornaram hibridas, cambiáveis e, portanto, com fronteiras pouco definidas. A banalização do discurso ético, tornado sem sentido, e o abandono de princípios filosóficos históricos de ambos os lados fez da oposição esquerda x direita uma quimera, uma postura política de mercado....

Comunidade ou Sociedade?

Publicado no jornal Gazeta do Sul, em 15-10-2011


Dentre os tantos dilemas que cercam a vida moderna está a difícil pactuação entre liberdade e segurança, ou seja, entre uma vida em comunidade ou em sociedade. Para entendermos esse dilema contemporâneo é preciso distinguir esses conceitos. Em primeiro lugar é preciso dizer que o discurso comunitário ressurge no mundo contemporâneo a partir da expansão do processo de globalização, quando a relativização das fronteiras nacionais/culturais se fez mais evidente e explicitada. A comunidade, nesse sentido, se ergue como uma força de resistência à homogeneização cultural. Daí o termo comunitarismo, que designa a política de defesa da vida comunitária. Ser de uma comunidade é ser diferente, e no mundo globalizado isso significa edificar uma “identidade”, pois toda comunidade se constitui a partir de uma narrativa de pertencimento que se insurge contra o abstracionismo do individualismo moderno ou cosmopolita. A vida comunitária é radicalmente diferente da vida em sociedade. Isso porque sociedade tem um sentido mais abstrato, formal, ligado a esfera pública e a frieza legislativa ou burocrática. Viver em sociedade é viver num mundo aberto, com fronteiras incertas e cercado de indivíduos sem rosto por todo o lado. Noutras palavras, viver em sociedade no mundo globalizado é ter uma vida cosmopolita, superpopulosa, hibrida e anônima a um só tempo. Isso significa que a vida em sociedade é a vida dos indivíduos, sem nomes e sem personalidades, com identidades mutantes, a la carte. É sem dúvida a experiência radical da liberdade, do anonimato garantido e da autonomia. É a vida do risco, da errancia, do dezenraizamento, do mar aberto, onde o indivíduo pode existir sem ser percebido, experimentar culturas e diferenças sem culpa. É a vida aberta ao novo, à mudança e ao perigo, ao risco constante e a imprevisibilidade. Por outro lado, a vida em comunidade é caracterizada, sobretudo, pela segurança, pelo nome próprio, pelo rosto conhecido, pela pessoalização das relações. Mundo da previsibilidade, dos laços de confiança, do compartilhamento moral e, evidentemente, da proteção e do cuidado recíproco. Esse é o mundo de pouca liberdade, ou ainda, da liberdade vigiada, do provincianismo, onde todos sabem um pouco de todos, todos podem ver todos. Na comunidade não existe indivíduo abstrato, todos são pessoas, todos tem sobrenome e são dotados de qualidades e defeitos. Na vida comunitária, o sujeito é um soldado, representa e defende a sua comunidade onde quer que vá, é um zelador da estrutura comunal. Em suma, uma comunidade é defensiva, desconfia do que vem de fora, protege suas fronteiras físicas ou simbólicas. O comunitarismo se define a partir da pessoa, do coletivo e da identidade de grupo. Se o indivíduo/cidadão é o constituidor da sociedade aberta e livre, a pessoa é a constituinte da comunidade. Eis o dilema do mundo contemporâneo, superar a insegurança sem abrir mão da liberdade, etc, etc, etc...

Educação e falência curricular

Publicado no jornal Gazeta do Sul em 08-10-2011


O currículo escolar é uma peça política. O que se deve ensinar e o que se deve selecionar de um universo de conhecimentos permite entender o que queremos de nossa sociedade. Portanto, o currículo é algo muito importante e os pais deveriam estar atentos a ele. E é por isso que quero chamar a atenção, de início, para uma polêmica suscitada pela Revista Veja (26/09/2011) que tem causado indignação entre os acadêmicos da Área de Humanas. Em várias ocasiões o Semanário tem feito comentários extremamente negativos acerca da inserção da Filosofia e da Sociologia no currículo do ensino médio. A forma desrespeitosa e desinformada com que a Veja tem tratado do assunto e a maneira tecnicista e mercantilista com que vem abordando a educação e o currículo, centrada na formação puramente tecnológica é, para dizer pouco, reducionista e perigosa. Ninguém em sã consciência colocaria em dúvida a importância da formação tecnológica para o desenvolvimento do país. Não se trata disso. A questão de fundo diz respeito à concepção que o Semanário tem da educação, e que é compartilhada por muitos. Dizer, por exemplo, que disciplinas da Área de Humanas tiram espaço de disciplinas “importantes” para o país, é, no mínimo, prova de desinformação ou, na pior das hipóteses, pura falcatrua política.

Desinformação sobre currículo, no entendo, não é exclusividade da Veja. Ressalto aqui a forma desastrada com que muitas Delegacias e Secretarias de Educação têm tratado do currículo, nomeadamente das disciplinas humanistas. Em muitas escolas desse país assistimos o escândalo de professores de uma dada disciplina ministrar aulas sobre outra disciplina. A Área de Humanas é a mais afetada por esse descalabro e falta de respeito aos alunos e aos professores. Um professor de Filosofia ou Geografia jamais poderia assumir uma disciplina de História, o inverso é verdadeiro. Como ensinar o que não se sabe? O que isso significa? Primeiro, que se a Área de Humanas fosse levada a sério esses gestores saberiam da importância de uma formação humanista para que seus alunos se constituam como indivíduos mais cultos, responsáveis e posicionados. Segundo, que os pais não devem ter a menor ideia da formação dos docentes que trabalham com seus filhos.

Voltando ao Semanário, se a revista soubesse da realidade dos educandários desse país, saberia também que as disciplinas de Sociologia e Filosofia estão sendo inseridas ao custo de horas-aulas de outras disciplinas importantes da área de humanas, como a História. É urgente uma reforma curricular, em todas as áreas. O excesso de conteúdos, a ausência de reflexão, os amontoados de dados a serem “memorizados” e outras distorções que ocupam horas e horas das escolas revelam a pobreza curricular e explica o porquê não se pode contemplar responsavelmente um conjunto de disciplinas que possibilitem, aí sim, uma formação integral do aluno, que o prepare para escolher com competência seus próprios caminhos profissionais e, no futuro, a escola de seus filhos.

Educação de balcão?

Publicado dia 30-09-11 no jornal Gazeta do Sul


Até que ponto o mercado pode ser um critério confiável para o planejamento educacional? Estamos acostumados a ler na imprensa inúmeros articulistas que volta e meia opinam sobre os rankings de aproveitamento da educação brasileira, realizam comparações com índices de outros países e, evidentemente, apontam culpados, os educadores. Normalmente tais críticas encaminham como solução uma gestão empresarial para educação, aceitando de vez que a educação é, de fato, uma mercadoria destinada a um público consumidor. Se educação deve ser, portanto, um objeto de mercado, a primeira coisa que deveríamos defender é a remuneração dos professores, haja vista a importância de seu ofício. E nisso não poderia haver muita discórdia, é uma das mais importantes e vitais profissões para que o país consiga manter os níveis de crescimento e desenvolvimento econômico que vem experimentando nos últimos anos. Ora, nenhum crescimento econômico se mantém sem que seja acompanhado de alto nível educacional.

O que se discute é como conseguir esse alto nível. Uma das receitas comumente apresentada na imprensa é a chamada meritocracia. Os meritocrátas lançam mão de dados estatísticos de toda ordem para tentar provar que o problema docente é o que implica numa educação precarizada e que a remuneração deveria seguir metas produtivas, como uma fábrica ou empresa qualquer. O problema não é o mérito em si, mas sim a meritocracia. É óbvio que os professores devem ser avaliados, devem ter competências e devem demonstrá-las. É óbvio que há relação entre competências docentes e aproveitamento discente. E é óbvio, ainda, que se educação fosse uma prioridade essa discussão não estaria ocupando esse espaço. Sabemos que a formação docente no Brasil é precária, que os nossos mestres sofrem inúmeras barreiras e desestímulos para que possam acompanhar o estado da arte de suas áreas de conhecimento. Alarmantes as condições de trabalho de muitos deles. Os planos de carreira são desencorajadores contumazes para o aperfeiçoamento.

É preciso dizer ainda que a educação é uma das áreas mais vitimada por opiniões amadoras. Qualquer um opina sobre educação, mesmo sem nenhum conhecimento sobre a área, basta ler os jornais e revistas. Qualquer “achismo” ou posição pessoal vira tese. Aqui já temos uma falta de humildade e seriedade frente a uma área de conhecimento complexa e pouco afeita a opinadores diletantes. É necessário enfrentar com seriedade a educação brasileira. É preciso que a profissão seja exercida por profissionais competentes, comprometidos e bem remunerados, mas é preciso, da mesma forma, que a educação não seja pensada como uma mercadoria qualquer. Até porque, como concluiu uma pesquisa realizada pela consultoria McKinsey na Finlândia (país com a melhor educação do mundo) “os campeões de qualidade não premiam o mérito. O foco está no recrutamento. Para atrair os melhores, os salários são altos, e a carreira, promissora. As faculdades de Educação são das mais concorridas”.



A República dos Amigos!



Publicado dia 24-09-11 no jornal Gazeta do Sul


Não vamos nos enganar, as amizades são tudo para nós brasileiros, para o bem ou para o mal. É assim desde o início. Roberto DaMatta diz que o brasileiro jamais diz não a um amigo. É verdade, somos a República da amizade. Não é sem sentido a máxima: “Aos amigos tudo, aos inimigos a lei”. Mas esse código social tão familiar não é novo, é muito antigo, diria que é fundador de nossa cultura, pouco atenta ao mérito e ao merecimento e submissa aos compadrios. Na nossa certidão de nascimento, a Carta de Pero Vaz de Caminha, o escrivão da esquadra de Cabral, depois de narrar as maravilhas do Brasil e massagear o ego do Rei D. Manuel, reserva o último parágrafo da carta para pedir um favor pessoal ao soberano. Favor tipicamente tupiniquim. Hoje, num contexto diferente, é claro, ainda continuamos a pedir favores especiais, a contornar hierarquias e méritos alheios, a adular gestores e mandatários, e conseguir vantagens pessoais em detrimento do espírito público. As práticas nepotistas tão comuns entre nossos políticos não são anomalias sociais, são, isso sim, práticas comuns no dia a dia de tantos “cidadãos” brasileiros, de tantas empresas e órgãos públicos.

Sabemos que a meritocracia não é um caminho razoável, mas negar os princípios do merecimento é realmente pernicioso à República. Nos anos 1940 a criação do concurso público veio justamente tentar amenizar o uso político do funcionalismo, tentar oferecer ao país certa estabilidade funcional e burocrática, livre dos favores e chantagens políticas. Como bons e criativos brasileiros inventamos outras estratégias, ou melhor, atalhos. O fato é que nossas relações com os amigos são nítidas derivações da precariedade da separação entre o público e o privado.

Nós, brasileiros, independente das origens ou regiões do país, constituímos uma dinâmica social pessoalizada e personalista que faz com que nossas ações considerem a amizade um meio lícito de merecimento. Basta uma simpatia política, um elo de aproximação, como time de futebol ou parentesco distante, para que as dificuldades do mundo formal e de direito se tornem contornáveis. A República dos Amigos funciona assim, a partir desse toma lá dá cá, um apoio político ou institucional, um laço de parentesco ou comunitário, e as coisas são facilitadas.

Duas consequências evidentes dessa ética da amizade: a inexistência do espírito público, que não seja mediado pelos interesses privados, e o paternalismo político como meio de construção de nossas relações sociais. Essas condutas são como que estruturantes da sociedade brasileira, não importam se à direita ou à esquerda. Administrar os amigos é uma forma eficiente de gerar poder, mesmo que a um custo social considerável.




Setembro, ainda!!!


Publicado dia 17 de setembro no jornal Gazeta do Sul

O antropólogo Ruben Oliven, num livro que deveria ser obrigatório nas escolas e secretarias de educação intitulado “A Parte e o Todo: a diversidade cultural no Brasil-nação”, coloca uma questão interessantíssima que nos ajuda a entender porque o senso comum opta pelo mito em detrimento daquilo que se entende por verdade, fatos ou mesmo evidências. Oliven questiona porque determinados grupos sociais continuam acreditando e cultuando tradições mesmo depois destas terem sido contrariadas pelos fatos. Destacamos um exemplo apresentado pelo autor: um poema épico finlandês, chamado Kalevala, escrito no século XIX, é apresentado por seu autor como um documento imemorial da tradição e do “folclore” do povo da Finlândia. É digno de nota, nesse caso, que mesmo depois da farsa ter sido descoberta pelos folcloristas e historiadores (e confessada pelo autor do poema), as pessoas preferiram continuar acreditando no Kalevala como um épico. Em se tratando da História, no século XIX - o século do nacionalismo, antessala do fascismo - inúmeras tradições foram inventadas para sustentar identidades nacionais e culturais. Mussolini fez largo uso de cultos a bandeiras, hinos, tradições, folclores e indumentárias para legitimar seu discurso nacionalista. Mesmo contrariando os fatos e as evidências históricas, esses elementos cultuados fizeram sentido e a Itália construiu o fascismo modelar do início do século XX. Tradições que fazem sentido não precisam ser cultuadas nem ter data e hora marcadas para serem comemoradas, simplesmente fazem parte da vida e não se precisa pensar nelas.

É evidente que as tradições (sobretudo as inventadas) atendem a demandas de poder, que produzem sentido e constroem memórias legitimadoras de determinados grupos sociais. O complicado é quando se cultua episódios históricos que são absolutamente desmitificados por evidências e pesquisas sérias e, sobretudo, quando a mensagem que se procura inculcar desses episódios é o oposto dos acontecimentos. Temos inúmeros casos desse tipo no Brasil, e o Rio Grande do Sul deve ser o campeão na modalidade. Desses episódios mitificados se procura tirar lições, valores, exemplos e modelos morais. Nada mais conservador e pouco criativo. Se no século XIX os nacionalistas românticos criaram uma identidade nacional a qualquer custo, mesmo o da crítica e consciência histórica, no século XXI isso é no mínimo anacrônico.

Por sorte as instituições educacionais, que devem ter um compromisso com a verdade e com o conhecimento, não participam desses cultos, ao contrário, levam os alunos a uma reflexão séria sobre a História e a sociedade em que vivem. No caso do Rio Grande do Sul, no mês de setembro, deveríamos fazer pelo menos um minuto de silêncio pelos traídos em Porongos.

Setembro, de novo!!!


Publicado dia 10-09-2011 no Jornal Gazeta do Sul.

Todo ano, de acordo com a lei 662/49, deverá ser comemorado o dia da independência do Brasil. Para isso se reverencia alguns heróis nacionais responsáveis pelo grande feito. Setembro é assim, somos convocados a marchar pela pátria, cantar hinos e tal e, para piorar, ainda precisamos nos preparar para o 20 de setembro, mais um acontecimento do anedotário regional. Nessa coluna, nos dedicaremos a falar de D. Pedro I, o imperador fanfarrão, filho de D. João VI, elevado a líder e herói da pátria. Durante os 9 anos de reinado, D. Pedro I conseguiu promover uma sucessão de desastres políticos que valem a pena ser lembrados. Eis as razão para o surgimento do herói!

Primeiro Ato: A independência começa com um gesto paternal, familial, de pai pra filho. D. João antes de voltar para Portugal em 1821 diz a Pedro, “Pedro se o Brasil se separar antes seja para tí, que Me Hás de respeitar, do que para algum desses aventureiros”. Ato fundador, pois no Brasil ainda hoje os laços familiares e as relações com os amigos dizem muito de nossas formas de gestão.

Segundo Ato: D. Pedro se torna imperador do Brasil e como primeira grande medida fecha a Assembleia Constituinte em 1823, prende os deputados e no ano seguinte outorga uma constituição autoritária. Não pegou bem.

Terceiro ato: Nesse mesmo ano de 1824 eclode a Confederação do Equador, liderada pelo popular Frei Caneca. D. Pedro ordena a execução do Frei (Pelo Garrote). O Imperador conseguia colecionar inimigos por todo o país.

Quarto Ato: Entre 1825 e 1828 D. Pedro enfrenta a chamada Questão Cisplatina, ou seja, o Uruguai, Província brasileira na época, reivindica a sua independência, entra em guerra com o Brasil e vence. O Imperador perde uma parte do território e ainda cria uma dívida de guerra.

Quinto Ato: Com a morte de D. João VI, em 1826, D. Pedro, que era primogênito, deveria assumir o trono português. Como os brasileiros não aceitaram essa hipótese, o Imperador nomeou sua filha Maria da Glória, com 5 anos, imperatriz portuguesa sob a regência de D. Miguel, seu irmão. D. Miguel através de um golpe assumi o trono e D. Pedro acaba financiando uma guerra contra o próprio irmão, mas com dinheiro brasileiro.

Sexto Ato: Em viagem a Ouro preto, Capital de Minas, D. Pedro fora recebido com os sinos das igrejas dobrando a finados pela morte de Líbero Badaró, jornalista assassinado em São Paulo, pelo que tudo indica a mando do Imperador. No mesmo ano (1831), quando Pedro retornou ao Rio de Janeiro houve a celebre Noite das Garrafadas. Inimigos por toda a parte e isolamento político.

Sétimo Ato: No dia 5 de abril de 1831, demite um ministério composto por brasileiros e anuncia a formação de um novo ministério, com portugueses e absolutistas. Resultado, revolta popular e militar. Praças ocupadas e melancólica renúncia ao trono brasileiro. Agora é esperar pelo dia 20!!!





A ética do plágio

Publicado em 03-09-11 no jornal Gazeta do Sul.


 
Está aqui um problema que preferimos não discutir, não enfrentar com o rigor reflexivo que merece. Como muitas outras coisas nesse país coroado com a ética do jeitinho e da malandragem, o plágio - e vamos além, a cola escolar - é o símbolo maior de nossa mediocridade intelectual. Vale lembrar que plágio é crime previsto pela Lei de Direitos Autorais (N. 9.610/1998). Sabemos que o plágio é hoje uma questão que não assola somente o Brasil, mas atinge de forma devastadora a Europa e EUA. Basta lembrar que o Ministro da Defesa da Alemanha, Karl-Theodor zu Guttenberg, acabou por pedir demissão após descoberto que sua tese de doutorado fora fruto de plágio. Por aqui, a Presidenta não se incomoda muito com as mentiras sobre sua formação acadêmica colocadas - sem querer, claro - no seu Currículo Lattes (Currículo acadêmico oficial do CNPq). E por falar nisso, até o Ministério da Educação, pasmem, o MEC, foi condenado por plágio pela Justiça Federal e deverá indenizar a autora de uma obra copiada indevidamente.

Mas o plágio tem muitas motivações que não podemos analisar aqui. Fiquemos com o nosso problema nacional. No nosso caso é inegável que uma tradição malandra se constituiu como verdadeira ética da trapaça e da corrupção. A precária separação entre as esferas pública e privada nos incita a colocar nossos desejos, interesses e ambições pessoais acima das res publica. O privado sempre transborda para o público. Aqui, o Estado se constitui como ampliação da ideia de família, o contrário do Estado Moderno de Direito que se constitui justamente com a devida negação da soberania familiar em nome da esfera pública, política. Ainda votamos em pessoas e não em ideias ou partidos. O clientelismo, o coronelismo, a oligarquização regional são derivações dessa formação histórica que insiste em nos afastar do mundo político e nos encerrar na lógica familial. Ora, o jeitinho, o carteiraço, as amizades com autoridades nos imuniza frente à Lei e às regras formais de convício social.

Não surpreende que tenhamos tanta dificuldade em entender os direitos dos outros e em não invadir espaços alheios ou públicos. A escola é um bom laboratório dessas condutas. Desde o singelo hábito de escrever nas classes, como se fossem nossas até a destruição dos móveis e prédios e, aqui é o que nos interessa, a invasão (geralmente consentida) das ideias dos outros (cola) são vistos com parcimônia constrangedora para um espaço encarregado de educar. A cola escolar é a antessala do plágio acadêmico, do crime que cotidianamente é cometido em nossas instituições. Mas como diz o ditado que coroa nosso embrutecimento “quem não cola/plageia não sai da escola” e, vale lembrar, não sai da universidade e, no limite, não sai da melancólica ignorância cultivada com graça, orgulho e muito jeitinho!!!

Seleção Mestrado em Educação na UNISC

Estão abertas, até 11.11.2011, as inscrições para o processo seletivo, turma 2012, do Mestrado em Educação da UNISC. O curso é aberto a portadores de diplomas e concluintes de cursos de graduação nas diversas áreas do conhecimento.







As inscrições podem ser feitas pelo site www.unisc.br/ppgedu ou na Secretaria do Programa (endereço abaixo), mediante apresentação do formulário de inscrição, curriculum vitae documentado, foto 3x4 recente, proposta de investigação e resumo em três vias (ver modelo no site do Programa), comprovante de pagamento da taxa de inscrição no valor de R$ 80,00, cópia autenticada do diploma de graduação, histórico escolar, carteira de identidade e CPF.







O processo seletivo consiste de prova escrita, de caráter eliminatório e classificatório, análise da proposta de investigação, currículo Lattes e demais documentos em entrevista presencial. São oferecidas 20 vagas, conforme as linhas de pesquisa: Aprendizagem, Tecnologias e Linguagens na Educação - 6 (seis) vagas; Educação, Trabalho e Emancipação - 7 (sete) vagas; e, Identidade e Diferença na Educação - 7 (sete) vagas. A lista dos selecionados será disponibilizada, a partir do dia 12 de dezembro de 2011, no site do Programa.







O Programa de Pós-Graduação em Educação - Mestrado/UNISC, reconhecido pela CAPES, é coordenado pelos professores Felipe Gustsack e Rosa Maria Filippozzi Martini.



Os Livros e a Ágora

Publicado na coluna História e Cotidiano na Gazeta do Sul, em 27-08-11


Os livros na praça! Há algo importante aqui, mesmo que já trivial e costumeiro, os livros vão à praça porque esse é o espaço por excelência da diversidade e liberdade. A ágora, para os Gregos do século de Péricles, é o espaço público/político privilegiado. Não é sem sentido que os livros na praça signifiquem mais que um comércio anual. Há sem dúvida uma magia nos livros, não somente porque são os símbolos maiores do conhecimento ou mesmo porque significam o meio a partir do qual o conhecimento é compartilhado. Livros circulam pelas gerações, estão presentes aos olhos da infância como aos da velhice. São brinquedo e coisa séria, andam à volta com números, equações, histórias, tratados, poesias, revoluções e tudo o mais que se possa imaginar. Livros também são perigosos, manipuladores e até perversos. É justamente essa imprevidência dos livros, essas múltiplas possibilidades que os tornam objeto de culto e controle. Há poder nos livros, para o bem ou para o mal! Bestializam ou libertam. Os livros são os homens em caracteres!

Desde que os homens da antiguidade (3000 a.C, no Egito) começaram a imprimir a fala em papiros, os “livros” se tornaram a forma universal de circulação do conhecimento. Na Grécia de Péricles o crescimento do comércio de livros era notável, o que indicava que o hábito da leitura já era uma realidade entre os gregos. A biblioteca de Alexandria chegou a ter 700 mil papiros em seu acervo. Verdadeira síntese do conhecimento da antiguidade, infelizmente perdido num incêndio.

Entre os Romanos o livro já era um objeto de consumo e mercado. Roma possuía diversas livrarias e considerável número de autores populares tinham as cópias de suas obras (200 exemplares, na média) a disposição do público. Os livros simbolizavam certo status social, de modo que muitos, como hoje ainda, colecionavam livros ou possuíam bibliotecas privadas para deleite frente a seus pares, o que incomodava filósofos como Sêneca que acusava esses colecionadores de exibicionismo.Se os livros já eram fetiche na antiguidade, na Idade Média eles serão censurados, perseguidos e monopolizados pela Igreja. O iletramento da população e a ignorância daí advindos são evidentes. Os livros tiveram que esperar vários séculos para voltar à praça, e a partir da invenção da imprensa (1456), por Johannes Gutenberg, se fazem onipresentes.

Nesse sábado, em Santa Cruz do Sul, os livros estarão na praça para uma feira, como que num ritual que se reafirma anualmente. Pela “ágora” de Santa Cruz do Sul passarão os leitores, que não se reduzem a consumidores, e por lá poderão fazer jus a esse espaço da diversidade e da liberdade que se constitui numa praça de livros. Os números finais da feira vão ser apontados, certamente, como referência do êxito ou não desse evento letrado. Pouco importa, o que mostrará se a feira foi exitosa ou não será a qualidade dos livros comercializados, para o sossego de Sêneca.

Seminário Avançado PPGEDU-UNISC

O Programa de Pós-Graduação em Educação - Mestrado, através do Grupo de Pesquisa "Identidade e Diferença na Educação" promove o "Seminário Avançado - Processos de Normalização e Biopolítica: conexões com a educação", com a professora Dra. Adriana da Silva Thoma, da UFRGS.




O Seminário acontecerá entre 04 de agosto a 29 de setembro, no turno da noite (quintas-feiras), salas 101 e 5328. Confira o cronograma e conteúdo:

04.08 - A produção do normal/anormal.

11.08 - Os anormais deficientes.

18.08 - Normação e Normalização. O governo das populações.

25.08 - A escola e os processos de normalização.

01.09 - O governo segundo a racionalidade econômica.

08.09 - Governamentalidade neoliberal.

15.09 - Biopolítica, governamentalidade e educação.

22.09 - Atividade aberta.

29.09 - Inclusão e Biopolítica.

* Informamos que o cronograma poderá sofrer alterações em relação a ordem dos conteúdos.



Segue abaixo a ementa:

Análise sobre a constituição da norma como dispositivo biopolítico de gerenciamento da sociedade. Problematizações sobre normalidade/anormalidade e a produção das identidades e diferenças. Debates sobre os processos de normalização no campo da educação.



Carga Horária: 30 horas/aula



Inscrições: Até 29/07/2011 na Secretaria de Pós-Graduação e Extensão, sala 110, bloco 01 da Universidade de Santa Cruz do Sul.



Investimento:



* Alunos regulares e egressos do PPGEdu da UNISC, custo de R$ 5,00 pelo certificado;

* Professores da UNISC:

- Se o professor optar por convalidação como horas de capacitação pedagógica, através do Programa de Pedagogia Universitária, custo de R$5,00 pelo certificado;

* Bolsistas de Iniciação Científica da UNISC, custo de R$ 5,00 pelo certificado;

* Professor Estadual/Municipal: R$ 100,00 (apresentar comprovante no ato da inscrição/Todos os encontros).

* Acadêmicos egressos da UNISC e PPGSS/UNISC: R$ 100,00;

* Acadêmicos de outras IES: R$ 120,00;

* Comunidade em geral: R$150,00;



Obs: Há a possibilidade de cursar apenas um crédito (15 horas/aula - metade dos encontros).

No caso dessa opção o investimento será a taxa do certificado, ou R$ 75,00 como disciplina cursada.



Outras informações pelo telefone 3717-7543 ou 3717-7343.

Aquém e além da modernidade: aproximações e distanciamentos entre Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre

Mozart Linhares da Silva*

Trabalhos de Antropologia e Etnologia, Porto, v. 43, n. 3-4, p. 83-96, 2003.


Resumo:

O artigo se propõe analisar os distanciamentos e aproximações entre o pensamento de Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre. O enfoque da análise situa-se na compreensão da modernidade no Brasil a partir dos desdobramentos do conceito de Homem Cordial, na reflexão de Buarque, bem como no de equilíbrio de antagonismos, na reflexão de Freyre. Com a articulação destes conceitos, o artigo procura as simetrias e assimetrias entre os dois intérpretes do Brasil.



Palavras-chave:

Tradição e Modernidade, Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre.



Abstract

This article proposes to analyze the aloofness and approaches between the thought of Sérgio Buarque de Holanda and Gilberto Freyre. The analysis approach, lie in the understanding of modernity in Brazil from the unfoldings of the Cordial Man concept, in the reflection of Buarque, as well as in the balance of antagonisms, in the reflection of Freyre. With the articulation these concepts, this article looks the symmetries and asymmetries between two Brazil interpreters.



Key-words:

Tradition and modernity, Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre



Introdução

Assim como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda formulou verdadeiros corolários acerca da formação da sociedade brasileira. Alguns deles permitem um reflexão pontuada acerca dos paradoxos da modernidade no Brasil, dos quais grande parte da historiografia pode ser considerada tributária. Nesse artigo, a pretensão é direcionada para aquele conceito de Sérgio Buarque do qual a historiografia manteve-se mais arredia, mais por inconformismo político, é verdade, do que pela pobreza conceitual. Trata-se do conceito de homem cordial, motivo de uma trágica postura refratária de muitos historiadores mais afeitos a uma história normativa que compreensiva. No entanto, o homem cordial de Buarque permite um leque de proposições interessantes, inclusive o debate com a obra de Gilberto Freyre. É a isso que este artigo visa: uma aproximação-distanciamento entre dois dos maiores intérpretes do Brasil. As enormes possibilidades analíticas que esta proposta comporta nos obriga a um recorte mais preciso. Este circunscreve a relação entre homem cordial (de Buarque) como a idéia de equilíbrio de antagonismos (de Freyre). É certo, entretanto, que as posturas de Buarque divergem das de Freyre, nomeadamente no que se refere as últimas conseqüências das análises: enquanto o segundo aponta para uma postura quase que contemplativa do Brasil; o primeiro aponta para uma postura propositiva, e a beira do normativismo, que é do Brasil que deve ser. Noutras palavras, Buarque e Gilberto se encontram provisoriamente, na fresta conceitual, cujas conseqüências levam para outros horizontes, bem entendido, no primeiro caso para uma modernidade inacabada (da falta) e no segundo para além do apenas moderno (excesso).



A procura de Ítaca e Ítaca em todo lugar: o não-lugar

Ulisses, na épica aventura de Homero, perseguiu um objetivo: Ítaca. Não importa o fato de tê-la encontrado, até porque no épico grego o encontro é a realização do destino. Importa, contudo, tê-la procurado a partir de uma predisposição, de um projeto, que cercado de aventuras, percalços e desventuras, acabou por consumar-se. Talvez possamos usar essa metáfora para entender Buarque. O Brasil, para situar-se no caminho civilizatório moderno, deverá enfrentar um gigante e vários heróicos inimigos para encontrar seu caminho à "Ítaca" (modernidade). Mas um gigante, identificado por Sérgio, que se coloca em uma posição bem definida: situado na tradição, que vem de fora, da matriz lusa mas que se torna o âmago da formação da dinâmica da sociedade brasileira. Um gigante pela provável, mas não provada, impossibilidade de ser vencido.

Tomando Ítaca como a modernidade, podemos considerá-la um grande projeto e, pela natureza semântica do termo projeto, um devir, algo a ser realizado. Nesse caso, temos que pensar o projeto como a concretização mais plena da própria modernidade, um projeto é sempre algo que depende do traçado, da projeção e da racionalização dos procedimentos, caso contrário é apenas uma falácia. E é justamente na falácia que a modernidade inacabada se estrutura, ou seja, a modernidade incompleta, desviante, que não percorre os mesmos trilhos da modernidade plena, ou se quiser, da modernidade enquanto projeto universal do ocidente, um projeto do individualismo além-Pirinéus, ou ainda nórdico, baseado num ascetismo refratário à tradição de uma típica do rebanho de cristo. Isso significa que a idéia de homem moderno deve se afastar da idéia de animal político de Aristóteles, ou mesmo, do escolasticismo tardio (a partir do século XVII). Nestes termos, o homem moderno se caracteriza pelo individualismo, pelo caráter formalizador das relações entre público e privado e pela idéia de dever, cujo corolário ético situa-se na responsabilidade, uma responsabilidade talhada num ascetismo que ritualiza a politesse civilizacional. Caracteriza-se também pela crença no reconhecimento pessoal através do mérito próprio, o que revela uma ética do bastar-se a si mesmo. Ora, isso tudo falta ao Brasil na ótica de Buarque. A formação da sociedade brasileira, para o autor de Raízes do Brasil, estrutura-se sobre o triplo pilar da aventura, do desvalor do trabalho e do catolicismo conservador. A Aventura escapa ao regramento e a norma, fundamentais às ações racionais em relação a fins estabelecidos. O aventureiro é um errante, um sobrevivente do acaso e da sorte. O desvalor do trabalho é o resultado do trabalho compulsório do escravismo e levou à dinâmica de uma moral das senzalas, que não só atingia o cativo mas sobretudo o senhor, o proto-decisor político; uma "moral" "narcotizante de qualquer energia realmente produtiva”, no dizer de Sérgio. Para ele, “a moral das senzalas veio a imperar na administração, na economia e nas crenças religiosas dos homens do tempo”. O Catolicismo negou a emancipação do sujeito histórico secular, ou seja o indivíduo responsável, condutor de sua historicidade. A sociedade brasileira, constituída sobre este tripé, revela antes de tudo o contraponto de uma civilização do devir, estruturou-se a partir de uma outra "lógica", menos afeita ao racionalismo homogeneizador ocidental. Sérgio coloca a seguinte questão:

“O peculiar da vida brasileira parece ter sido, por essa época (refere-se a época colonial), uma acentuação singularmente enérgica do afetivo, do irracional, do passional, e uma estagnação ou antes uma atrofia correspondente das qualidades ordenadoras, disciplinadoras, racionalizadoras. Quer dizer, exatamente o contrário do que parece convir a uma população em vias de organizar-se politicamente”.

Sérgio Buarque acabou por revelar uma civilização da errância, de repetidos vaivéns, de circularidades diagnosticadas como imobilizadoras da linearidade característica do projeto da modernidade. Para Sérgio,

"toda a nossa conduta ordinária denuncia, com freqüência, um apego singular aos valores da personalidade configurada pelo recinto doméstico. Cada indivíduo, nesse caso, afirma-se ante os seus semelhantes indiferente à lei geral, onde esta lei contrarie suas afinidades emotivas, e atento apenas ao que o distingue dos demais, do resto do mundo".

Poderíamos afirmar, pensando em Freyre, que o afetivo como matriz das relações sócio-políticas, acarreta na desordem-organizadora pois, se não temos no Brasil uma racionalização e uma formalização das relações, ou pelo menos elas se mostram amolecidas, o fato é que a sociedade possui matizes organizadores que lhe confere existência plena. Uma existência não edificante segundo os postulados modernos mas ainda assim uma existência, quer seja singular, quer seja desviante. É justamente esta existência titubeante que permite Buarque diagnosticar a desterritorialização do brasileiro no Brasil. “Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas idéias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra”. Este não-lugar da existência plena, permite compreendê-la como estando do lado de fora da nação pois se as formas de convívio possuem singularidades que as afastam do padrão moderno ocidental, é ainda e justamente nessa modernidade que se busca a matriz de nossa organização. Daí as idéias fora do lugar, provocadoras de um sentimento ad infinito de mazombismo, como assinalou Vianna Moog. Se as idéias são construídas de fora para dentro, fica evidente o descompasso entre ideação e realidade, uma a trair a outra incessantemente. Daí também a falácia do saber, sempre vinculado a uma realidade que escapa às vivências sociais e políticas. Esse desterro representa, na realidade, a alma fora do corpo, a disjunção entre ser e estar, ou nos termos da preocupação de Sérgio, na disjunção entre a política e a sociedade. Esta é a matriz de uma melancolia civilizatória, já consagrada no texto de Paulo Prado, mas que Sérgio não ratifica por inteiro, ao contrário; transcende numa positividade que permite pensar na mudança, ou melhor, na revolução.

A melancolia civilizatória revela ainda outro traço importante: a vivência intensa de personagens sociais baseados em formas estéticas de existência, cujo conteúdo mostra-se frágil e incerto, conteúdos esparsos. Noutros termos, vislumbra-se uma sociedade cujos papéis sociais estão calcados num esforço constante de assimetria, de diferenciação e reconhecimento, num reconhecimento da superfície. Esses traços podem ser vislumbrados no bacharelismo, nos rituais de navegação social, nos títulos eméritos e doutorais como na retórica verborrágica e bizantina, segundo Buarque.

Ao se considerar esses fatores de existência, é preciso chamar a atenção para o fato de que uma existência hierárquica nesses moldes reclama sempre uma relação com a diferença distante daquela consagrada pelo individualismo moderno. Sendo assim, a construção do indivíduo no Brasil depende de uma relação de aproximação com o outro, mas uma aproximação que constrói abismos e pontes incessantemente. É a necessidade de intimidade que forja a construção do "indivíduo" no Brasil e não a formalização igualitária das relações. A cordialidade, como acentuou Sérgio Buarque, revela-se justamente nessa incapacidade de separação do público e do privado, na incapacidade de formalizar relações. Revela-se na necessidade de exteriorizar um fluxo contínuo de ligações afetivas, emocionais e até passionais. É condição a priorística para o homem cordial, estabelecer relações de intimidade, relações familiares. Sérgio chama atenção para o fato de que "no homem cordial, a vida em sociedade é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da existência". Sérgio Buarque pinça uma passagem de Nietzsche, digna de reprodução: "Vosso mau amor de vós mesmos vos faz do isolamento um cativeiro". A essa afirmação, soma-se a seguinte de Sérgio: "Sua maneira de expansão para com os outros reduz o indivíduo, cada vez mais, à parcela social (...)". Se é correto afirmar que a condição da individualização é a relação com a diferença, com o outro, como referência da construção do eu, é correto afirmar ainda que, no caso brasileiro, a existência ocorre no "viver nos outros". É significativo que estas características do homem cordial, reveladas por Sérgio Buarque, se mostrem de forma estrutural na cultura brasileira. O autor chama atenção, nesse sentido, para "o nosso pendor acentuado para o emprego dos diminutivos". Estes inhos diários, segundo o autor, "serve(m) para nos familiarizar mais com as pessoas ou os objetos e, ao mesmo tempo, para lhes dar relêvo". E ainda, "é a maneira de fazê-los mais acessíveis aos sentidos e também de aproximá-los do coração". Esta é uma idéia aceita por Freyre, quando também analisa os diminutivos. Mas considera que, "podemos acrescentar que sirva principalmente para familiarizar-nos com as pessoas - principalmente com as pessoas socialmente mais importantes: 'sinhôzinho', 'doutorzinho', capitãozinho' (...)". Freyre chama a atenção ainda para a inversão da colocação dos pronomes no Brasil, como formas de estabelecer intimidade e reforçar hierarquias sub-repticamente. Segundo o autor de Casa-Grande & Senzala, "Temos no Brasil dois modos de colocar pronomes, enquanto o português só admite um – o ‘modo duro e imperativo’: diga-me, faça-me, espere-me. Sem desprezarmos o modo português, criamos um novo, inteiramente nosso, caracteristicamente brasileiro: me diga, me faça, me espere. Modo bom, doce, de pedido”.

Interessante observar que o uso desses pronomes corresponde à hierarquização social, ou, como diria DaMatta, ao modo de navegação social, conforme a exigência das situações. Freyre afirma, nesse sentido, que: “Servimo-nos dos dois (modos de colocar os pronomes). Ora, esses dois modos antagônicos de expressão, conforme necessidade de mando ou cerimônia, por um lado, e de intimidade ou de súplica, por outro, parecem-nos bem típicos das relações psicológicas que se desenvolveram através da nossa formação patriarcal entre os senhores e os escravos”. São estas relações psicológicas que caracterizam o homem cordial, contudo, Freyre as identifica na dinâmica do entre-lugar da Casa-grande e da Senzala enquanto Sérgio as identifica como resultado do iberismo afeito a civitas dei.

As relações sociais calcadas na intimidade nos distancia ainda dos requisitos da economia de mercado, da concorrência ou das diversas formas de competição. Como afirma Roberto DaMatta, jamais dizemos não a um amigo. Sérgio Buarque já colocava esta questão de forma contundente ao afirmar que essa maneira de ser não desaparece sequer nos "tipos de atividades que devem alimentar-se normalmente da concorrência". E cita um negociante da Filadélfia que se espantava ao verificar no Brasil, como na Argentina, que para um comerciante conquistar um freguês tinha necessidade de fazer dele um amigo.

A intimidade como traço marcante da formação social do Brasil é apresentada ainda em vários episódios do cotidiano, vale ainda registrar os referentes ao tratamento com os santos. A intimidade no tratamento, quase desrespeitosa, no dizer de Sérgio, suprime as distâncias, estabelece ligações espontâneas que contornam os rituais verdadeiramente religiosos. Freyre também havia apontado este modo de religiosidade no Brasil, onde os santos pareciam membros da família.

Todos estes exemplos de relações afetivas, assimétricas e sobretudo pessoalizadas, distanciam o Brasil do chamado "caminho" da modernidade. É a partir de uma dinâmica da falta que nos construímos. E esta dinâmica revelou, no olhar de Buarque, uma nação do não-lugar, ou de lugares imaginários, que situa-se para além de uma concepção de tempo moderno; uma sociedade construída na errância, no acidente, na fresta situada entre dois mundos. Buarque não apenas diagnosticou, propôs um projeto, um corretivo ao desvio, um projeto para chegar a Ítaca: a ruptura com a tradição, a construção de uma estratégia do devir e ainda uma revolução da existência como condição exegética de olhar o passado para distancia-se dele, mas sem negá-lo como queriam os modernistas. No capítulo, A nossa Revolução, fica claro este projeto. É na superação da lógica da falta que o Brasil deve encontrar um caminho que se revela como potencializador da modernidade. É como se Sérgio tentasse disciplinar um Ulisses que vagueava incerto e apontasse para isso o lugar de Penélope. Flávio Aguiar, ao comentar Raízes do Brasil chama a atenção que "há uma espécie de pedagogia do crescimento no livro, que busca a construção de subjetividades capazes de aceitar os limites e contradições de sua e de nossa auto-imagem, para então poder aceitar uma transformação de nosso mundo pela base".

Se o Brasil começa na modernidade, desviou-se dela; é necessário a busca deste tempo perdido, deste locus redentor. Trata-se de um diagnóstico do passado não para revelar um futuro mas uma busca do passado como correção do rumo. Flávio Aguiar coloca que, "não é, pois, uma revelação do futuro, que deve ser desconhecido, porque melhor; é na verdade uma revelação do passado, o que é condição para que, de fato, o futuro seja alforriado. Sem essa revelação ele será conhecido até demais, pois repetirá o que já houve". Buarque focaliza, nesta direção, o esforço de construir uma história que permitisse, a partir da análise das circularidades temporais na história colonial brasileira, romper com esta circularidade do tempo, como libertação das amarras da tradição. É em Giambattista Vico, que escreveu Scienza Nuova, em 1744, que ele busca esta contingência do corsi e ricorsi do processo histórico. Segundo Maria Odila Leite da Silva Dias, "certas frases de Sérgio Buarque de Holanda evocam a maneira de Vico expor a volta repetitiva de certos padrões que explicavam a recaída, o retrocesso, as sobrevivências arcaicas do passado, que insistiam em reaparecer nos costumes de um povo". O homem cordial seria, seguindo o raciocínio de Maria Odila, a metáfora destas sobrevivências arcaicas, que, no caso, impedem que a forma familiar seja transcendida pela forma abstrata do indivíduo, do cidadão ou do Estado.

Se em Buarque, o Brasil é pensado a partir da lógica da falta, caracterizada, como vimos, pela falta de ascetismo, pela ausência do indivíduo moderno, pela incapacidade de transformar a tradição em referencial de distanciamento, para Gilberto Freyre, ao contrário, foi justamente o excesso que propiciou a realização da civilização brasileira como única e acabada. Gilberto não propõe um Ulisses disciplinado, mas o contempla na errância, no excesso da aventura e da incerteza. Gilberto vê Ítaca em todo lugar. Estes múltiplos espaços, estes múltiplos tempos imbricados na cultura brasileira, constituem a base sobre a qual Gilberto pensou um país para além do apenas moderno. Onde Buarque viu a errância e a aventura como elementos constituidores da falta, Gilberto viu a capacidade de lidar com a adversidade de forma criativa, como elementos que potencializaram a civilização. Onde Buarque percebeu a incapacidade racional na urbanização, Gilberto percebeu uma forma adaptativa, quase ecológica, de lidar com o meio sem impor grandes resistências.

É interessante notar que muitos dos elementos destacados por Sérgio também o foram por Gilberto. Mas eles olharam o Brasil com lentes diferentes, olharam de lugares diferente. Buarque opera retrospectivamente, visando o presente. Parece ter sido a influência da sociologia alemã, quando de seu tempo de estudos na Alemanha, entre 1929 e 1931, quando entrou em contato com Simmel e Weber, entre outros, que marcou sua estratégia do distanciamento. Este distanciamento, como afirma Gabriel Cohn, "naquilo que ele mesmo entendia como uma experiência decisiva de distanciamento crítico em relação às suas próprias raízes". Freyre procura situar-se no tempo do objeto e nessa orientação apresenta um exercício antropológico de co-participação, num tempo tríbio. Cria uma perspectiva existencial que une sujeito e objeto. Freyre se encontra no processo que analisa. Este recurso reforça as distâncias entre Buarque e Freyre, mas vale a pena o esforço de estabelecer algumas aproximações, que segundo Antônio Cândido, são temerosas, sobretudo tomando a questão do método como estrutura do olhar.



O Homem Cordial em equilíbrio de antagonismos

Se nas extremidades Buarque e Freyre se distanciam, ainda assim apresentam uma aproximação que considero basilar nas interpretações do Brasil, e ela consiste na percepção de uma sociedade híbrida para além das misturas "raciais" mas nomeadamente nas misturas de códigos que informam a constituição do homem e da sociedade brasileira, dando um caráter singular à matriz sociocultural. Buarque percebeu isto no homem cordial e Freyre na elaboração do método e na assertiva de uma sociedade que conjuga o equilíbrio e o antagonismo, rompendo o cartesianismo purista das formas de organização social.

Se o homem cordial representa, de certa forma, nosso não-lugar na modernidade, ele constitui ainda um híbrido entre a tradição e a modernidade. Seus rompantes modernos, apesar de sufocados pelos traços tradicionais são latentes, o que evidencia um sujeito singular, criatura nacional. É sem dúvida este olhar compreensivo de Buarque que permite, mesmo em sua tendência propositiva ou normativa, evidenciar uma civilização específica, ainda que esta esteja a procura de seu caminho, desterritorializada.

Em Gilberto Freyre não há procura de um locus ou ainda a negação da territorialização do "espírito" brasileiro, ao contrário, ela situa-se no mestiço. Num certo sentido é o mestiço que funda as bases da sociedade brasileira, ele representa o elo de ligação entre as duas metades conflitantes: o senhor e o escravo, ou melhor seria o branco e o não branco. Longe de constituir a fusão harmônica e pacífica destes antagonismos, Freyre desdobra essa relação num método que permite dar positividade ao próprio conflito. Positividade, entenda-se, como potência criadora, que produz. Mas essa positividade não está nem no antagonismo nem no equilíbrio. Está justamente no que ele conceituou como equilíbrio de antagonismos, recurso pelo qual pode-se pensar toda a dinâmica social brasileira. Assim Freyre define o conceito:

“Considerada de modo geral, a civilização brasileira tem sido, na verdade, um processo de equilíbrio de antagonismos. Antagonismos de economia e de cultura. A cultura européia e a indígena. A européia e a africana. A africana e a indígena. A economia agrária e a pastoril. A agrária e a mineira. O católico e o herege. O jesuíta e o fazendeiro. O bandeirante e o senhor de engenho. O paulista e o emboaba. O pernambucano e o mascate. O grande proprietário e o pária. O bacharel e o analfabeto. Mas predominando sobre todos os antagonismos, o mais geral e o mais profundo: o senhor e o escravo”.

A miscigenação representa para Freyre, não um fenômeno cromático, uma fusão que resultaria na anulação das diferenças. Ricardo Benzaquen de Araújo aponta que a miscigenação permitiu a Freyre pensar um equilíbrio de antagonismos que, "embora equilibrados, recusam-se terminantemente a se desfazer e a se reunir em uma entidade separada, original e indivisível". É essa polifonia que vai fornecer a Freyre também a possibilidade de vislumbrar uma sociedade formada por uma multitemporalidade, o que resulta da mesma forma numa sociedade que equilibra e conjuga a tradição e a modernidade. Não é a recusa da tradição que apontaria ao Brasil o caminho da modernidade, ao contrário; a modernidade em Freyre se apresenta como contingencial. Daí a capacidade de pensar uma modernidade específica, situada na fronteira móvel da tradição-modernidade. Daí a capacidade de pensar uma modernidade específica, situada na fronteira móvel da tradição-modernidade, no interstício das diferenças ou no entre-lugar conforme o insight de Homi Bhabha.

O brasileiro, formado e formador desta dinâmica social (não podemos esquecer que o mestiço não vem de fora, é tipicamente brasileiro) não podia, nesta ótica, ser pensado a partir do conceito clássico do indivíduo moderno. E é justamente na entrecombinação das diferenças que se constitui esse indivíduo. Portanto, é também impossível a este indivíduo se constituir num ascetismo, capaz de auto-bastar-se no isolamento. O homem cordial de Buarque parece encontrar aqui a idéia de viver nos outros. Essa recusa ao isolamento constitui a condição de manter o sincretismo de códigos que forma a civilização brasileira.

É no contorno às fronteiras que o indivíduo no Brasil é forjado, no deslocamento identitário de um EU para um NÓS ou ainda de um "OU" para um "E" que a dinâmica relacional da sociedade brasileira é situada. Entretanto, alargando a visão de Freyre, podemos considerar que o que era considerado um arranjo de sobrevivência do homem cordial, é a essência da própria matriz social nacional. Se as idéias estavam fora lugar numa perspectiva moderna para Buarque, para Freyre elas estão justamente nesta "lógica" porosa do sincretismo. Ao romper o dualismo idéia/realidade Freyre estabelece um interstício onde pode atuar seu pensamento e, é a partir desta banda que pôde admitir um "terceiro excluído" que contorna a lógica binária. Assim posto, idéia/realidade estão em equilíbrio de antagonismos.

É importante colocar ainda, que o homem cordial para Sérgio Buarque de Holanda é, sobretudo, de uma "genética" das elites coloniais, reforçado, nas entranhas do Estado patrimonial, pelo ruralismo daquela burguesia enobrecida com a vinda da corte, em 1808 (corsi e ricorsi). É o ethos rural que invadindo a polis conferiu às relações sociais o caráter comunitário impedindo a transcendência para as relações formais, típicas da civitas moderna. Para Freyre, estas relações moldadas no afetivo, ao contrário, são o resultado de um equilíbrio de antagonismos que evoca a fronteira móvel entre a Casa-grande e a Senzala, constituindo a dinâmica da sociedade como um todo. Não foi o imperativo kantiano que triunfou nos trópicos, nesta lógica, mas o "imperativo" do "viver nos outros".

Na perspectiva de Buarque, a modernidade brasileira se encaminhava lentamente conforme estas amarras cíclicas do homem cordial fossem desfeitas. Fato que observava desde a segunda metade do século XIX, mas não sem receio. De qualquer forma, o modus vivendi urbano modernizador, tomado como antídoto às forças da tradição, apontavam o caminho viável. A imposição das relações formais, típicas da vida urbana, levaria a um contínuo desgaste das relações típicas da vida rural. E Buarque aponta um fenômeno interessante que se anunciava como elementos potenciais desta mudança, identificado ainda nos tempos imperiais. Baseado nas observações de Joaquim Nabuco, evidencia no órfão, não raro mulato, um tipo de indivíduo cujas relações familiares não forcejaram a constituição moral caraterística do patriarcalismo. Cita a seguinte passagem de Nabuco: "em nossa política e em nossa sociedade (...), são os órfãos, os abandonados, que vencem a luta, sobem e governam". Em menor grau, mas ainda assim em condições diferenciadas, os estudantes dos cursos de Olinda e São Paulo constituíram outro exemplo deste distanciamento familiar saudável. Buarque coloca que,

"E não haveria grande exagero em dizer-se que, se os estabelecimentos de ensino superior, sobretudo os cursos jurídicos, fundados desde 1827 em São Paulo e Olinda, contribuíram largamente para a formação de homens públicos capazes, devemo-lo às possibilidades que, com isso, adquiriram numerosos adolescentes arrancados aos seus meios provinciais e rurais, de 'viver por si', libertando-se progressivamente dos velhos laços caseiros, quase tanto como aos conhecimentos que ministravam as faculdades".

Freyre chama a atenção, nesse sentido, que a partir dos anos 1830, mudara a paisagem social brasileira, tomada por essas hordas de jovens bacharéis, que gradativamente afastavam os “homens bons de outrora”. Segundo Freyre, “começava, vagamente, a vitória dos moços, que se acentuaria em traços nítidos com o governo do Senhor D. Pedro II”. Era o início do fim do arraigado patriarcalismo nacional, para Freyre.

Tanto Freyre como Buarque identificam estas forças que atuavam ainda no segundo reinado no sentido de uma transformação do patriarcado para uma sociedade individualista. Contudo, para Buarque este patriarcalismo era, de certo modo, uma construção histórica resistente à mudanças e rupturas efetivas. A idéia Viquiana de corsi e ricorsi reaparece como a possibilidade de retrocessos, que o próprio Sérgio visualizava nos traços rurais da vida urbana do século XX. Luis Guilherme Piva, coloca sobre esta questão que Sérgio “vê em curso processos que autorizam certo otimismo. Mas, cauteloso, temendo o peso de estruturas arraigadas, alerta para possíveis dificuldades e barreiras capazes de impedir que ‘nossa revolução’ se realiza”. Era portanto uma força mobilizadora que exigia uma transformação profunda que passasse por uma verdadeira revolução da existência do homem brasileiro. Já para Gilberto Freyre, a decadência do patriarcado revelava uma natural transformação como se uma missão histórica houvesse se cumprido. Este patriarcado, na realidade, fora responsável pela organização e estabilidade da sociedade brasileira, carregado, portanto, de positividade, no sentido que aludimos acima.

Mas não podemos radicalizar na obra de Buarque o elogio ao racionalismo triunfante como condição do sucesso civilizatório nos trópicos. Ao contrário, ainda na linha de Vico, Buarque nega o racionalismo purista e o universalismo incauto. Opera sua análise nas especificidades e suas relações com o universal sem perder de vista as imprevisibilidades que caracterizam o involuntarismo do historismo. É nesse sentido que afirmava que “Muitas vezes características importantes do processo de colonização não provinham da vontade dos portugueses nem de forças criadoras e sim de elementos adventícios, um tanto arbitrários”. Pode-se considerar que entre estes elementos está a fraqueza portuguesa, sua inadimplência com a racionalização colonizadora que não impôs uma obra ao meio mas se adequou a ele. Buarque, ao comparar a tentativa frustrada de fixação dos Holandeses no Brasil, aponta justamente para a malograda imposição de um sistema produtivo pouco afeito a natureza local. Nas suas palavras, “Não há dúvida, porém, que o zelo animador dos holandeses na sua notável empresa colonial, só muito dificilmente transpunha os muros das cidades e não podia implantar-se na vida rural de nosso nordeste, sem desnaturá-la e perverter-se”. No caso do sucesso português, o elogio vem da desrazão, do despretensioso desleixo que acabou por aproveitar o ritmo natural do meio. Para Sérgio, “sua fraqueza (a dos portugueses), foi sua força”. Buarque coloca ainda, no texto Panlusismo, onde estabelece um profícuo diálogo com Freyre, que “o triunfo do português como povo colonizador vem precisamente das generosas qualidades que teriam provocado seu relativo insucesso como povo europeu”. Esta “fraqueza” do colonizador, na concepção de Sérgio, é vista por Freyre como força latente, que irrompe em heroísmos surpreendentes em situações limites, característica essa notada por Euclídes da Cunha no homem do sertão. Freyre coloca em Casa-grande & Senzala que:

“O caráter português é como um rio que vai correndo muito calmo e de repente precipita em quedas de água: daí passar do ‘fatalismo’ a ‘rompantes de esforço heróico’; da ‘apatia’ a ‘explosões de energia na vida particular e a revoluções na vida pública’; da ‘docilidade’ a ‘ímpetos de arrogância e crueldade’; da ‘indiferença’ a ‘fugitivos entusiasmos’, ‘amor ao progresso’, ‘dinamismo’.

A adaptabilidade ao ritmo do meio para Gilberto Freyre, não provém de uma fraqueza mas de uma capacidade singular de abertura e porosidade da cultura portuguesa. Essa foi a condição que levou, ainda na visão de Freyre, o sucesso civilizatório nos trópicos.

A dualidade razão/aventura como modo interpretativo da história, não alcança em Sérgio um fechamento metodológico, justamente por esta abertura ao particular como elemento sine qua non, ao estilo de Vico, para entender os processos sem submetê-los ao universalismo. Já para Freyre, esta tensão não existe pois a partir da dinâmica do equilíbrio de antagonismos, o que era tido como ambigüidades ou ainda imprevisibilidades na análise de Sérgio, pode ser percebido como a lógica da dinâmica social brasileira. É essa capacidade de vivenciar a um só tempo a ordem&desordem, a continuidade&ruptura, a violência&amabilidade ou ainda o trabalho&aventura que constitui a matriz cultural que possibilitou a obra civilizatória brasileira.

A par destas considerações cabe voltar a questão da cordialidade, enfatizando a tradição Ibérica e seus desdobramentos no Brasil. Tanto Buarque como Freyre perscrutaram a tradição num sentido compreensivo, em que pese os deslocamentos do olhar, como já colocamos. Buarque coloca esta questão de forma precisa, ao comentar Gilberto: “os valores tradicionais só lhe interessaram verdadeiramente como força viva e estimulante, não como programa”,

Para Sérgio Buarque, é no Iberismo que devemos nos ater para entender a constituição do homem cordial, seu espírito comunitário em oposição às abstratas formas de organização social e política. É no escolasticismo que se atém, sobretudo a maneira lusitana de se relacionar com a hierarquia ordenadora da cosmologia aristotélico-tomista. Segundo Sérgio,

“os anjos que compõem as três ordens da primeira hierarquia, os Querubins, os Serafins e os Tronos, são equiparados aos homens que formam o entourage imediato de um monarca medieval: assistem o soberano no que ele realiza por si mesmo, são os seus ministros e conselheiros. Os da segunda hierarquia, as Dominações, as potências e as Virtudes são, em relação a Deus aquilo que para um rei são os governadores por ele incumbidos da administração das diferentes províncias do reino. Finalmente, os da terceira hierarquia correspondem, na cidade temporal, aos agentes do poder, os funcionários subalternos”.

Esta hierarquização aristotélico-tomista teria afastado os homens das coisas da terra. “Não há, nessa sociedade, lugar para as criaturas que procuram a paz terrestre nos bens e vantagens deste mundo. A comunidade dos justos é estrangeira na terra, ela viaja e vive da fé no exílio e na mortalidade”. É o que Louis Dumont chama de “indivíduo fora do mundo”. Sérgio acrescenta ainda que: “por um paradoxo singular, o princípio formador da sociedade era, em sua expressão mais nítida, uma força inimiga do mundo e da vida”.

Mas Sérgio não entende esta hierarquia de forma universal, cuja influência na mentalidade lusa fosse simétrica. Ao contrário, atento ao caráter particular dos processos históricos, aponta para um certo relaxamento desta cosmologia em Portugal e principalmente no Brasil, mesmo reconhecendo seus pontos perenes. O autor coloca que,

“no fundo, o próprio princípio de hierarquia nunca chegou a importar de modo cabal entre nós. Toda hierarquia funda-se necessariamente em privilégios. E a verdade é que, bem antes de triunfarem no mundo as chamadas idéias revolucionárias, portugueses e espanhóis parecem ter sentido vivamente a irracionalidade específica, a injustiça social de certos privilégios, sobretudo dos privilégios hereditários. O prestígio pessoal, independente do nome herdado, manteve-se continuamente nas épocas mais gloriosas da história das nações Ibéricas”.

É nesta precária hierarquia, que transportada ao Brasil, e aqui mais amolecida, para usar a linguagem freyriana, que se situa a dinâmica pragmática do homem brasileiro. Mais afeito às glórias pessoais e pouco sensível às idéias abstratas; nem mesmo a hierarquia da nobreza de tradição medieval fornecia as bases de uma coesão social regida por normas externas a vontade pessoal. Essa é a matriz do aventureiro.

Se para Freyre foi justamente a matriz ibérica que forneceu as características necessárias para inventar um "novo" português nos trópicos, ou ainda criar um mundo novo, para Sérgio este fato acabou por criar falsas condições civilizatórias. O que se criou nos trópicos foi uma civilização incapaz, por força da tradição, de articular a idéia de futuro, de progresso e devir como ocorrera nos países "modernos". Essa era também, na visão de Sérgio, o germe de nossa incapacidade revolucionária, nosso medo às mudanças profundas e estruturais. É o oposto do que acorrera nos EUA, onde se travou guerras por princípios abstratos e universais. O novo mundo da parte sul da América, principalmente o Brasil, carecia da crença nos valores universais. É contra esta tradição lastimosa que Sérgio investe ao apontar um caminho para a Revolução: assumir a temporalidade moderna, crer na linearidade e no devir. O Brasil não deveria negar a tradição mas conhecê-la tão profundamente o quanto necessário para poder aprender com seus erros. Pretendia nesse sentido, conjugar duas forças transformadoras: uma de ideal universal, moderna, e outra puramente nacional, baseada numa consciência da existência de suas raízes. O Brasil de Sérgio deveria colocar sua criatividade a serviço da razão, como Ulisses, e assim contornar as forças que o desviavam de Ítaca. Para Freyre, Ítaca fora apenas um dos destinos possíveis.