Os Livros e a Ágora

Publicado na coluna História e Cotidiano na Gazeta do Sul, em 27-08-11


Os livros na praça! Há algo importante aqui, mesmo que já trivial e costumeiro, os livros vão à praça porque esse é o espaço por excelência da diversidade e liberdade. A ágora, para os Gregos do século de Péricles, é o espaço público/político privilegiado. Não é sem sentido que os livros na praça signifiquem mais que um comércio anual. Há sem dúvida uma magia nos livros, não somente porque são os símbolos maiores do conhecimento ou mesmo porque significam o meio a partir do qual o conhecimento é compartilhado. Livros circulam pelas gerações, estão presentes aos olhos da infância como aos da velhice. São brinquedo e coisa séria, andam à volta com números, equações, histórias, tratados, poesias, revoluções e tudo o mais que se possa imaginar. Livros também são perigosos, manipuladores e até perversos. É justamente essa imprevidência dos livros, essas múltiplas possibilidades que os tornam objeto de culto e controle. Há poder nos livros, para o bem ou para o mal! Bestializam ou libertam. Os livros são os homens em caracteres!

Desde que os homens da antiguidade (3000 a.C, no Egito) começaram a imprimir a fala em papiros, os “livros” se tornaram a forma universal de circulação do conhecimento. Na Grécia de Péricles o crescimento do comércio de livros era notável, o que indicava que o hábito da leitura já era uma realidade entre os gregos. A biblioteca de Alexandria chegou a ter 700 mil papiros em seu acervo. Verdadeira síntese do conhecimento da antiguidade, infelizmente perdido num incêndio.

Entre os Romanos o livro já era um objeto de consumo e mercado. Roma possuía diversas livrarias e considerável número de autores populares tinham as cópias de suas obras (200 exemplares, na média) a disposição do público. Os livros simbolizavam certo status social, de modo que muitos, como hoje ainda, colecionavam livros ou possuíam bibliotecas privadas para deleite frente a seus pares, o que incomodava filósofos como Sêneca que acusava esses colecionadores de exibicionismo.Se os livros já eram fetiche na antiguidade, na Idade Média eles serão censurados, perseguidos e monopolizados pela Igreja. O iletramento da população e a ignorância daí advindos são evidentes. Os livros tiveram que esperar vários séculos para voltar à praça, e a partir da invenção da imprensa (1456), por Johannes Gutenberg, se fazem onipresentes.

Nesse sábado, em Santa Cruz do Sul, os livros estarão na praça para uma feira, como que num ritual que se reafirma anualmente. Pela “ágora” de Santa Cruz do Sul passarão os leitores, que não se reduzem a consumidores, e por lá poderão fazer jus a esse espaço da diversidade e da liberdade que se constitui numa praça de livros. Os números finais da feira vão ser apontados, certamente, como referência do êxito ou não desse evento letrado. Pouco importa, o que mostrará se a feira foi exitosa ou não será a qualidade dos livros comercializados, para o sossego de Sêneca.