A República dos Amigos!



Publicado dia 24-09-11 no jornal Gazeta do Sul


Não vamos nos enganar, as amizades são tudo para nós brasileiros, para o bem ou para o mal. É assim desde o início. Roberto DaMatta diz que o brasileiro jamais diz não a um amigo. É verdade, somos a República da amizade. Não é sem sentido a máxima: “Aos amigos tudo, aos inimigos a lei”. Mas esse código social tão familiar não é novo, é muito antigo, diria que é fundador de nossa cultura, pouco atenta ao mérito e ao merecimento e submissa aos compadrios. Na nossa certidão de nascimento, a Carta de Pero Vaz de Caminha, o escrivão da esquadra de Cabral, depois de narrar as maravilhas do Brasil e massagear o ego do Rei D. Manuel, reserva o último parágrafo da carta para pedir um favor pessoal ao soberano. Favor tipicamente tupiniquim. Hoje, num contexto diferente, é claro, ainda continuamos a pedir favores especiais, a contornar hierarquias e méritos alheios, a adular gestores e mandatários, e conseguir vantagens pessoais em detrimento do espírito público. As práticas nepotistas tão comuns entre nossos políticos não são anomalias sociais, são, isso sim, práticas comuns no dia a dia de tantos “cidadãos” brasileiros, de tantas empresas e órgãos públicos.

Sabemos que a meritocracia não é um caminho razoável, mas negar os princípios do merecimento é realmente pernicioso à República. Nos anos 1940 a criação do concurso público veio justamente tentar amenizar o uso político do funcionalismo, tentar oferecer ao país certa estabilidade funcional e burocrática, livre dos favores e chantagens políticas. Como bons e criativos brasileiros inventamos outras estratégias, ou melhor, atalhos. O fato é que nossas relações com os amigos são nítidas derivações da precariedade da separação entre o público e o privado.

Nós, brasileiros, independente das origens ou regiões do país, constituímos uma dinâmica social pessoalizada e personalista que faz com que nossas ações considerem a amizade um meio lícito de merecimento. Basta uma simpatia política, um elo de aproximação, como time de futebol ou parentesco distante, para que as dificuldades do mundo formal e de direito se tornem contornáveis. A República dos Amigos funciona assim, a partir desse toma lá dá cá, um apoio político ou institucional, um laço de parentesco ou comunitário, e as coisas são facilitadas.

Duas consequências evidentes dessa ética da amizade: a inexistência do espírito público, que não seja mediado pelos interesses privados, e o paternalismo político como meio de construção de nossas relações sociais. Essas condutas são como que estruturantes da sociedade brasileira, não importam se à direita ou à esquerda. Administrar os amigos é uma forma eficiente de gerar poder, mesmo que a um custo social considerável.




Setembro, ainda!!!


Publicado dia 17 de setembro no jornal Gazeta do Sul

O antropólogo Ruben Oliven, num livro que deveria ser obrigatório nas escolas e secretarias de educação intitulado “A Parte e o Todo: a diversidade cultural no Brasil-nação”, coloca uma questão interessantíssima que nos ajuda a entender porque o senso comum opta pelo mito em detrimento daquilo que se entende por verdade, fatos ou mesmo evidências. Oliven questiona porque determinados grupos sociais continuam acreditando e cultuando tradições mesmo depois destas terem sido contrariadas pelos fatos. Destacamos um exemplo apresentado pelo autor: um poema épico finlandês, chamado Kalevala, escrito no século XIX, é apresentado por seu autor como um documento imemorial da tradição e do “folclore” do povo da Finlândia. É digno de nota, nesse caso, que mesmo depois da farsa ter sido descoberta pelos folcloristas e historiadores (e confessada pelo autor do poema), as pessoas preferiram continuar acreditando no Kalevala como um épico. Em se tratando da História, no século XIX - o século do nacionalismo, antessala do fascismo - inúmeras tradições foram inventadas para sustentar identidades nacionais e culturais. Mussolini fez largo uso de cultos a bandeiras, hinos, tradições, folclores e indumentárias para legitimar seu discurso nacionalista. Mesmo contrariando os fatos e as evidências históricas, esses elementos cultuados fizeram sentido e a Itália construiu o fascismo modelar do início do século XX. Tradições que fazem sentido não precisam ser cultuadas nem ter data e hora marcadas para serem comemoradas, simplesmente fazem parte da vida e não se precisa pensar nelas.

É evidente que as tradições (sobretudo as inventadas) atendem a demandas de poder, que produzem sentido e constroem memórias legitimadoras de determinados grupos sociais. O complicado é quando se cultua episódios históricos que são absolutamente desmitificados por evidências e pesquisas sérias e, sobretudo, quando a mensagem que se procura inculcar desses episódios é o oposto dos acontecimentos. Temos inúmeros casos desse tipo no Brasil, e o Rio Grande do Sul deve ser o campeão na modalidade. Desses episódios mitificados se procura tirar lições, valores, exemplos e modelos morais. Nada mais conservador e pouco criativo. Se no século XIX os nacionalistas românticos criaram uma identidade nacional a qualquer custo, mesmo o da crítica e consciência histórica, no século XXI isso é no mínimo anacrônico.

Por sorte as instituições educacionais, que devem ter um compromisso com a verdade e com o conhecimento, não participam desses cultos, ao contrário, levam os alunos a uma reflexão séria sobre a História e a sociedade em que vivem. No caso do Rio Grande do Sul, no mês de setembro, deveríamos fazer pelo menos um minuto de silêncio pelos traídos em Porongos.

Setembro, de novo!!!


Publicado dia 10-09-2011 no Jornal Gazeta do Sul.

Todo ano, de acordo com a lei 662/49, deverá ser comemorado o dia da independência do Brasil. Para isso se reverencia alguns heróis nacionais responsáveis pelo grande feito. Setembro é assim, somos convocados a marchar pela pátria, cantar hinos e tal e, para piorar, ainda precisamos nos preparar para o 20 de setembro, mais um acontecimento do anedotário regional. Nessa coluna, nos dedicaremos a falar de D. Pedro I, o imperador fanfarrão, filho de D. João VI, elevado a líder e herói da pátria. Durante os 9 anos de reinado, D. Pedro I conseguiu promover uma sucessão de desastres políticos que valem a pena ser lembrados. Eis as razão para o surgimento do herói!

Primeiro Ato: A independência começa com um gesto paternal, familial, de pai pra filho. D. João antes de voltar para Portugal em 1821 diz a Pedro, “Pedro se o Brasil se separar antes seja para tí, que Me Hás de respeitar, do que para algum desses aventureiros”. Ato fundador, pois no Brasil ainda hoje os laços familiares e as relações com os amigos dizem muito de nossas formas de gestão.

Segundo Ato: D. Pedro se torna imperador do Brasil e como primeira grande medida fecha a Assembleia Constituinte em 1823, prende os deputados e no ano seguinte outorga uma constituição autoritária. Não pegou bem.

Terceiro ato: Nesse mesmo ano de 1824 eclode a Confederação do Equador, liderada pelo popular Frei Caneca. D. Pedro ordena a execução do Frei (Pelo Garrote). O Imperador conseguia colecionar inimigos por todo o país.

Quarto Ato: Entre 1825 e 1828 D. Pedro enfrenta a chamada Questão Cisplatina, ou seja, o Uruguai, Província brasileira na época, reivindica a sua independência, entra em guerra com o Brasil e vence. O Imperador perde uma parte do território e ainda cria uma dívida de guerra.

Quinto Ato: Com a morte de D. João VI, em 1826, D. Pedro, que era primogênito, deveria assumir o trono português. Como os brasileiros não aceitaram essa hipótese, o Imperador nomeou sua filha Maria da Glória, com 5 anos, imperatriz portuguesa sob a regência de D. Miguel, seu irmão. D. Miguel através de um golpe assumi o trono e D. Pedro acaba financiando uma guerra contra o próprio irmão, mas com dinheiro brasileiro.

Sexto Ato: Em viagem a Ouro preto, Capital de Minas, D. Pedro fora recebido com os sinos das igrejas dobrando a finados pela morte de Líbero Badaró, jornalista assassinado em São Paulo, pelo que tudo indica a mando do Imperador. No mesmo ano (1831), quando Pedro retornou ao Rio de Janeiro houve a celebre Noite das Garrafadas. Inimigos por toda a parte e isolamento político.

Sétimo Ato: No dia 5 de abril de 1831, demite um ministério composto por brasileiros e anuncia a formação de um novo ministério, com portugueses e absolutistas. Resultado, revolta popular e militar. Praças ocupadas e melancólica renúncia ao trono brasileiro. Agora é esperar pelo dia 20!!!





A ética do plágio

Publicado em 03-09-11 no jornal Gazeta do Sul.


 
Está aqui um problema que preferimos não discutir, não enfrentar com o rigor reflexivo que merece. Como muitas outras coisas nesse país coroado com a ética do jeitinho e da malandragem, o plágio - e vamos além, a cola escolar - é o símbolo maior de nossa mediocridade intelectual. Vale lembrar que plágio é crime previsto pela Lei de Direitos Autorais (N. 9.610/1998). Sabemos que o plágio é hoje uma questão que não assola somente o Brasil, mas atinge de forma devastadora a Europa e EUA. Basta lembrar que o Ministro da Defesa da Alemanha, Karl-Theodor zu Guttenberg, acabou por pedir demissão após descoberto que sua tese de doutorado fora fruto de plágio. Por aqui, a Presidenta não se incomoda muito com as mentiras sobre sua formação acadêmica colocadas - sem querer, claro - no seu Currículo Lattes (Currículo acadêmico oficial do CNPq). E por falar nisso, até o Ministério da Educação, pasmem, o MEC, foi condenado por plágio pela Justiça Federal e deverá indenizar a autora de uma obra copiada indevidamente.

Mas o plágio tem muitas motivações que não podemos analisar aqui. Fiquemos com o nosso problema nacional. No nosso caso é inegável que uma tradição malandra se constituiu como verdadeira ética da trapaça e da corrupção. A precária separação entre as esferas pública e privada nos incita a colocar nossos desejos, interesses e ambições pessoais acima das res publica. O privado sempre transborda para o público. Aqui, o Estado se constitui como ampliação da ideia de família, o contrário do Estado Moderno de Direito que se constitui justamente com a devida negação da soberania familiar em nome da esfera pública, política. Ainda votamos em pessoas e não em ideias ou partidos. O clientelismo, o coronelismo, a oligarquização regional são derivações dessa formação histórica que insiste em nos afastar do mundo político e nos encerrar na lógica familial. Ora, o jeitinho, o carteiraço, as amizades com autoridades nos imuniza frente à Lei e às regras formais de convício social.

Não surpreende que tenhamos tanta dificuldade em entender os direitos dos outros e em não invadir espaços alheios ou públicos. A escola é um bom laboratório dessas condutas. Desde o singelo hábito de escrever nas classes, como se fossem nossas até a destruição dos móveis e prédios e, aqui é o que nos interessa, a invasão (geralmente consentida) das ideias dos outros (cola) são vistos com parcimônia constrangedora para um espaço encarregado de educar. A cola escolar é a antessala do plágio acadêmico, do crime que cotidianamente é cometido em nossas instituições. Mas como diz o ditado que coroa nosso embrutecimento “quem não cola/plageia não sai da escola” e, vale lembrar, não sai da universidade e, no limite, não sai da melancólica ignorância cultivada com graça, orgulho e muito jeitinho!!!

Seleção Mestrado em Educação na UNISC

Estão abertas, até 11.11.2011, as inscrições para o processo seletivo, turma 2012, do Mestrado em Educação da UNISC. O curso é aberto a portadores de diplomas e concluintes de cursos de graduação nas diversas áreas do conhecimento.







As inscrições podem ser feitas pelo site www.unisc.br/ppgedu ou na Secretaria do Programa (endereço abaixo), mediante apresentação do formulário de inscrição, curriculum vitae documentado, foto 3x4 recente, proposta de investigação e resumo em três vias (ver modelo no site do Programa), comprovante de pagamento da taxa de inscrição no valor de R$ 80,00, cópia autenticada do diploma de graduação, histórico escolar, carteira de identidade e CPF.







O processo seletivo consiste de prova escrita, de caráter eliminatório e classificatório, análise da proposta de investigação, currículo Lattes e demais documentos em entrevista presencial. São oferecidas 20 vagas, conforme as linhas de pesquisa: Aprendizagem, Tecnologias e Linguagens na Educação - 6 (seis) vagas; Educação, Trabalho e Emancipação - 7 (sete) vagas; e, Identidade e Diferença na Educação - 7 (sete) vagas. A lista dos selecionados será disponibilizada, a partir do dia 12 de dezembro de 2011, no site do Programa.







O Programa de Pós-Graduação em Educação - Mestrado/UNISC, reconhecido pela CAPES, é coordenado pelos professores Felipe Gustsack e Rosa Maria Filippozzi Martini.