A ética do plágio

Publicado em 03-09-11 no jornal Gazeta do Sul.


 
Está aqui um problema que preferimos não discutir, não enfrentar com o rigor reflexivo que merece. Como muitas outras coisas nesse país coroado com a ética do jeitinho e da malandragem, o plágio - e vamos além, a cola escolar - é o símbolo maior de nossa mediocridade intelectual. Vale lembrar que plágio é crime previsto pela Lei de Direitos Autorais (N. 9.610/1998). Sabemos que o plágio é hoje uma questão que não assola somente o Brasil, mas atinge de forma devastadora a Europa e EUA. Basta lembrar que o Ministro da Defesa da Alemanha, Karl-Theodor zu Guttenberg, acabou por pedir demissão após descoberto que sua tese de doutorado fora fruto de plágio. Por aqui, a Presidenta não se incomoda muito com as mentiras sobre sua formação acadêmica colocadas - sem querer, claro - no seu Currículo Lattes (Currículo acadêmico oficial do CNPq). E por falar nisso, até o Ministério da Educação, pasmem, o MEC, foi condenado por plágio pela Justiça Federal e deverá indenizar a autora de uma obra copiada indevidamente.

Mas o plágio tem muitas motivações que não podemos analisar aqui. Fiquemos com o nosso problema nacional. No nosso caso é inegável que uma tradição malandra se constituiu como verdadeira ética da trapaça e da corrupção. A precária separação entre as esferas pública e privada nos incita a colocar nossos desejos, interesses e ambições pessoais acima das res publica. O privado sempre transborda para o público. Aqui, o Estado se constitui como ampliação da ideia de família, o contrário do Estado Moderno de Direito que se constitui justamente com a devida negação da soberania familiar em nome da esfera pública, política. Ainda votamos em pessoas e não em ideias ou partidos. O clientelismo, o coronelismo, a oligarquização regional são derivações dessa formação histórica que insiste em nos afastar do mundo político e nos encerrar na lógica familial. Ora, o jeitinho, o carteiraço, as amizades com autoridades nos imuniza frente à Lei e às regras formais de convício social.

Não surpreende que tenhamos tanta dificuldade em entender os direitos dos outros e em não invadir espaços alheios ou públicos. A escola é um bom laboratório dessas condutas. Desde o singelo hábito de escrever nas classes, como se fossem nossas até a destruição dos móveis e prédios e, aqui é o que nos interessa, a invasão (geralmente consentida) das ideias dos outros (cola) são vistos com parcimônia constrangedora para um espaço encarregado de educar. A cola escolar é a antessala do plágio acadêmico, do crime que cotidianamente é cometido em nossas instituições. Mas como diz o ditado que coroa nosso embrutecimento “quem não cola/plageia não sai da escola” e, vale lembrar, não sai da universidade e, no limite, não sai da melancólica ignorância cultivada com graça, orgulho e muito jeitinho!!!

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