Setembro, ainda!!!


Publicado dia 17 de setembro no jornal Gazeta do Sul

O antropólogo Ruben Oliven, num livro que deveria ser obrigatório nas escolas e secretarias de educação intitulado “A Parte e o Todo: a diversidade cultural no Brasil-nação”, coloca uma questão interessantíssima que nos ajuda a entender porque o senso comum opta pelo mito em detrimento daquilo que se entende por verdade, fatos ou mesmo evidências. Oliven questiona porque determinados grupos sociais continuam acreditando e cultuando tradições mesmo depois destas terem sido contrariadas pelos fatos. Destacamos um exemplo apresentado pelo autor: um poema épico finlandês, chamado Kalevala, escrito no século XIX, é apresentado por seu autor como um documento imemorial da tradição e do “folclore” do povo da Finlândia. É digno de nota, nesse caso, que mesmo depois da farsa ter sido descoberta pelos folcloristas e historiadores (e confessada pelo autor do poema), as pessoas preferiram continuar acreditando no Kalevala como um épico. Em se tratando da História, no século XIX - o século do nacionalismo, antessala do fascismo - inúmeras tradições foram inventadas para sustentar identidades nacionais e culturais. Mussolini fez largo uso de cultos a bandeiras, hinos, tradições, folclores e indumentárias para legitimar seu discurso nacionalista. Mesmo contrariando os fatos e as evidências históricas, esses elementos cultuados fizeram sentido e a Itália construiu o fascismo modelar do início do século XX. Tradições que fazem sentido não precisam ser cultuadas nem ter data e hora marcadas para serem comemoradas, simplesmente fazem parte da vida e não se precisa pensar nelas.

É evidente que as tradições (sobretudo as inventadas) atendem a demandas de poder, que produzem sentido e constroem memórias legitimadoras de determinados grupos sociais. O complicado é quando se cultua episódios históricos que são absolutamente desmitificados por evidências e pesquisas sérias e, sobretudo, quando a mensagem que se procura inculcar desses episódios é o oposto dos acontecimentos. Temos inúmeros casos desse tipo no Brasil, e o Rio Grande do Sul deve ser o campeão na modalidade. Desses episódios mitificados se procura tirar lições, valores, exemplos e modelos morais. Nada mais conservador e pouco criativo. Se no século XIX os nacionalistas românticos criaram uma identidade nacional a qualquer custo, mesmo o da crítica e consciência histórica, no século XXI isso é no mínimo anacrônico.

Por sorte as instituições educacionais, que devem ter um compromisso com a verdade e com o conhecimento, não participam desses cultos, ao contrário, levam os alunos a uma reflexão séria sobre a História e a sociedade em que vivem. No caso do Rio Grande do Sul, no mês de setembro, deveríamos fazer pelo menos um minuto de silêncio pelos traídos em Porongos.

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