Monteiro Lobato e o Racismo!

Publicado na Gazeta do Sul, em 28-10-2011




Não há nada mais anacrônico do que julgar o passado com o olhar do presente, isso é uma regra do pensamento histórico. É necessário sempre um cuidado hermenêutico com os textos do passado. Não faz muito tempo, uma polêmica acerca da postura racista do autor do Sítio do Pica-pau Amarelo recolou os textos de Lobato em evidência. Na ocasião a polêmica teve início numa tentativa autoritária e tipicamente tupiniquim de tentar censurar a presença de Lobato nas escolas, como se o fato de o autor ser um racista empedernido fosse motivo para impedir suas obras de serem estudadas, discutidas e, evidentemente, criticadas como um bom exercício pedagógico. Mas os censores do politicamente correto estão sempre à espreita, prontos para proibir algo, moralizar alguém, corrigir alguma coisa ou simplesmente impor padrões de pensamento. Esta é uma matriz autoritária e não simplesmente ignorância, é preciso estar atento.

No caso de Monteiro Lobato, a outra ponta do debate também merece atenção: os que saíram em defesa do autor, atacando veementemente a tentativa de censurar suas obras, alegando que o fato de o terem acusado de racismo ser um absurdo. Do meu ponto de vista, ambas as posturas são irascíveis. As tentativas autoritárias de censura deveriam ser vistas como escandalosas, assim como o fato de muitos tentarem negar a postura racista de Lobato e aproveitarem a ocasião, inclusive, para negar o racismo no Brasil como um todo. Monteiro Lobato era, sim, um racista, que viveu em pleno contexto das teses racistas que levaram, vale lembrar, à eugenia e aos genocídios da primeira metade do século XX. Mas Lobato num determinado período de sua vida política e intelectual demonstrou ter abandonado essa postura e se filiado ao Movimento Higienista. Isso significava ter rompido com a visão determinista que considerava os negros, os mestiços e os sertanejos exemplos de degeneração racial. Mas, na realidade, era um jogo de interesses políticos e Lobato voltou à velha trincheira racista inspirada em autores como Le Bon, Tayne, Renan, entre outros. Dentre tantos textos de Lobato que poderíamos citar para chamar a atenção de sua postura racista, penso que a obra intitulada O Presidente Negro, escrita em 1926, recentemente reeditada pela editora Globo, já é suficiente. O texto é um libelo da eugenia e uma defesa inconteste do racismo como a “Chave da História”, para usar a feliz expressão de Hannah Arendt. Essa obra nos ajuda a entender melhor a “infeliz” afirmação do autor em carta ao eugenista Arthur Neiva: “País de mestiços, onde branco não tem força para organizar uma Ku Klux Klan, é país perdido”.

A educação tem o dever de fazer falar o racismo, jamais silenciá-lo ou mesmo impedir os alunos de ter acesso a tais ignomínias. Lobato deveria ser um autor estudado nas escolas, e muito estudado, inclusive para ensinar que ideias que hoje sabemos que são absurdas já foram, outrora, regra de pensamento, até mesmo para grandes homens.


Direita/Esquerda

Publicado na Gazeta do Sul em 22-10-2011


Edgar Morin, célebre intelectual da complexidade, certa vez disse que há palavras mestras, que carregam o mundo as costas, palavras anteus, que estão superocupadas de sentido, de modo que (re)significá-las seria uma tarefa pouco promissora. Abandoná-las por perda de sentido seria mais sensato. As palavras mestras de tão densas podem acabar também por se tornarem redundantes, opacas, ocas etc... Esquerda e direita são exemplos clássicos de palavras mestras. Encerram em si grande parte da tradição política moderna. Esses termos surgiram em plena Revolução Francesa (1789), no período conhecido como Convenção (1793), quando os Jacobinos tomaram o poder dos chamados Girondinos. Na Convenção, espécie de Assembleia, o grupo dos Jacobinos, conhecidos pela sua radicalidade contestatória e pela defesa do sufrágio universal, se colocava a esquerda da Mesa Diretora. Os Girondinos, burgueses conservadores, adeptos do voto censitário (que influenciaram a Constituição Imperial brasileira de 1824) se posicionavam a direta da Mesa. Havia ainda o pessoal do centro, chamados de Planície ou Pântano, sem grande importância, pois andavam a pular de um lado para o outro na busca de uma migalha política. Esquerda e direita passaram a identificar esses grupos e logo os termos foram associados às posturas políticas, permanecendo no vocabulário ocidental até os dias de hoje. Hoje, por sinal, é interessante pensar como esses termos históricos se instituem como signos políticos. Não demorou para que esquerda se tornasse toda a postura política que lutasse pelas classes desfavorecidas, pelos valores e posturas mais libertárias, pela igualdade de direitos, pela emancipação dos grupos sociais considerados explorados, alienados, etc... A direita, ao contrário, ficou conhecida pelas posturas conservadoras, que lutava pela manutenção de privilégios, pelo discurso da meritocracia liberal, pela defesa da propriedade, do mercado e do individualismo. A tendência “humanista” moderna não demorou a relacionar a esquerda ao “Bem” e a direita ao “Mal”. Esta forma maniqueísta de enquadrar a esquerda e a direita perdurou mesmo depois da queda da ditadura stalinista, da divulgação dos horrores dos Gulags, das mortandades na Ucrânia e das denúncias dos expurgos dentro do próprio PC da URSS. As tragédias do mundo contemporâneo não haviam sido monopólio da direita. Após a queda do mundo comunista esses termos sofreram sensível queda de prestígio, até porque funcionavam muito bem enquanto um podia contrastar com o outro. Esquerda e direita sozinhas perdem força e significado. Já não são bússolas confiáveis. Palavras mestras são assim, ou tudo ou nada. Não há mais superioridade moral a ser defendida. Esquerda e direita ao perderem sua força contrastiva perderam sentido. Esquerda e direita se confundem em inúmeras instâncias, ofuscam suas antigas especificidades, pois se tornaram hibridas, cambiáveis e, portanto, com fronteiras pouco definidas. A banalização do discurso ético, tornado sem sentido, e o abandono de princípios filosóficos históricos de ambos os lados fez da oposição esquerda x direita uma quimera, uma postura política de mercado....

Comunidade ou Sociedade?

Publicado no jornal Gazeta do Sul, em 15-10-2011


Dentre os tantos dilemas que cercam a vida moderna está a difícil pactuação entre liberdade e segurança, ou seja, entre uma vida em comunidade ou em sociedade. Para entendermos esse dilema contemporâneo é preciso distinguir esses conceitos. Em primeiro lugar é preciso dizer que o discurso comunitário ressurge no mundo contemporâneo a partir da expansão do processo de globalização, quando a relativização das fronteiras nacionais/culturais se fez mais evidente e explicitada. A comunidade, nesse sentido, se ergue como uma força de resistência à homogeneização cultural. Daí o termo comunitarismo, que designa a política de defesa da vida comunitária. Ser de uma comunidade é ser diferente, e no mundo globalizado isso significa edificar uma “identidade”, pois toda comunidade se constitui a partir de uma narrativa de pertencimento que se insurge contra o abstracionismo do individualismo moderno ou cosmopolita. A vida comunitária é radicalmente diferente da vida em sociedade. Isso porque sociedade tem um sentido mais abstrato, formal, ligado a esfera pública e a frieza legislativa ou burocrática. Viver em sociedade é viver num mundo aberto, com fronteiras incertas e cercado de indivíduos sem rosto por todo o lado. Noutras palavras, viver em sociedade no mundo globalizado é ter uma vida cosmopolita, superpopulosa, hibrida e anônima a um só tempo. Isso significa que a vida em sociedade é a vida dos indivíduos, sem nomes e sem personalidades, com identidades mutantes, a la carte. É sem dúvida a experiência radical da liberdade, do anonimato garantido e da autonomia. É a vida do risco, da errancia, do dezenraizamento, do mar aberto, onde o indivíduo pode existir sem ser percebido, experimentar culturas e diferenças sem culpa. É a vida aberta ao novo, à mudança e ao perigo, ao risco constante e a imprevisibilidade. Por outro lado, a vida em comunidade é caracterizada, sobretudo, pela segurança, pelo nome próprio, pelo rosto conhecido, pela pessoalização das relações. Mundo da previsibilidade, dos laços de confiança, do compartilhamento moral e, evidentemente, da proteção e do cuidado recíproco. Esse é o mundo de pouca liberdade, ou ainda, da liberdade vigiada, do provincianismo, onde todos sabem um pouco de todos, todos podem ver todos. Na comunidade não existe indivíduo abstrato, todos são pessoas, todos tem sobrenome e são dotados de qualidades e defeitos. Na vida comunitária, o sujeito é um soldado, representa e defende a sua comunidade onde quer que vá, é um zelador da estrutura comunal. Em suma, uma comunidade é defensiva, desconfia do que vem de fora, protege suas fronteiras físicas ou simbólicas. O comunitarismo se define a partir da pessoa, do coletivo e da identidade de grupo. Se o indivíduo/cidadão é o constituidor da sociedade aberta e livre, a pessoa é a constituinte da comunidade. Eis o dilema do mundo contemporâneo, superar a insegurança sem abrir mão da liberdade, etc, etc, etc...

Educação e falência curricular

Publicado no jornal Gazeta do Sul em 08-10-2011


O currículo escolar é uma peça política. O que se deve ensinar e o que se deve selecionar de um universo de conhecimentos permite entender o que queremos de nossa sociedade. Portanto, o currículo é algo muito importante e os pais deveriam estar atentos a ele. E é por isso que quero chamar a atenção, de início, para uma polêmica suscitada pela Revista Veja (26/09/2011) que tem causado indignação entre os acadêmicos da Área de Humanas. Em várias ocasiões o Semanário tem feito comentários extremamente negativos acerca da inserção da Filosofia e da Sociologia no currículo do ensino médio. A forma desrespeitosa e desinformada com que a Veja tem tratado do assunto e a maneira tecnicista e mercantilista com que vem abordando a educação e o currículo, centrada na formação puramente tecnológica é, para dizer pouco, reducionista e perigosa. Ninguém em sã consciência colocaria em dúvida a importância da formação tecnológica para o desenvolvimento do país. Não se trata disso. A questão de fundo diz respeito à concepção que o Semanário tem da educação, e que é compartilhada por muitos. Dizer, por exemplo, que disciplinas da Área de Humanas tiram espaço de disciplinas “importantes” para o país, é, no mínimo, prova de desinformação ou, na pior das hipóteses, pura falcatrua política.

Desinformação sobre currículo, no entendo, não é exclusividade da Veja. Ressalto aqui a forma desastrada com que muitas Delegacias e Secretarias de Educação têm tratado do currículo, nomeadamente das disciplinas humanistas. Em muitas escolas desse país assistimos o escândalo de professores de uma dada disciplina ministrar aulas sobre outra disciplina. A Área de Humanas é a mais afetada por esse descalabro e falta de respeito aos alunos e aos professores. Um professor de Filosofia ou Geografia jamais poderia assumir uma disciplina de História, o inverso é verdadeiro. Como ensinar o que não se sabe? O que isso significa? Primeiro, que se a Área de Humanas fosse levada a sério esses gestores saberiam da importância de uma formação humanista para que seus alunos se constituam como indivíduos mais cultos, responsáveis e posicionados. Segundo, que os pais não devem ter a menor ideia da formação dos docentes que trabalham com seus filhos.

Voltando ao Semanário, se a revista soubesse da realidade dos educandários desse país, saberia também que as disciplinas de Sociologia e Filosofia estão sendo inseridas ao custo de horas-aulas de outras disciplinas importantes da área de humanas, como a História. É urgente uma reforma curricular, em todas as áreas. O excesso de conteúdos, a ausência de reflexão, os amontoados de dados a serem “memorizados” e outras distorções que ocupam horas e horas das escolas revelam a pobreza curricular e explica o porquê não se pode contemplar responsavelmente um conjunto de disciplinas que possibilitem, aí sim, uma formação integral do aluno, que o prepare para escolher com competência seus próprios caminhos profissionais e, no futuro, a escola de seus filhos.

Educação de balcão?

Publicado dia 30-09-11 no jornal Gazeta do Sul


Até que ponto o mercado pode ser um critério confiável para o planejamento educacional? Estamos acostumados a ler na imprensa inúmeros articulistas que volta e meia opinam sobre os rankings de aproveitamento da educação brasileira, realizam comparações com índices de outros países e, evidentemente, apontam culpados, os educadores. Normalmente tais críticas encaminham como solução uma gestão empresarial para educação, aceitando de vez que a educação é, de fato, uma mercadoria destinada a um público consumidor. Se educação deve ser, portanto, um objeto de mercado, a primeira coisa que deveríamos defender é a remuneração dos professores, haja vista a importância de seu ofício. E nisso não poderia haver muita discórdia, é uma das mais importantes e vitais profissões para que o país consiga manter os níveis de crescimento e desenvolvimento econômico que vem experimentando nos últimos anos. Ora, nenhum crescimento econômico se mantém sem que seja acompanhado de alto nível educacional.

O que se discute é como conseguir esse alto nível. Uma das receitas comumente apresentada na imprensa é a chamada meritocracia. Os meritocrátas lançam mão de dados estatísticos de toda ordem para tentar provar que o problema docente é o que implica numa educação precarizada e que a remuneração deveria seguir metas produtivas, como uma fábrica ou empresa qualquer. O problema não é o mérito em si, mas sim a meritocracia. É óbvio que os professores devem ser avaliados, devem ter competências e devem demonstrá-las. É óbvio que há relação entre competências docentes e aproveitamento discente. E é óbvio, ainda, que se educação fosse uma prioridade essa discussão não estaria ocupando esse espaço. Sabemos que a formação docente no Brasil é precária, que os nossos mestres sofrem inúmeras barreiras e desestímulos para que possam acompanhar o estado da arte de suas áreas de conhecimento. Alarmantes as condições de trabalho de muitos deles. Os planos de carreira são desencorajadores contumazes para o aperfeiçoamento.

É preciso dizer ainda que a educação é uma das áreas mais vitimada por opiniões amadoras. Qualquer um opina sobre educação, mesmo sem nenhum conhecimento sobre a área, basta ler os jornais e revistas. Qualquer “achismo” ou posição pessoal vira tese. Aqui já temos uma falta de humildade e seriedade frente a uma área de conhecimento complexa e pouco afeita a opinadores diletantes. É necessário enfrentar com seriedade a educação brasileira. É preciso que a profissão seja exercida por profissionais competentes, comprometidos e bem remunerados, mas é preciso, da mesma forma, que a educação não seja pensada como uma mercadoria qualquer. Até porque, como concluiu uma pesquisa realizada pela consultoria McKinsey na Finlândia (país com a melhor educação do mundo) “os campeões de qualidade não premiam o mérito. O foco está no recrutamento. Para atrair os melhores, os salários são altos, e a carreira, promissora. As faculdades de Educação são das mais concorridas”.