Comunidade ou Sociedade?

Publicado no jornal Gazeta do Sul, em 15-10-2011


Dentre os tantos dilemas que cercam a vida moderna está a difícil pactuação entre liberdade e segurança, ou seja, entre uma vida em comunidade ou em sociedade. Para entendermos esse dilema contemporâneo é preciso distinguir esses conceitos. Em primeiro lugar é preciso dizer que o discurso comunitário ressurge no mundo contemporâneo a partir da expansão do processo de globalização, quando a relativização das fronteiras nacionais/culturais se fez mais evidente e explicitada. A comunidade, nesse sentido, se ergue como uma força de resistência à homogeneização cultural. Daí o termo comunitarismo, que designa a política de defesa da vida comunitária. Ser de uma comunidade é ser diferente, e no mundo globalizado isso significa edificar uma “identidade”, pois toda comunidade se constitui a partir de uma narrativa de pertencimento que se insurge contra o abstracionismo do individualismo moderno ou cosmopolita. A vida comunitária é radicalmente diferente da vida em sociedade. Isso porque sociedade tem um sentido mais abstrato, formal, ligado a esfera pública e a frieza legislativa ou burocrática. Viver em sociedade é viver num mundo aberto, com fronteiras incertas e cercado de indivíduos sem rosto por todo o lado. Noutras palavras, viver em sociedade no mundo globalizado é ter uma vida cosmopolita, superpopulosa, hibrida e anônima a um só tempo. Isso significa que a vida em sociedade é a vida dos indivíduos, sem nomes e sem personalidades, com identidades mutantes, a la carte. É sem dúvida a experiência radical da liberdade, do anonimato garantido e da autonomia. É a vida do risco, da errancia, do dezenraizamento, do mar aberto, onde o indivíduo pode existir sem ser percebido, experimentar culturas e diferenças sem culpa. É a vida aberta ao novo, à mudança e ao perigo, ao risco constante e a imprevisibilidade. Por outro lado, a vida em comunidade é caracterizada, sobretudo, pela segurança, pelo nome próprio, pelo rosto conhecido, pela pessoalização das relações. Mundo da previsibilidade, dos laços de confiança, do compartilhamento moral e, evidentemente, da proteção e do cuidado recíproco. Esse é o mundo de pouca liberdade, ou ainda, da liberdade vigiada, do provincianismo, onde todos sabem um pouco de todos, todos podem ver todos. Na comunidade não existe indivíduo abstrato, todos são pessoas, todos tem sobrenome e são dotados de qualidades e defeitos. Na vida comunitária, o sujeito é um soldado, representa e defende a sua comunidade onde quer que vá, é um zelador da estrutura comunal. Em suma, uma comunidade é defensiva, desconfia do que vem de fora, protege suas fronteiras físicas ou simbólicas. O comunitarismo se define a partir da pessoa, do coletivo e da identidade de grupo. Se o indivíduo/cidadão é o constituidor da sociedade aberta e livre, a pessoa é a constituinte da comunidade. Eis o dilema do mundo contemporâneo, superar a insegurança sem abrir mão da liberdade, etc, etc, etc...

Um comentário:

deco disse...

Nada mais contra a "cidadania terrestre" do que a comunidade...