Direita/Esquerda

Publicado na Gazeta do Sul em 22-10-2011


Edgar Morin, célebre intelectual da complexidade, certa vez disse que há palavras mestras, que carregam o mundo as costas, palavras anteus, que estão superocupadas de sentido, de modo que (re)significá-las seria uma tarefa pouco promissora. Abandoná-las por perda de sentido seria mais sensato. As palavras mestras de tão densas podem acabar também por se tornarem redundantes, opacas, ocas etc... Esquerda e direita são exemplos clássicos de palavras mestras. Encerram em si grande parte da tradição política moderna. Esses termos surgiram em plena Revolução Francesa (1789), no período conhecido como Convenção (1793), quando os Jacobinos tomaram o poder dos chamados Girondinos. Na Convenção, espécie de Assembleia, o grupo dos Jacobinos, conhecidos pela sua radicalidade contestatória e pela defesa do sufrágio universal, se colocava a esquerda da Mesa Diretora. Os Girondinos, burgueses conservadores, adeptos do voto censitário (que influenciaram a Constituição Imperial brasileira de 1824) se posicionavam a direta da Mesa. Havia ainda o pessoal do centro, chamados de Planície ou Pântano, sem grande importância, pois andavam a pular de um lado para o outro na busca de uma migalha política. Esquerda e direita passaram a identificar esses grupos e logo os termos foram associados às posturas políticas, permanecendo no vocabulário ocidental até os dias de hoje. Hoje, por sinal, é interessante pensar como esses termos históricos se instituem como signos políticos. Não demorou para que esquerda se tornasse toda a postura política que lutasse pelas classes desfavorecidas, pelos valores e posturas mais libertárias, pela igualdade de direitos, pela emancipação dos grupos sociais considerados explorados, alienados, etc... A direita, ao contrário, ficou conhecida pelas posturas conservadoras, que lutava pela manutenção de privilégios, pelo discurso da meritocracia liberal, pela defesa da propriedade, do mercado e do individualismo. A tendência “humanista” moderna não demorou a relacionar a esquerda ao “Bem” e a direita ao “Mal”. Esta forma maniqueísta de enquadrar a esquerda e a direita perdurou mesmo depois da queda da ditadura stalinista, da divulgação dos horrores dos Gulags, das mortandades na Ucrânia e das denúncias dos expurgos dentro do próprio PC da URSS. As tragédias do mundo contemporâneo não haviam sido monopólio da direita. Após a queda do mundo comunista esses termos sofreram sensível queda de prestígio, até porque funcionavam muito bem enquanto um podia contrastar com o outro. Esquerda e direita sozinhas perdem força e significado. Já não são bússolas confiáveis. Palavras mestras são assim, ou tudo ou nada. Não há mais superioridade moral a ser defendida. Esquerda e direita ao perderem sua força contrastiva perderam sentido. Esquerda e direita se confundem em inúmeras instâncias, ofuscam suas antigas especificidades, pois se tornaram hibridas, cambiáveis e, portanto, com fronteiras pouco definidas. A banalização do discurso ético, tornado sem sentido, e o abandono de princípios filosóficos históricos de ambos os lados fez da oposição esquerda x direita uma quimera, uma postura política de mercado....

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