Educação de balcão?

Publicado dia 30-09-11 no jornal Gazeta do Sul


Até que ponto o mercado pode ser um critério confiável para o planejamento educacional? Estamos acostumados a ler na imprensa inúmeros articulistas que volta e meia opinam sobre os rankings de aproveitamento da educação brasileira, realizam comparações com índices de outros países e, evidentemente, apontam culpados, os educadores. Normalmente tais críticas encaminham como solução uma gestão empresarial para educação, aceitando de vez que a educação é, de fato, uma mercadoria destinada a um público consumidor. Se educação deve ser, portanto, um objeto de mercado, a primeira coisa que deveríamos defender é a remuneração dos professores, haja vista a importância de seu ofício. E nisso não poderia haver muita discórdia, é uma das mais importantes e vitais profissões para que o país consiga manter os níveis de crescimento e desenvolvimento econômico que vem experimentando nos últimos anos. Ora, nenhum crescimento econômico se mantém sem que seja acompanhado de alto nível educacional.

O que se discute é como conseguir esse alto nível. Uma das receitas comumente apresentada na imprensa é a chamada meritocracia. Os meritocrátas lançam mão de dados estatísticos de toda ordem para tentar provar que o problema docente é o que implica numa educação precarizada e que a remuneração deveria seguir metas produtivas, como uma fábrica ou empresa qualquer. O problema não é o mérito em si, mas sim a meritocracia. É óbvio que os professores devem ser avaliados, devem ter competências e devem demonstrá-las. É óbvio que há relação entre competências docentes e aproveitamento discente. E é óbvio, ainda, que se educação fosse uma prioridade essa discussão não estaria ocupando esse espaço. Sabemos que a formação docente no Brasil é precária, que os nossos mestres sofrem inúmeras barreiras e desestímulos para que possam acompanhar o estado da arte de suas áreas de conhecimento. Alarmantes as condições de trabalho de muitos deles. Os planos de carreira são desencorajadores contumazes para o aperfeiçoamento.

É preciso dizer ainda que a educação é uma das áreas mais vitimada por opiniões amadoras. Qualquer um opina sobre educação, mesmo sem nenhum conhecimento sobre a área, basta ler os jornais e revistas. Qualquer “achismo” ou posição pessoal vira tese. Aqui já temos uma falta de humildade e seriedade frente a uma área de conhecimento complexa e pouco afeita a opinadores diletantes. É necessário enfrentar com seriedade a educação brasileira. É preciso que a profissão seja exercida por profissionais competentes, comprometidos e bem remunerados, mas é preciso, da mesma forma, que a educação não seja pensada como uma mercadoria qualquer. Até porque, como concluiu uma pesquisa realizada pela consultoria McKinsey na Finlândia (país com a melhor educação do mundo) “os campeões de qualidade não premiam o mérito. O foco está no recrutamento. Para atrair os melhores, os salários são altos, e a carreira, promissora. As faculdades de Educação são das mais concorridas”.



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