Educação e falência curricular

Publicado no jornal Gazeta do Sul em 08-10-2011


O currículo escolar é uma peça política. O que se deve ensinar e o que se deve selecionar de um universo de conhecimentos permite entender o que queremos de nossa sociedade. Portanto, o currículo é algo muito importante e os pais deveriam estar atentos a ele. E é por isso que quero chamar a atenção, de início, para uma polêmica suscitada pela Revista Veja (26/09/2011) que tem causado indignação entre os acadêmicos da Área de Humanas. Em várias ocasiões o Semanário tem feito comentários extremamente negativos acerca da inserção da Filosofia e da Sociologia no currículo do ensino médio. A forma desrespeitosa e desinformada com que a Veja tem tratado do assunto e a maneira tecnicista e mercantilista com que vem abordando a educação e o currículo, centrada na formação puramente tecnológica é, para dizer pouco, reducionista e perigosa. Ninguém em sã consciência colocaria em dúvida a importância da formação tecnológica para o desenvolvimento do país. Não se trata disso. A questão de fundo diz respeito à concepção que o Semanário tem da educação, e que é compartilhada por muitos. Dizer, por exemplo, que disciplinas da Área de Humanas tiram espaço de disciplinas “importantes” para o país, é, no mínimo, prova de desinformação ou, na pior das hipóteses, pura falcatrua política.

Desinformação sobre currículo, no entendo, não é exclusividade da Veja. Ressalto aqui a forma desastrada com que muitas Delegacias e Secretarias de Educação têm tratado do currículo, nomeadamente das disciplinas humanistas. Em muitas escolas desse país assistimos o escândalo de professores de uma dada disciplina ministrar aulas sobre outra disciplina. A Área de Humanas é a mais afetada por esse descalabro e falta de respeito aos alunos e aos professores. Um professor de Filosofia ou Geografia jamais poderia assumir uma disciplina de História, o inverso é verdadeiro. Como ensinar o que não se sabe? O que isso significa? Primeiro, que se a Área de Humanas fosse levada a sério esses gestores saberiam da importância de uma formação humanista para que seus alunos se constituam como indivíduos mais cultos, responsáveis e posicionados. Segundo, que os pais não devem ter a menor ideia da formação dos docentes que trabalham com seus filhos.

Voltando ao Semanário, se a revista soubesse da realidade dos educandários desse país, saberia também que as disciplinas de Sociologia e Filosofia estão sendo inseridas ao custo de horas-aulas de outras disciplinas importantes da área de humanas, como a História. É urgente uma reforma curricular, em todas as áreas. O excesso de conteúdos, a ausência de reflexão, os amontoados de dados a serem “memorizados” e outras distorções que ocupam horas e horas das escolas revelam a pobreza curricular e explica o porquê não se pode contemplar responsavelmente um conjunto de disciplinas que possibilitem, aí sim, uma formação integral do aluno, que o prepare para escolher com competência seus próprios caminhos profissionais e, no futuro, a escola de seus filhos.

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