Multiculturalismo em “Xeque”


Publicado no jornal Gazeta do Sul, dia 19/11/2011 


Há exatamente um ano, Angela Merkel, a chanceler do governo alemão, declarou abertamente o que muitos já sabiam: o multiculturalismo alemão fracassou. E não se trata do multiculturalismo alemão apenas, podemos considerar um fenômeno europeu. Como ônus desse fracasso, temos a retomada de discursos racistas, xenófobos e étnico-comunitaristas que desafiam os planejadores sociais e, acima de tudo, as políticas de convivência nas sociedades pluriculturais, característica marcante dos países europeus. Mas afinal, quais são os limites do multiculturalismo, as razões de sua falência?
A política multicultural teve início após a II Guerra Mundial, quando as falidas potências europeias passaram a perder suas colônias afro-asiáticas e enfrentar as consequentes ondas migratórias. No caso dos EUA, a vitória contra o Nazismo fez do seu modelo racista de organização social uma ambiguidade que precisava ser enfrentada, pois, afinal de contas, os norte-americanos lutaram justamente contra um modelo de Estado baseado no mito da pureza racial. A solução foi o reconhecimento de que as nações não são homogêneas e sim construções pluriculturais, isso tanto na Europa quanto nos EUA. Noutras palavras, teve início a crise do modelo de Estado-nação moderno, baseado no princípio “um estado, uma nação”.
Se para as nações europeias o multiculturalismo foi a resposta admitida frente à derrota do modelo de Estado até então estruturado, nos EUA o multiculturalismo foi a condição de ascensão à potência mundial, cuja “missão” seria a universalização da democracia e da liberdade. Em ambos os casos o reconhecimento das diferenças foi fundamental para organizar novas bases de convívio social.
O multiculturalismo, portanto, é uma política de Estado, baseada nos princípios do reconhecimento de minorias, tolerância e manutenção da segurança social. Mas porque se anuncia hoje a falência desse modelo de gestão que tentou durante meio século fazer com que culturas diferentes pudessem conviver juntas sob os mesmos princípios de governamento?
O arranjo multicultural não abandonou, de fato, o espectro da pureza e da homogeneidade étnica. O que se fez foi ordenar culturas em mesmo território, mas mantendo as fronteiras étnicas bem definidas, impedindo uma dinâmica transcultural. A “tolerância” é a postura que garante esse convívio baseado na ideia de “juntos, mas separados”. Sinaliza ainda quem tolera quem, pois garante as diferenças de status entre os nativos (estabelecidos), e os forasteiros (diferentes ou outsiders).
Essa política de “deixar viver por aqui” implica também que a tolerância esteja muito próxima da indiferença. Os arranjos políticos do multiculturalismo não foram capazes de romper com a ideia conservadora de cultura, nem de superar a tolerância como valor privilegiado de sustentação do convívio social. Não é de se estranhar ao retorno das narrativas étnicas e diferencialistas. 

Nenhum comentário: