O que é o Estado-nação?

Publicado dia 05-11-2011 no jornal Gazeta do Sul

Esta foi a grande discussão que norteou os intelectuais do século XIX. E o esforço em respondê-la nos legou inúmeros textos importantíssimos para pensarmos, nos dias atuais, na crise das identidades nacionais e no reavivamento das narrativas localistas ou mesmo regionais.

As identidades nacionais são construções imaginárias que procuram articular uma série de elementos que dinamizam o sentimento de pertencimento a uma coletividade homogênea. Na realidade, são narrativas que conectam os indivíduos e moldam os sistemas de representação da nação, conferindo a esta uma “essência” própria em detrimento das culturas, línguas e mitos regionais/comunitários que, vale lembrar, acusavam a heterogeneidade nacional. Se o território é uma condição fundamental para o Estado-nação se constituir, não menos importante é a língua, a História, os mitos e os heróis fundadores, os símbolos e rituais, a mobilização afetiva e a invenção do povo/ “raça” (estamos falando do século XIX, quando esse conceito tinha algum sentido). Ninguém nasce com uma nacionalidade e sim se constitui como tal a partir dos sistemas de representação da nação. A unificação da língua nacional foi uma conquista importante nesse sentido, pois, a partir dela, foi possível compartilhar visões de mundo e códigos sociais. A História nacional nasce nesse contexto em que era necessária uma genealogia da nação, uma percepção comum de pertencimento a um passado compartilhado. Uma História romântica e épica que se institui como oficial, objeto de culto e reverência. Relacionados à produção dessa História oficial estão os mitos e heróis fundadores que são ritualisticamente cultuados e atualizados cotidianamente. A nação, portanto, mobiliza laços de afetividade entre os indivíduos e a própria nação, percebida então como pátria, que abarcava a fraternidade nacional. Trata-se do sentimento que transforma “muitos como um”. Morrer pela pátria era um valor perfeitamente normal nesse período. Os símbolos da pátria, como bandeiras, brasões e hinos, formam o relicário cívico, fundamental para a sedimentação dos valores nacionais, pois a eles cabia a função de reforçar os laços afetivos. Mas como a nação precisava ainda de um cimento constitutivo, que naturalizasse todos esses elementos, que permitisse inventar a ideia de um “sangue” nacional, foi lançado mão de uma narrativa poderosa, influente até nossos dias: a “raça” nacional. A raça, no séc. XIX, era considerada uma categoria “cientifica” e fora largamente usada para naturalizar a identidade nacional.

Não é mais possível pensar esse modelo clássico de Estado-nação no mundo globalizado, marcado pelas diásporas, movimentos migratórios e políticas multiculturais da diferença. É preciso considerar a dinâmica dos hibridismos culturais e as novas relações entre globalização e localismo para problematizar as identidades culturais no mundo contemporâneo.

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