Viva a República!

Publicado na Gazeta do Sul, dia 12-11-2011

No dia 15 de novembro de 1889 andavam uns poucos a alardear pelo centro de Porto Alegre que a monarquia havia caído. No Rio de Janeiro, uma placa de confeitaria era trocada: Confeitaria Imperial para Confeitaria da República. E foi isso. Como manda a tradição latino-americana um governo é derrubado com pouca participação da população, e uns poucos oligarcas assumem o comando de uma “nova” camarilha. A chamada República Velha nos deixou uma herança política significativa, permeada pelo militarismo, clientelismo, autoritarismo, violência policial e uma nefasta concepção eugenista que marginalizou negros e pardos, com consequências trágicas para a sociedade brasileira.

A República inicia com um Golpe Militar comandado pelo amigo pessoal de Dom Pedro II e republicano de última hora, Deodoro da Fonseca. Em 1891, dois anos após o golpe, Deodoro, fazendo jus à tradição autoritária que iniciara, dá um novo golpe e fecha o Congresso. Desastrado, renuncia a favor de seu vice e oposicionista Floriano Peixoto. Estava iniciada a triste participação do Exército na História brasileira.

A República se consolidou, de fato, com as Oligarquias regionais, sobretudo as de São Paulo e Minas Gerais e com os chamados coronéis, que, amparados pelo federalismo instituído pela Constituição de 1891, conseguiram amealhar o poder em diversas regiões do país. Uma tradição que nos persegue até hoje, basta olhar as alianças políticas regionais e os figurões de Brasília. O coronelismo instituiu a política do clientelismo de tal forma que as eleições desse período eram conhecidas pela corrupção, voto de cabresto, voto em aberto e todas as formas de abusos e violências que podemos imaginar. É preciso lembrar ainda que os coronéis, através de seus currais eleitorais, articularam com o poder central uma catastrófica política dos governadores, uma verdadeira escola da tradição clientelista da política nacional.

Menos lembrado e esquecido nos manuais escolares, está o movimento eugenista, que precisamos trazer a memória. Inspirado nas teses “evolucionistas” e nas elucubrações de eugenistas nacionais como Renato Kehl e Octávio Domingues, para citar apenas dois, foi criado, nesse período, um programa de branqueamento da nação que deveria eliminar a população negra num prazo de cem anos, a contar de 1911. Neste ano, numa conferência internacional, o eugenista Batista de Lacerda lançou a pedra fundamental da eugenia brasileira que, por sorte, funcionou tão bem quanto as provas do Enem.

Para encerrar, vale a pena lembrar que a ideia clássica da República, baseada na clara separação entre as esferas pública e privada, sempre foi um mal-entendido entre nós. Construímos uma República dos amigos, baseada no demérito e na reificação dos laços pessoais e familiares. Nosso patrimonialismo político continua assaltando a Res/Pública (coisa pública) e contribuindo para o adágio “Aos amigos tudo, aos inimigos a lei”.

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