Sociedade de Hiperconsumo

Publicado na Gazeta do Sul, dia 24-12-11


O efeito da sociedade de consumo, ou melhor, de hiperconsumo, é que ela cria uma lógica de vida social baseada na recusa das frustrações e na apologia da satisfação imediata dos desejos.  Entre o desejo e sua satisfação suprimimos a espera. Esta foi a grande conquista do Crédito: provocar, segundo o sociólogo Jean Chesneaux, um curto circuito no tempo. Se há poucas gerações atrás a conquista de um bem de consumo estava condicionada à espera de uma poupança, com o crédito aceleramos esse processo. Eis que vivemos numa sociedade da velocidade, da aceleração, porém sem rumo definido. Não é sem sentido que ouvimos tanto por aí que o importante é viver o presente, aproveitar ao máximo o “aqui e agora”. Esse agora, esse presente que superocupa nossa vida, é o tempo do efêmero. O grande desdobramento desse presenteísmo é a falência da política, das utopias e da ideia de projeto. O discurso político não se sustenta sem a ideia de futuro; por outro lado, ao afirmar o futuro, não tem ouvidos numa sociedade do efêmero.
As sociedades contemporâneas fizeram do consumismo uma lógica social poderosa, que invade todos os espaços da vida, da aquisição e descarte compulsivo de bens a aquisição e descarte das relações afetivas. É muito difícil a responsabilização pelo outro num tempo que nos impulsiona para o individualismo e as trocas ininterruptas de interesses. Uma pesquisa realizada na França constatou que o grande número de cãezinhos de raça abandonados tinha uma razão inusitada, mas não contraditória, com o mundo do consumismo. Os pais presenteavam as crianças com filhotes que, assim que perdiam a graça da infância e se tornavam adultos, eram abandonados pelas crianças, que também perdiam o interesse por eles, recusavam o cuidado e simplesmente os abandonavam, para, em seguida, serem presenteadas com outro filhote. Se responsabilizar pelo outro requer recusas, tem ônus e necessita de tempo. O atual “ficar”, comum entre os jovens, é um efeito colateral dessa dinâmica social que multiplica desejos ao mesmo tempo em que prega a satisfação imediata dos mesmos.
Por último, a sociedade do efêmero é também uma sociedade infantilizada, que nega a frustração e a espera, assim como as crianças. O hiperconsumo multiplica os desejos, as frustrações e as efemeridades. Não é sem sentido que vivemos uma sociedade medicalizada, que substituiu a tristeza pela depressão, que multiplicou as esquizofrenias sociais. Somos consumidores vorazes de medicamentos, acreditamos que podemos viver uma eternidade, desde que jovens. As farmácias se tornaram os paraísos de consumo de eternidade de uma sociedade hipocondríaca. Abominamos a velhice, símbolo maior de que o tempo está lá a correr. Inventamos até eufemismos para falar da velhice, como o falacioso e cínico “melhor idade”.  Somos “cyborgs”, cheios de próteses e recortes. Não há tempo para viver na duração do tempo.

A Falência do Pensamento



Publicado na Gazeta do Sul, dia 17-12-2011

O pensamento crítico no Brasil sempre foi um grande problema, seja porque trai uma postura que nos é cara, que consiste na nossa tendência a evitar o conflito e buscar a conciliação, seja porque numa cultura hierárquica e conservadora a crítica é sempre entendida como negativa. Negativa, pois desacomoda e desestabiliza estruturas sociais que, mesmo arcaicas, ainda fazem sentido. Machado de Assis, num conto magnífico, sugestivamente intitulado Teoria do Medalhão, já chamava a atenção para o funcionamento das ideias no país, ideias que jamais devem contrastar, criticar, inovar, contestar, etc. Não somos fãs do debate e da livre opinião, a não ser que não levem a lugar algum, que não mude nada e que a ninguém incomode. Ideias políticas? Somente se não forem firmes, baseadas em convicções. Nosso voto de confiança é sempre direcionado a pessoas e não a ideias, lamentavelmente. Discordar de alguém criticamente é o mesmo que apontar para a pessoa, um problema de grande magnitude, sobretudo porque não suportamos a crítica às ideias, pois sempre é um ataque pessoal. Machado aconselhava a utilização das “frases feitas, locuções convencionais, fórmulas consagradas pelos anos, incrustadas na memória individual e pública”, o que evitaria, evidentemente, um posicionamento ou convicção. Não somos liberais, republicanos e nem democráticos quando está em jogo o conflito, a concorrência, ou coisa que o valha. Preferimos acertar o preço do pãozinho a entrar numa regra de mercado. Combinamos o preço do combustível ao invés de travarmos uma concorrência mais saudável ao espírito público. Assim como nossa aversão à concorrência ou ao conflito, nossas ideias são produzidas para evitar a crítica. Criticar é injuriar. “Se criticas o que eu faço, o meu ofício, porque não assume o meu lugar e faz melhor?” Armadilha retórica que impede qualquer avanço das ideias e responsabilização social pelos nossos atos, afazeres e atitudes. A facilidade com que partidos políticos fazem conciliações aberrantes e a dificuldade que têm em estabelecer um debate público verdadeiro é notável.
Lidar com o registro crítico é algo significativamente eficaz à gestão, ao governamento, à ciência e à política. Como seguimos uma regra social baseada na cordialidade, nas relações pessoais - coisas de amigos -, a crítica é sempre vista com desconfiança, como algo da oposição. Num mundo ordenado pelos amigos, é muito difícil estabelecermos o distanciamento que rege o mundo republicano, moderno, dos indivíduos iguais perante a lei. Não conseguimos negar aos amigos o que negamos aos outros, àqueles diminutivos sociais, considerados iguais perante a lei e sujeitos a concorrências, a filas e ao mérito.
Desde os tempos de Machado de Assis a crítica é uma obscenidade entre nós. É melhor garantir os amigos por perto, a iniquidade das ideias, a imobilização do pensamento e deixar as coisas como estão... 

Artigos

Nas segundas será postado o artigo da coluna de sábado da Gazeta do Sul!

Corrupção a la Carte

Publicado no jornal Gazeta do Sul dia 10-12-11


Seis ministros em sete caíram por “suspeita” de corrupção no primeiro ano de Dilma Rousseff. Quando assistiremos um ministro cair por incompetência? Posso imaginar que os ministros que ainda administram suas pastas são meritórios e por isso permanecem nos cargos. Ou posso supor que os ministros ficarão em seus respectivos ministérios até que se descubra alguma falcatrua, o que me parece mais razoável. Interessante como isso não nos abala muito, não é motivo de indignação de fato, pelo menos ao ponto de nos tirar o sono ou a passividade. Parece que estamos ainda impregnados do velho mito de que o Brasil é um país que “anda”, em que pese seus políticos ou mesmo seus governos. Referencia, evidentemente, as potencialidades do país que, mesmo com a tara destrutiva que o acompanha, continua sendo “a terra em que se plantando tudo dá”. Mitos a parte, sabemos que essa visão, oriunda da época de Cabral, representa nossa passividade frente aos descalabros políticos e nossa ingenuidade frente às potencialidades da nação. Esta não é uma terra em que se plantando tudo dá; essa é uma terra em que se planta e colhe miséria há séculos, uma terra da falta e da carestia. O resto é mito, hipérboles reconfortantes para nossas culpas jamais admitidas. Esse é um país que insiste em não tratar a corrupção como crime - e crime hediondo, pois é homicida, infanticida e fratricida. Corruptos são bandidos que, pasmem, circulam glamourosamente pelas colunas sociais do país. São bandidos que assaltam a merenda escolar, verbas da saúde, da educação, etc., e nem por isso merecem a nossa efetiva indignação, reservada para os pequenos ladrões, pulhas e assaltantes ordinários. Há uma miopia nacional em relação à corrupção. Jaqueline Roriz, uma criminosa pega em flagrante embolsando pilhas de dinheiro, foi absolvida por seus 265 comparsas do Congresso sem o menor constrangimento. Hoje anda cercada de seguranças pagos com o erário público. O ex-ministro fanfarrão Carlos Lupi, depois de tanto palavrório vulgar, sai do governo sem nem mesmo macular o espaço político de seu partido. Uma premiação de lambuja. Orlando Silva, do PC do B, tentou constranger a Presidente com ameaças veladas, quando da eminência de cair. Uma piada!. O uso de cargos políticos para pacificar as possíveis oposições é abjeto. Temos Maluf, Collor, Sarney, Renan Calheiros, Wagner Rossi, Palocci, entre tantos outros criminosos na ativa, contrariando o ingênuo ditado popular de que “o crime não compensa”.
A corrupção é uma praga que corrói as estruturas sociais, destrói os padrões de conduta e espalha a injustiça, a miséria e a degradação dos valores. Das mais baixas funções públicas ao topo das hierarquias funcionais, a corrupção vai ocupando seus espaços. Da bendita e “ingênua” cola escolar, do malandro plágio acadêmico, dos pequenos desvios de verbas públicas, assim vamos crescendo e cultivando a nossa indecência civilizatória.



A (i)lógica dos Documentos

Publicado no Jornal Gazeta do Sul, dia 03-12-11

O Senhor Virgulino, conhecido como Lampião, cangaceiro, marido de Maria Bonita e herói popular do nordeste do início do século XX, gostava de dar a seguinte ordem a seus asseclas: “Procurem fulano e tirem os “documento” dele. Isso significa uma coisa assustadora, como pode-se depreender, mas considere-se ainda o termo utilizado para dizer “as partes” masculinas. Os documentos eram/são coisas preciosas no Brasil. Não deixa de ser interessante que num país que se pretende capitalista os documentos tenham mais valor do que o próprio capital. Não é outro o sentido de manifestações do tipo: “Fui assaltado mas, graças a Deus, o ladrão roubou ‘só’ o dinheiro e deixou ou documentos”. O que sugere essa superimportância dos documentos no Brasil?
Os documentos são papéis oficiais que pretendem não apenas identificar, mas qualificar os indivíduos. Num país hierárquico como o nosso, ter os documentos certos e o acesso às instituições e autarquias que os distribuem representa algo a mais. E esse algo a mais é a possibilidade de ter esses documentos sem precisar enfrentar os tramites ordinários para consegui-los. Daí, ou precisamos entrar em filas, geralmente desumanas, ou pagar para que alguém o faça, ou as “fure”, o que é mais comum. Os documentos dificultam o cotidiano, sobretudo daqueles que são considerados indivíduos iguais perante a lei, àqueles que não possuem o chamado “pistolão” ou mesmo um amigo no Estado. Essa forma de hierarquização revela um tipo de Estado autoritário, burocrático, que exige que o “cidadão” tenha que provar várias vezes que ele é ele mesmo. Este é um Estado que faz do cidadão um contraventor a priori.
Os trabalhadores nos anos 1970-80 andavam com suas carteiras azuis a mostra no bolso da camisa. Era o sinal suficiente para a polícia: mais um abnegado com documentos que provava que não era um pária social. Era o documento do trabalhador, que atestava sua entrada no mundo da cidadania, do trabalho formal, o que era uma coisa muito rara, portanto, digna de documento.
Os documentos se constituíram, historicamente, no paraíso dos políticos. Distribuir documentos era uma prerrogativa, sem dúvida, fundamental para montar um curral eleitoral. Eis aí a fórmula do Estado autoritário, burocrático e elitista: exigir documentos pra tudo e fazer de tudo para dificultar o acesso a eles. Quanto mais documentos um Estado exige, mais autoritário ele é. Com a abertura política, no final dos anos 1980, tivemos até Ministério da Desburocratização. Um monstrengo que tinha por objetivo destruir documentos!
Os documentos, na era neoliberal, perderam muito de seu valor tradicional, mas ainda convivemos com esses traços do arcaísmo nacional. No mundo das novas tecnologias, um IP e um cartão de crédito são mais valiosos que muitos documentos de Estado. Isso porque, para esses tipos de registros/documentos, estamos não apenas disponíveis, mas desejantes.

Traquinagens do Coronel

Publicado dia 26/11/2011 na Gazeta do Sul 



Lembrei do Maranhão essa semana. De fato, volta e meia lembro do Maranhão, e não por causa dos belíssimos lençóis - patrimônio natural protegido da sanha imobiliária, com exceção, claro, de uma pousada da família Sarney construída por lá - mas sim porque o Senhor José Sarney reapareceu nos semanários em função de mais um caso patético de corrupção. Sarney é o Maluf com elegância e garbo. Se Maluf é a corrupção elevada à comicidade, de tão caricatural, Sarney é o tipo trágico, taciturno, que se leva a sério. Sarney cuida de sua biografia com afinco, se preocupa com a memória que deixará para a posteridade. É por isso que conseguiu até mesmo tirar dos Anais do Congresso os ataques e adjetivos utilizados contra ele na tribuna. Ele é vaidoso, se acha um literato e conseguiu ser eleito para a Academia Brasileira de Letras, portanto, ele é imortal. Sarney encarna o tipo mais perfeito do coronel tradicional, cercado de pompa, cargos, impunidade, longevidade política, amigos, defensores e, evidentemente, uma turma de agregados aduladores.
Uma viagem ao Maranhão é uma triste aula de tradição política brasileira. Décadas de desmandos e sangria do erário público colocaram o Estado do norte entre os mais pobres do país. O desastre social e o descaso humano provocados no Maranhão são hiperbólicos e não teríamos espaço aqui para descrevê-los. Vamos nos ater a última traquinagem do coronel, não porque seja de grande monta econômica, mas sim pelo que representa em termos políticos, de baixeza moral.
Preocupado com sua imagem e com os resvalos morais sofridos nos últimos tempos, o Senador contratou a empresa Prole Consultoria em Marketing para avaliar sua situação perante a opinião pública e montar uma estratégia para “retocar” a sua biografia. Sarney, aconselhado pela Prole, lançou uma página na internet (josesarney.org) voltada a valorizar sua biografia política e intelectual, onde sua trajetória impecável de estadista e de brilhante escritor está detalhadamente esboçada. Traduzindo: Sarney, envolvido em casos de corrupção até o pescoço, contratou uma empresa para melhorar seu nome frente à opinião pública e, o que é mais espantoso, pagou os custos do serviço com dinheiro público. Foi daí que o pobre Maranhão me veio à memória! Trágico, um Estado ser lembrado em função de um político como o Coronel Sarney. Por consequência, lembrei que Sarney também tem poderes sobre a memória nacional, pois, durante uma exposição sobre História do Brasil no Senado, mandou tirar os documentos que tratavam do impeachment de Collor. Justificativa: “Isso não devia ter acontecido”, segundo ele.
Sarney representa uma geração de estadistas/corruptos que está em decadência. Os corruptos atuais são menos elegantes, não têm biografia a preservar, são pragmáticos e utilitaristas. Levaram a política à lógica da sociedade de hiperconsumo, cuja ética é entendida como um obstáculo.