A Falência do Pensamento



Publicado na Gazeta do Sul, dia 17-12-2011

O pensamento crítico no Brasil sempre foi um grande problema, seja porque trai uma postura que nos é cara, que consiste na nossa tendência a evitar o conflito e buscar a conciliação, seja porque numa cultura hierárquica e conservadora a crítica é sempre entendida como negativa. Negativa, pois desacomoda e desestabiliza estruturas sociais que, mesmo arcaicas, ainda fazem sentido. Machado de Assis, num conto magnífico, sugestivamente intitulado Teoria do Medalhão, já chamava a atenção para o funcionamento das ideias no país, ideias que jamais devem contrastar, criticar, inovar, contestar, etc. Não somos fãs do debate e da livre opinião, a não ser que não levem a lugar algum, que não mude nada e que a ninguém incomode. Ideias políticas? Somente se não forem firmes, baseadas em convicções. Nosso voto de confiança é sempre direcionado a pessoas e não a ideias, lamentavelmente. Discordar de alguém criticamente é o mesmo que apontar para a pessoa, um problema de grande magnitude, sobretudo porque não suportamos a crítica às ideias, pois sempre é um ataque pessoal. Machado aconselhava a utilização das “frases feitas, locuções convencionais, fórmulas consagradas pelos anos, incrustadas na memória individual e pública”, o que evitaria, evidentemente, um posicionamento ou convicção. Não somos liberais, republicanos e nem democráticos quando está em jogo o conflito, a concorrência, ou coisa que o valha. Preferimos acertar o preço do pãozinho a entrar numa regra de mercado. Combinamos o preço do combustível ao invés de travarmos uma concorrência mais saudável ao espírito público. Assim como nossa aversão à concorrência ou ao conflito, nossas ideias são produzidas para evitar a crítica. Criticar é injuriar. “Se criticas o que eu faço, o meu ofício, porque não assume o meu lugar e faz melhor?” Armadilha retórica que impede qualquer avanço das ideias e responsabilização social pelos nossos atos, afazeres e atitudes. A facilidade com que partidos políticos fazem conciliações aberrantes e a dificuldade que têm em estabelecer um debate público verdadeiro é notável.
Lidar com o registro crítico é algo significativamente eficaz à gestão, ao governamento, à ciência e à política. Como seguimos uma regra social baseada na cordialidade, nas relações pessoais - coisas de amigos -, a crítica é sempre vista com desconfiança, como algo da oposição. Num mundo ordenado pelos amigos, é muito difícil estabelecermos o distanciamento que rege o mundo republicano, moderno, dos indivíduos iguais perante a lei. Não conseguimos negar aos amigos o que negamos aos outros, àqueles diminutivos sociais, considerados iguais perante a lei e sujeitos a concorrências, a filas e ao mérito.
Desde os tempos de Machado de Assis a crítica é uma obscenidade entre nós. É melhor garantir os amigos por perto, a iniquidade das ideias, a imobilização do pensamento e deixar as coisas como estão... 

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