Traquinagens do Coronel

Publicado dia 26/11/2011 na Gazeta do Sul 



Lembrei do Maranhão essa semana. De fato, volta e meia lembro do Maranhão, e não por causa dos belíssimos lençóis - patrimônio natural protegido da sanha imobiliária, com exceção, claro, de uma pousada da família Sarney construída por lá - mas sim porque o Senhor José Sarney reapareceu nos semanários em função de mais um caso patético de corrupção. Sarney é o Maluf com elegância e garbo. Se Maluf é a corrupção elevada à comicidade, de tão caricatural, Sarney é o tipo trágico, taciturno, que se leva a sério. Sarney cuida de sua biografia com afinco, se preocupa com a memória que deixará para a posteridade. É por isso que conseguiu até mesmo tirar dos Anais do Congresso os ataques e adjetivos utilizados contra ele na tribuna. Ele é vaidoso, se acha um literato e conseguiu ser eleito para a Academia Brasileira de Letras, portanto, ele é imortal. Sarney encarna o tipo mais perfeito do coronel tradicional, cercado de pompa, cargos, impunidade, longevidade política, amigos, defensores e, evidentemente, uma turma de agregados aduladores.
Uma viagem ao Maranhão é uma triste aula de tradição política brasileira. Décadas de desmandos e sangria do erário público colocaram o Estado do norte entre os mais pobres do país. O desastre social e o descaso humano provocados no Maranhão são hiperbólicos e não teríamos espaço aqui para descrevê-los. Vamos nos ater a última traquinagem do coronel, não porque seja de grande monta econômica, mas sim pelo que representa em termos políticos, de baixeza moral.
Preocupado com sua imagem e com os resvalos morais sofridos nos últimos tempos, o Senador contratou a empresa Prole Consultoria em Marketing para avaliar sua situação perante a opinião pública e montar uma estratégia para “retocar” a sua biografia. Sarney, aconselhado pela Prole, lançou uma página na internet (josesarney.org) voltada a valorizar sua biografia política e intelectual, onde sua trajetória impecável de estadista e de brilhante escritor está detalhadamente esboçada. Traduzindo: Sarney, envolvido em casos de corrupção até o pescoço, contratou uma empresa para melhorar seu nome frente à opinião pública e, o que é mais espantoso, pagou os custos do serviço com dinheiro público. Foi daí que o pobre Maranhão me veio à memória! Trágico, um Estado ser lembrado em função de um político como o Coronel Sarney. Por consequência, lembrei que Sarney também tem poderes sobre a memória nacional, pois, durante uma exposição sobre História do Brasil no Senado, mandou tirar os documentos que tratavam do impeachment de Collor. Justificativa: “Isso não devia ter acontecido”, segundo ele.
Sarney representa uma geração de estadistas/corruptos que está em decadência. Os corruptos atuais são menos elegantes, não têm biografia a preservar, são pragmáticos e utilitaristas. Levaram a política à lógica da sociedade de hiperconsumo, cuja ética é entendida como um obstáculo. 

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