A era da televisão

Publicado em 22 de dezembro de 2012 no jornal Gazeta do Sul


As novas tecnologias de informação têm provocado diversas transformações nas sociedades contemporâneas. Focamos, nesse texto, a era da televisão, primeiro grande momento das tecnologias de vídeo. Desde a era da televisão passamos a nos relacionar com mediações até então inéditas na História. A televisão promoveu o que alguns analistas chamam de mente ou consciência coletiva, a partir da qual passamos a compartilhar subjetividades e visões de mundo em comum. Mais do que isso, as tecnologias de vídeo abriram um novo campo de exploração dos sentidos, desejos e percepções. O avanço do marketing, a partir do evento dessas novas tecnologias, é evidente, o que potencializou significativamente a sociedade de consumo e a construção de uma lógica social calcada majoritariamente na lógica do mercado. Foi em função desse fenômeno que uma área da psicologia, chamada “tecnopsicologia”, passou a se dedicar a entender os efeitos dessas tecnologias no comportamento dos indivíduos. O teórico Derrick de Kerckchov nos apresenta as experiências de Steven Klien, diretor do Laboratório de Análise de Mídia da Simon Fraser University, em Vancouver, que desenvolveu um aparelho capaz de medir as reações fisiológicas das pessoas frente à televisão. O sujeito é ligado a um computador com dispositivos acoplados em vários pontos do corpo, capazes de mensurar várias reações fisiológicas. Ele é colocado frente à televisão e através de um joystick deve apontar se aprova ou não as imagens que vão sendo passadas em pequenos intervalos. Resultado: muito antes de conseguir emitir uma opinião sobre o que assistia o corpo inteiro do sujeito já havia apresentados reações, todas registradas pelo computador. A conclusão da pesquisa é evidente: a TV atinge primeiro o corpo e o sistema nervoso para depois atingir a consciência. Isso significa, de acordo com o autor, que quando estamos na frente da TV “as nossas defesas estão em baixa e, com isso, ficamos vulneráveis e suscetíveis à sedução multissensorial”. A TV, nesse sentido, inibe nossa capacidade crítica, e ao fazer isso acaba por apostar mais na repetição do que na análise.

As tecnologias de vídeo implicaram numa nova forma de percepção do mundo. Hoje as coisas não se apresentam mais como fotografias, estáticas, e sim em movimento, cinemáticas. Essa nova forma de apresentação do mundo nos faz conhecer as coisas por lances de olhar, por olhadelas, e não mais de forma sequencial, linear, como na leitura, por exemplo. A lentidão da leitura, a necessidade de imaginar, construir cenários e imagens, são substituídas pela aceleração da informação e imagens prontas. Se a leitura, como no jornal, nos permite retornar a uma parte do texto e retomar o raciocínio, a televisão, em função da irreversibilidade e velocidade, nos impede esse processo. Na era da internet, contudo, outras questões precisam ser consideradas, mas numa outra ocasião.

Educação para o nosso tempo?


Publicada na Gazeta do Sul em 15 de dezembro de 2012


A Educação está no centro dos debates sobre o que se espera do Brasil para os próximos anos. É comumente apontado que a educação está em crise, o que não é novidade, e que há um descompasso entre o que se entende por educação e o papel da escola no mundo contemporâneo. Um mundo veloz, submetido a um mercado cada vez mais competitivo, atomizador, individualista e meritocrático. Trata-se da “vitória” do discurso chamado de neoliberal, cuja ênfase se dá justamente na (hiper)responsabilização dos indivíduos, agora sujeitos a um mundo da desregulamentação do trabalho, da instabilidade e do risco. Um mundo que separa radicalmente o poder da política, que desobstrui as estradas para o capital, que intimida o poder do Estado, que institui uma moral “à la carte” (destituída de significados duradouros) e, como é sabido, faz do mercado a lógica da própria vida social.

Frente a esse quadro, a educação é pensada como desencaixada, anacrônica e perdida no tempo. Quando se afirma que a escola está fora do nosso tempo, que os docentes não visam a formação dos alunos para um mercado competitivo, para o mundo do trabalho, etc, etc, estamos afirmando que precisamos adequar a educação a essa sociedade que temos. A questão que se coloca é a seguinte: a educação deve estar sujeitada ao contexto em que estamos vivendo e dar sua contribuição para as coisas funcionarem a contento e, assim, ajustar os indivíduos a esse mundo, ou deve exercer justamente o papel questionador dos valores que nos norteiam hoje? Não se pode colocar em dúvida que, para além dessa problemática, a educação passa por um processo de “crise”. O que se problematiza é um certo discurso que aponta a crise da educação em função de seu desajuste em relação a contemporaneidade. Temos que aceitar que o que se entendia como infância mudou, e muito. Se no passado a escola tinha por função educar uma infância ingênua, que tinha nos adultos a sua referência e dependência, hoje temos uma infância caracterizada pela independência, que nos surpreende o tempo todo, erotizada, insegura e que tenta se adaptar a um mundo de incertezas e inseguranças. Contudo, e isso é importante, ajustar a infância a um mundo considerado inevitável é nos render a uma lógica que nos assujeita, que nos diz o que fazer e nos governa. A educação que tem por objetivo a adequação, visa à padronização dos comportamentos, sentimentos e falas. Seguindo esse caminho, a educação tende a preparar os alunos para serem gestores de si, pois hoje não basta mais prepará-los para o mundo do trabalho, mas sim para inventar o trabalho e suas exigências, sempre em mudanças. Porém, a educação não deve ser uma instituição passiva e adequadora, precisa ser, sim, uma instituição propositiva, que invista não só em competências, mas que seja reflexiva e capaz de formar também sujeitos aptos a pensar sobre o mundo que vivemos e a história que estamos construindo. 

Empregados domésticos e tradição escravista

Publicado na Gazteda do Sul em 01 de dezembro de 2012


Desde 2010 tramita na Câmara dos Deputados a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 478, que pretende eliminar as diferenças de direitos trabalhistas entre empregados domésticos e os demais trabalhadores urbanos e rurais. Em 21 de novembro a PEC fora aprovada em primeiro turno pelo plenário da Câmara por 359 votos favoráveis contra 2 desfavoráveis, dando início a uma, ainda, demorada caminhada para tentar eliminar os resquícios de uma tradição escravocrata que marca as relações entre empregadores e empregados domésticos no Brasil. Mesmo depois da sanção presidencial à PEC, vários direitos trabalhistas, como FGTS e seguro desemprego, dependerão de legislação específica.

Os quase quatro séculos de escravidão deixaram um rastro histórico avassalador nas relações de trabalho no país. Onde melhor essa memória histórica se faz presente, considerando o espaço urbano, é no trabalho doméstico. O Brasil, desde a República, em 1889, procurou a modernização sem, contudo, enfrentar esse sistema abjeto de exploração do trabalho, por muito tempo comparável ao servil. Somente a partir da Constituição de 1988 alguma atenção jurídica começou a ser dada a essa relação profundamente assimétrica entre empregadores e empregados domésticos. Vinte e sete anos se passaram desde a promulgação da chamada Constituição Cidadã e hoje, ainda, não conseguimos admitir que o trabalho doméstico deve ser regido pelo mesmo sistema de direitos e garantias sociais como qualquer relação formal de trabalho. Ter parte dos direitos trabalhistas negado significa, da mesma forma, ter parte da cidadania amputada. Trata-se de subcidadania, de uma cidadania não plena, o que implica em vulnerabilidade jurídico-social.

A memória da senzala parece buscar atualização nos “quartos de empregada”, na política do favor, na pessoalização e informalidade das relações de trabalho e, vale dizer, no elevado grau de hierarquia social. O trabalho, sobretudo o braçal, fora sempre uma forma de marcação social, atividade pouco valorizada e claramente estigmatizante. A tradição escravista nos legou uma ética do desvalor do trabalho. Conforme o dito popular, “quem trabalha muito não tem tempo de ganhar dinheiro”. Vejam-se, também, as dificuldades que enfrentamos na instituição de ensino técnico no Brasil. Valorizamos a formação universitária e as atividades bacharelescas.

O caso do trabalho doméstico é paradigmático das nossas dificuldades de horizontalização social. Revela nossa precária percepção da democracia e nossa insistente tradição de ter pessoas a nossa disposição. O tão propalado discurso liberal que norteia a ideia de crescimento econômico contorna hipocritamente a tradição conservadora quando se trata de manutenção de privilégios. A insistência do trabalho doméstico baseado na lógica familial é a prova de nosso cinismo democrático.

Cultura Brasileira

Publicado no jornal Gazeta do Sul em 08 de dezembro de 2012


O historiador Sérgio Buarque de Holanda, um dos mais importantes intérpretes da cultura brasileira, nos chama a atenção para o dilema entre tradição e modernidade na constituição de nosso país. Somos uma sociedade que se constituiu a partir da aproximação entre o Estado e a lógica familiar, ao contrário da lógica moderna em que o Estado é, de fato, o oposto da família, ou seja, ele não é a extensão da família e sim a negação desta. Isso significa que, enquanto a família se constrói sobre códigos morais hierárquicos e de intimidade pessoal, o Estado deve ser o espaço da ordem pública, baseada em relações formais e igualitárias. Nosso dilema é que insistimos em transformar o espaço público na extensão de nossas relações familiares. Disso resulta, por exemplo, um Estado em que o nepotismo não é visto como uma afronta. De fato, o mérito ou a competência são sempre, ou quase sempre, subtraídos pela lógica das amizades e dos compadrios. Chama-se a um cargo público importante alguém que pertence a relações pessoais de quem os nomeia. Empregar um amigo, amigo de amigo, um conhecido, parente próximo ou distante, parentes de conhecidos, entre outros, respeita uma dinâmica política em que o Estado (espaço público) se constitui como desdobramento de nossos interesses particulares (privados). Os últimos escândalos políticos do país não deixam dúvida sobre isso.

Essa lógica social constrói/corrói nosso cotidiano. Quando nos debruçamos sobre o espaço escolar, por exemplo, temos um exemplo claro de como essas relações são reproduzidas. Repare-se na terminologia “tia” que substitui entre nós a professora, sobretudo na educação infantil. Num espaço que deveria prezar pela igualdade, pelos princípios universais que formalizam as regras e as condutas sociais, estimulamos, ao contrário, a preservação dos valores, ou designações, familiares. Perde-se, desde a primeira educação escolar, a possibilidade de valorizar a formalização das relações sociais e, aí sim, propagar os valores da igualdade. Ao invés disso, reproduzimos, ou melhor, aprendemos, a não reconhecer o espaço público. Disso resulta, também, e por caminho similar, que os alunos, desde pequenos, quando chegam à escola percebem esse patrimônio de forma ambígua. Ao sentarem-se nas classes, fazem delas o que querem, a começar pelos rabiscos e, no extremo, a destruição. Como se constituem em bens públicos, não merecem o respeito dado aos bens privados, os da casa. Desvalorizar o patrimônio público é o sintoma de nosso desprezo pelo espaço da igualdade. Jamais agiríamos em casa como agimos na rua. A rua é esse espaço em que não existimos como pessoa, com sobrenome, cargo e deferência familiar, e sim como indivíduos iguais. É o espaço onde volta e meia nos impomos, como por exemplo, a partir do antipático “carteiraço”, ou a partir da famigerada expressão, estudada pelo antropólogo Roberto DaMatta: “você sabe com quem está falando?”.  

Dia da Consciência Negra: um debate necessário

Publicado em 24-11-12 na Gazeta do Sul


Desde 2003 se comemora no Brasil o dia 20 de novembro como sendo o dia da Consciência Negra. Em 2011 a Presidente Dilma Rousseff sancionou a lei que oficializou a data no calendário nacional, reconhecendo como marco desta a morte de Zumbi dos Palmares, ocorrida no ano de 1695. Zumbi é considerado, a partir de então, um mártir que lutou contra a escravidão no país, símbolo de resistência e liberdade. Em que pese às várias versões sobre a História do Quilombo dos Palmares e, inclusive, sobre a biografia de Zumbi, considerado o líder maior do quilombo, o certo é que a data do 20 de novembro nos interpela a pensar sobre as relações “raciais” no país. Nos incita a refletir sobre o racismo, o preconceito e, sobretudo, sobre o impacto dessas mazelas na constituição da sociedade brasileira. Para tanto, é preciso estar atento aos dados sobre acesso à educação, à saúde e ao trabalho, a sujeição à violência policial e a vulnerabilidade social.

De acordo com os dados do último censo, a população brasileira está classificada em 47,73% de brancos, 7,61% de pretos e 43,13% de pardos. Nos últimos anos, por força do Movimento Negro, adota-se a prática de somar pardos e pretos, considerados todos na nomenclatura “negros”. Assim sendo, hoje temos uma população de 50,74% de negros no país, portanto, maioritária. Não é o caso, nesse espaço, de concordar ou não com as estratégias do Movimento Negro ao somar pretos e pardos para ratificar essa afirmativa e, vale dizer, eliminar a mestiçagem. Vamos nos ater em algumas informações atualizadas sobre as desigualdades sociais e suas “condicionantes raciais”. Independentemente de estarmos ou não em acordo com as políticas reparadoras adotadas nos últimos anos, o que não podemos deixar de reconhecer é que, de fato, temos gritantes diferenças sociais que podem ser explicadas pelo processo histórico de exclusão dos não brancos. Os dados do IBGE e IPEA não deixam margens para dúvida.

É evidente que a pobreza tem cor no Brasil, que há um histórico de abandono e exclusão sofrido majoritariamente por não brancos e que a iniciativa individual de superação da pobreza não só é insuficiente como não passa de um mito mal-intencionado.

A Pesquisa das Características Étnico-raciais da População (PCERP), realizada em 2008, aponta que o “racismo e o preconceito seguem exercendo influência importante na vida das pessoas, em todos os campos das relações sociais” (IPEA). A taxa de homicídios entre jovens brasileiros negros é de 72,4 por 100 mil, enquanto que para jovens brancos é de 30,04 para cada 100 mil. Dos jovens entre 18 e 24 anos que frequentam uma universidade, 8,35% são negros, enquanto 21,60% são brancos. No início da década de 2000, 39,6% dos pretos/pardos tinham acesso a esgoto/fossa contra 62,7% dos brancos. Em 2001 a taxa de analfabetismo entre pretos/pardos era de 18% e entre os brancos era de 8%. É preciso pensar sobre isso no país.

O 15 de novembro e a república oligárquica

Publicado na Gazeta do Sul no dia 17 de novembro de 2012




Desde 1870 a Monarquia brasileira enfrentava uma série de crises que anunciava sua decadência. Dentre os grandes movimentos que sacudiram o cenário político daquele contexto, é preciso destacar a crise do sistema escravista e o esgotamento econômico das regiões cafeeiras do Vale do Paraíba. A estrutura econômica que sustentava a monarquia estava assentada no latifúndio monocultor, exportador e escravista, em mãos de uma elite conservadora e refratária às mudanças do capitalismo que, vale dizer, urgia em colocar fim ao sistema escravocrata para abrir novos mercados e disciplinar uma mão de obra suficientemente domesticada e treinada para a industrialização. Essas elites, incapazes, acabaram por entrar em decadência e, com ela, a própria estrutura política que mantinha os restos do império. Não é sem sentido que a monarquia tenha caído em 1889, no ano seguinte a abolição da escravatura. O republicanismo vacilante que norteou o movimento que levou ao 15 de novembro de 1889 ficou evidente já no conturbado período governado pelos dois militares: Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. Deodoro até mesmo um golpe desfechou em 1891, tentando concentrar o poder nas mãos do executivo. Estava claro que a República começa aos tropeços. Com a saída dos militares e a ascensão dos civis, na realidade cafeicultores ligados à lavoura paulista, foi construído um dos sistemas mais nefastos da história política brasileira: a chamada política dos governadores. Tratava-se de arranjos e acordos entre as oligarquias regionais e o governo central, o que garantia a eleição dos políticos que gravitavam em torno dos Partidos Republicanos estaduais e sustentavam, em nível federal, as decisões do governo. A barganha política do clientelismo construiu um sistema eleitoral corrupto, baseado no coronelismo e no voto de cabresto. Fortaleceu oligarquias estaduais e concentrou a economia nas mãos dos cafeicultores. São Paulo e Minas Gerais, os maiores produtores de café, a partir de um acordo que ficou conhecido como política do Café com Leite (Minas era produtora de leite também), se alternavam na Presidência, assegurando o poder politico que dinamizava a economia cafeeira. Era um sistema monocultor que, em breve, com a crise da bolsa de Nova York, em 1929, mostraria suas fragilidades.

O sistema monocultor estruturado na lavoura cafeeira impediu qualquer política contundente de industrialização e diversificação econômica. Insistiu num modelo que já era conhecidamente cíclico, e, em detrimento da economia do país, levou ao atraso, à miséria e a corrupção. Do ponto de vista político, a República Velha perverteu o pensamento liberal, oligarquizou o cenário político nacional, instituiu o clientelismo, que ainda hoje é dominante, e deixou um legado de abandono e exclusão de grande parte da população da época, no caso, os pobres e os recém-saídos da escravidão, que acabaram substituindo a senzala pela favela.

 

Sociedade, (Hiper)informação e tempo

Publicado na Gazeta do Sul dia 10-11-12


O filósofo Paul Virílio, ao se referir à sociedade contemporânea, regida pela lógica da velocidade e da (hiper)informação, afirma que “cada avanço dos transportes não é mais do que um progresso e emancipação do assento”. A revolução das tecnologias de informação implica uma nova forma de relacionamento do homem com a informação e o conhecimento, com o tempo/espaço e com a memória. Movemo-nos, sem sair do lugar, num mundo sobrecarregado de informações, informações que nos chegam numa velocidade até então jamais experimentada na História. Contudo, é bom lembrar que por vezes confundimos informação com conhecimento, e julgamos que se estivermos abastecidos com um volume significativo de informações estamos acessando ou produzindo conhecimento. Ledo engano. A aceleração das formas de aquisição de informações se estabelece na lógica da efemeridade, do ruído (excesso de informações) e do esquecimento. A questão que se coloca hoje é como pensar o conhecimento neste mundo virtualizado e hiper-carregado de informações? A diferença do processo de aquisição de informação para a produção de conhecimento, como até então entendemos, passa por uma nova relação com o tempo/espaço. O conhecimento pressupõe desaceleração do tempo. A leitura, no mundo contemporâneo, enfrenta um novo desafio: ombrear com a cada vez mais vertiginosa oferta de informações. O tempo que demanda a leitura de um livro, por exemplo, torna-se antieconômico frente ao acesso à informação multimídia. O que de fato retemos das informações que acessamos ou que chegam a nós a todo o momento? Em que medida essas informações nos levam à reflexão, à análise e à ponderação? Quais os critérios possíveis de filtragem dessas informações? É possível confiar nessas ofertas instantâneas que recebemos? Essa nova dinâmica em relação ao tempo nos conduziu a uma nova visão do mundo, da “realidade” e da espacialidade. Virílio nos coloca que “conhecer nosso mundo é ver que nossa sociedade não é mais vivida de dentro, mas é sobrevoada como se fosse um espetáculo”. De fato, vivemos uma era imagológica, das imagens, dos ícones, e não mais um tempo calcado no texto, na escrita imagética e linear.

Para o teórico Derrick de Kerckhove, “os computadores criaram uma nova forma de cognição intermédia, uma ponte de interação continuada, um corpus collosum entre o mundo exterior e os nossos eus interiores”. Ouvimos e vemos com o corpo como um todo, nossa percepção está no nível da pele. Assim, otimizamos nossa capacidade sensorial para a interação com o universo da informação e abrimos novas possibilidades em relação ao conhecimento. Para Kerckhove, essas novas tecnologias “acrescentam o (sic) tacto à visão e audição e está mais próxima de revestir totalmente o sistema nervoso humano do que alguma tecnologia até hoje o fez”. Talvez estejamos frente a uma nova forma de entendimento da cognição e do conhecimento.

 

História e tempo presente

Publicado na Gazeta do Sul dia 03/11/2012


Quando falamos em História geralmente temos o entendimento de que se trata de uma ciência inteiramente voltada ao passado, dedicada a “resgatar” acontecimentos, memórias e grandes feitos. Esse é, de fato, o entendimento tradicional dessa ciência que por quase dois séculos está presente nos currículos escolar e acadêmico. Mas a História, pelo menos no seu entendimento contemporâneo, não é uma ciência apenas voltada ao “passado”. Na realidade, ela só faz sentido se considerarmos o tempo presente de sua escrita, ou seja, o tempo do historiador, de suas escolhas, “subjetividades” e metodologias. Isso implica em considerar que, ao contrário do que poderíamos imaginar, não é o tempo presente que é o resultado acabado do passado, como se aquele fosse uma consequência de causas anteriores, mas, sobretudo, é o passado que é também uma construção do presente. É a partir de uma problematização feita pelo historiador, localizado no tempo e no espaço, que se coloca em movimento toda uma dinâmica de análise e construção do passado. Sem considerarmos o tempo/contexto do historiador não podemos entender porque determinada visão do passado é construída. Assim sendo, a História só se justifica por falar, na “verdade”, do tempo presente. Daí sua importância social, sua possibilidade estratégica para posicionar uma crítica ao nosso tempo, às narrativas que construímos sobre nossa cultura. É por isso que a História deve ser a ciência da desconstrução, que opera por desconfianças, que duvida sempre. É isso que possibilidade que a História seja uma arma política mais afeita a nos interpelar pela mudança do que nos apaziguar. Desconfiar, por exemplo, das narrativas comunitaristas que mais nos entorpecem do que nos dinamizam para o novo, para o desconforto das mudanças. Ver de outras maneiras o que temos por naturalizado, inconteste, esse é o desafio de uma narrativa histórica. É no campo das intervenções que o pensamento histórico pode nos mobilizar, nos instigar a pensar sobre como nos tornamos o que somos, nossas práticas sociais, comportamentos, maneiras de ver e construir o mundo.

É pela interpelação de seu próprio tempo que o historiador pode problematizar questões candentes, nucleares de seu próprio contexto. É uma construção do passado que passa sempre pela problematização do presente. Colocar aspas em grandes afirmações, andar pelo limiar de nosso próprio tempo, forçar à diferença, o novo, antídoto contra todo o discurso conservador, anedótico, tão comum às narrativas dedicadas a exaltar, a fazer odes, a construir heróis e tempos áureos. A História deve sempre se posicionar contra essas zonas de conforto da tradição, da mesmice, do enfadonho, de um passado idealizado para nos consolar da pobreza de nosso presente. Ao contrário disso tudo, a História deve ser o conhecimento que desconstrói, que afeta, que nos instabiliza e nos perturba. Numa palavra, nos transforma.

Sociedade, Consumo e Lixo

Publicado na Gazeta do Sul, dia 27-10-2012


Vivemos numa sociedade infantilizada, encantada com sua capacidade de desejar e satisfazer seus desejos imediatamente, ou seja, uma sociedade que, impulsionada pelo crédito, não precisa esperar, que renova incessantemente seus desejos. Não é sem sentido que reificamos a figura dos catadores no mundo atual, são eles que retiram de nossa frente a montanha dos nossos desejos de ontem para possibilitar novas demandas, mais atualizadas e, sempre, urgentes. A expansão do crédito é, para usar a metáfora de Zigmunt Bauman, a expansão do lixo e, com ele, o problema do descarte. Se acumulamos alguma coisa na sociedade de hiperconsumo, como a nossa, é o lixo, o descarte diário. Não suportaríamos conviver com esses resíduos de nosso consumo. É preciso organizar a coleta, a remoção e a invisibilidade desse ônus.

A sociedade de consumo é uma sociedade obcecada pelo prazer, pelo aqui e agora. Não se percebe, com esse entorpecimento, que acabamos por tornar rarefeita toda uma série de valores e vínculos sociais. Assim, acabamos por descartar, obsequiosamente, os próprios valores e vínculos sociais. Viver com valores é assumir algumas posturas duráveis, o suficiente, que seja, para dar sentido à vida social. Ora, na sociedade do consumo, do imediato e do hedonismo, pouca coisa sobrevive à urgência do tempo, à aceleração devastadora dos processos sociais. O trabalho, que outrora era para a vida toda, hoje é uma conquista diária. As relações afetivas, que outrora reclamavam a responsabilização pelo outro, hoje são substituídas pela frugalidade, são intensas e rápidas, sem comprometimentos. O conhecimento e a educação, que foram importantíssimos param nos colocar no mundo do trabalho, hoje são considerados como mercadorias norteadas pela mesma lógica dos prazos de validade. A educação, se não for permanente, é sempre insuficiente. Os indivíduos são, também, as mercadorias do mundo do conhecimento. É imprescindível estar à venda, ser proativo, com autoestima calibrada e, sobretudo, ser flexível. Como nos alerta Bauman, a flexibilidade é a palavra de ordem no mundo contemporâneo. O que significa, de fato? Significa que não podemos manter condutas, posturas, ideias e valores consolidados. Que temos que saber dançar conforme a música, ter a capacidade, não raro, da frouxidão do caráter. É preciso dizer o que não se pensa, cultivar a hipocrisia como estratégia, aparentar o que o olhar do outro deseja de nós. O mundo do trabalho na sociedade de hiperconsumo é rarefeito, é instável e, vale notar, imprevisível. O que permite que essas forças do imediatismo conduzam a dinâmica social é o crédito. É o crédito que educou a sociedade de consumo a satisfazer seus desejos imediatamente. O desejo e sua satisfação antes da responsabilidade. Um mundo de devedores é o que se traduz como lucro no mundo neoliberal. Ser um devedor é estar sintonizado num mundo cada vez mais atualizado.

 

Sociedade Educativa e Homo Discenti

Publicado na Coluna "História & Cotidiano da Gazeta do Sul, dia 21-10-12



Segundo alguns estudiosos da História da Educação, até meados do século XX, nas franjas do que se chama hoje de neoliberalismo, a educação, ou a instrução pública, era uma função do Estado. O Estado Educador tomava pra si a responsabilidade de educar a sociedade, oferecer e até obrigar que os indivíduos se educassem, adquirissem, a partir de uma formação geral, os conhecimentos necessários para se habilitar a viver numa economia competitiva. Essa era a condição da equidade social para uma competitividade mais justa, pelo menos isso é o que rezava a cartilha do Estado Educador. O que se observa a partir da segunda metade do século XX é uma transformação profunda das relações entre educação e sociedade. Trata-se da passagem da obrigação de Estado para a responsabilização individual. É o contexto do surgimento do homo discentis (homem aprendiz permanente), da sociedade da formação continuada, em que o indivíduo precisa estar sempre em processo de aprendizagem. A educação, no mundo neoliberal, é uma educação vitalícia, que precisa durar a vida inteira, e isso porque temos hoje uma forma de organização social inteiramente permeada pela dinâmica do mercado. O desdobramento disso é que o indivíduo deve se constituir com a mesma forma característica do mercado, ou seja, dinâmico, inovador, aberto a mudanças incessantes e a instabilidades. No relatório da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI (1996), apresentado à UNESCO, consta, segundo o pesquisador Carlos Ernesto Nogueira-Ramírez, que na sociedade do século XXI o ensino não pode mais ser considerado um todo definitivo, recebido antes da fase adulta da pessoa para depois, sim, ela ingressar no mercado de trabalho. No século XXI, o estudo deve ser flexível e durar toda a vida, pois na era neoliberal o recurso econômico básico é o conhecimento. Eis que estamos frente à sociedade educativa, uma sociedade inteiramente pedagogizada, em que a educação não deve depender exclusivamente das escolas, mas se instituir em todo tecido social, como nas empresas, nas entidades e nas organizações governamentais ou não. Trata-se de uma sociedade da aprendizagem continuada, do indivíduo aprendiz permanente. As implicações dessa transformação da sociedade do Estado Educador para uma Sociedade Educativa é a forma como ela (hiper)responsabiliza o indivíduo por sua instrução vitalícia. O indivíduo é transformado num empreendedor de si, responsável por sua educação de acordo com as demandas de um mercado cada vez mais ágil e exigente. A educação passa a ser uma forma de gestão da vida profissional, uma forma de regulação da vida, condição de permanência no jogo do mercado. A educação, como outras mercadorias, tem prazo de validade e precisa ser constantemente renovada, transformada, especializada e sempre pronta a ser novamente reinventada. O indivíduo de nosso tempo pode, a qualquer momento, ficar obsoleto, descartado como redundante.

HIstória para não pensar

Publicado na Gazeta do Sul, dia 14 de outubro de 2012


Quando paramos um pouco para pensar sobre a História que era ensinada nas escolas de nosso país, começamos a entender porque tínhamos uma postura tão pouco reflexiva sobre os acontecimentos que formavam nossa sociedade. Diria que não faz muito tempo era ensinada uma História conservadora e profundamente oficialesca, baseada no conhecimento de datas, personagens, grandes fatos e feitos e, claro, heróis, muitos heróis. Parecia que estávamos num país abarrotado de gente ilustre, de modelos de comportamento, homens moralmente superiores (sim, homens, a história era masculina), enfim, “heróis”, no sentido em que estes tipos deveriam servir de inspiração para uma educação moralizante e personalista, pouco reflexiva e, sobretudo, nada criativa. Efetivamente era uma História vazia de sentido, sem graça e pouco convidativa, o que, vale notar, acabava por contribuir para a formação de “cidadãos” desinformados, acríticos e de memória precarizada. Aprendemos a não aprender sobre a História de nosso país. Aprendemos que isso não tem importância, que podemos viver sem conhecimento histórico, que o presente nos basta por si. Que podemos viver sem saber como nos tornamos o que somos. Que podemos viver num território que não conhecemos como foi constituído historicamente e, ainda, que podemos viver sem refletir sobre os preconceitos e desigualdades sociais. É assim que o preconceito, o racismo, as estereotipias, a despolitização, o extremado individualismo passavam ilesos pelo currículo escolar. É assim que se constituía uma zona morta na formação educacional. Naquele tempo, por exemplo, achávamos que não havia racismo no Brasil, pois nos ensinavam que vivíamos numa democracia racial. Mal sabíamos reconhecer a diversidade das culturas indígenas de nossa região, quiçá do país. Não sabíamos, por exemplo, que já existia, no país, uma política de ação afirmativa, como é o caso da chamada Lei do Boi (Lei nº 5.465/ 1968), que reservava 50% das vagas nas escolas agrícolas de ensino médio ou superior (agronomia ou veterinária), mantidas pela União, a agricultores ou filhos destes, geralmente brancos, evidentemente. Essas coisas não afetavam nossa reflexão sobre a sociedade, ao contrário, elevávamos nossos preconceitos à condição de teses e debatíamos orgulhosamente sobre as questões sociais.

A História que aprendíamos nos ensinava que eram as pessoas que faziam a História, ignorávamos os contextos e as estruturas sociais, nos entorpecíamos com os “heróis”. Ignorávamos, ainda, as grandes teorias e ideologias políticas. Aprendemos a votar, orgulhosamente, em pessoas. Ignorávamos os partidos e nem sabíamos muito bem quantos eram ou o que os diferenciavam. Sabemos, hoje, que o ensino da História é reflexivo e nos ajuda a pensar sobre as coisas que estão aí, a nossa volta, a entender nosso lugar no mundo, a entender porque somos o que somos.

Eleições e cidadania no Brasil

Publicado dia 06/10/12 na Gazeta do Sul




A cidadania, ou mesmo o direito de participação política na história constitucional brasileira, é algo recente e mesmo problemático. O Brasil teve sete constituições e vale a pena darmos uma rápida olhada nessa trajetória da construção do eleitorado nacional. Na Constituição outorgada por D. Pedro I, em 1824, temos, desde o início, um paradoxo: é uma constituição inspirada nos princípios do liberalismo, da liberdade e igualdade, mas se mantém a instituição da escravidão. O voto era masculino e censitário, ou seja, por renda, o que garantia que negros libertos e brancos pobres não participassem das eleições. Naquela ocasião o analfabetismo não era um impedimento, pois as próprias elites não eram chegadas às letras.

Na Carta de 1891 o processo de exclusão da maioria da população ainda era a regra. O voto era masculino e garantia-se que os negros, agora homens e mulheres livres, não participassem do jogo político através de um outro dispositivo que não a renda, era o analfabetismo que criava a barreira. Uma população de negros saídos da escravidão compunha a maioria dos analfabetos e estes estavam proibidos de votar.

Foi com a Constituição de 1934 que o poder plebiscitário passou a ser considerado nos jogos do poder. É a partir de 1934 que, por exemplo, as mulheres passaram a ter o direito de votar. Até então não existia a menor significação do que entendemos por cidadania e nem a parcela de votantes, como vimos, era significativa. Nessa Carta Magna, em que pese já se vislumbrar a inspiração fascista, pela primeira vez os trabalhadores são considerados em seus “direitos” sociais. A barreira continuava a ser o analfabetismo, contudo, superava-se a extremada corrupção eleitoral que caracterizou a República Velha (1889-1930) através da institucionalização do voto secreto. Tivemos, ainda, mais quatro constituições, e somente na última, de 1988, a cidadania de fato passou a ser um conceito com fundamento legal. Na Carta de 1988 o voto ao analfabeto foi instituído, garantindo que uma parcela ainda significativa da população pudesse ter seus direitos de votar garantidos. A história da cidadania no Brasil é marcada por uma série de dispositivos constitucionais que foram, na realidade, oriundos de golpes e ditaduras. É o caso das Constituições de 1891, 1937 e 1967. Essa última incorporou, em 1969, o criminoso Ato Institucional N. 5, destruindo a liberdade e os direitos políticos, com consequências duradouras. Nessa trajetória, acabou-se por criar entraves e resistências à construção de uma sociedade mais igualitária. Com tantos entraves à participação política e a garantia de direitos, não é de se estranhar que a democracia entre nós ainda seja uma experiência insipiente. Somente a partir da Constituição de 1988 que o sufrágio universal e os direitos sociais foram, finalmente, garantidos juridicamente. É importante lembrar que o voto não é o fim e sim o meio no processo democrático.

Monteiro Lobato e a Eugenia

Publicado na Gazeta do Sul, dia 29 de setembro de 2012



Monteiro Lobato volta aos noticiários por conta do STF que, no dia 25 de setembro, deu continuidade às discussões sobre o futuro de sua obra para a educação brasileira, no caso, se impede ou não a adoção do livro Caçadas de Pedrinho (1933) pelo Programa Nacional Biblioteca na Escola. A discussão é complexa e implica em decisões que certamente terão desdobramentos e abrirão precedentes. Por um lado diz-se que o racismo da obra de Lobato é evidente e não poderia ser objeto de formação pedagógica nas escolas do país, pois, de alguma maneira, influenciaria negativamente na formação dos jovens leitores brasileiros. Por outro lado, muitos afirmam que a censura é um caminho autoritário e seria importante que obras dessa natureza fossem, sim, utilizadas nas escolas justamente para construir um espírito crítico sobre a história do racismo no Brasil. Porém, argumenta-se, ainda, que os professores não estariam preparados para essa tarefa e que a adoção das obras de Lobato poderiam mais afirmar uma postura racista do que, de fato, refutá-la. Opiniões a parte, me interessa aqui discutir o racismo de Lobato, entender o autor no contexto em que viveu, pois, como sabemos, do ponto de vista histórico não se deve julgar o passado com os valores do presente, isso seria anacronismo e considerado erro grosseiro. Os que defendem Lobato, não raras vezes, utilizam esse argumento para amenizar o impacto das posturas do autor. Mas, de fato, como podemos avaliar a postura de Lobato considerando o contexto em que escreveu sua obra, sobretudo Caçadas de Pedrinho, objeto da contenda? Monteiro Lobato escreveu seus principais textos entre os anos 1920 e 1950, período transitório entre uma visão racialista, de caráter pseudocientífico, que julgava que não só as raças humanas existiam como podiam ser hierarquizadas entre inferiores (negros) e superiores (brancos), e uma visão não-racialista, de caráter culturalista, que refutava e desacreditava o racismo. Portanto, Monteiro Lobato viveu num período de transformações do pensamento social/“racial”, o que não podemos perder de vista, pois, é preciso dizer, não faltavam opções teóricas para se desvencilhar de uma visão racista de mundo. Se tínhamos autores racistas como os eugenista Renato Kehl e Oliveira Vianna, tínhamos também intelectuais como Manuel Bomfim, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda que já refutavam o racialismo e eram autores importantes na época. Só para dar um exemplo, Lobato publicou “Caçadas de Pedrinho” no mesmo ano da publicação da obra máxima de Gilberto Freyre, Casa-Grande & Senzala, que, em que pese as críticas que poderíamos apontar, refutava as interpretações racistas da sociedade brasileira. Pensar que na época de Lobato o racismo era uma postura generalizada e, portanto, deveríamos relevar o racismo de autores como Lobato, não se sustenta. A época de Lobato era, também, a época em que o racismo foi posto em cheque. Ele tinha opções.

 

Usos e abusos da História

Publicado na Gazeta do Sul dia 22 de setembro de 2012


Temos, ainda, uma visão histórica limitadíssima, resultado, entre outras coisas, do perigo que a História representou em alguns cenários políticos que vivemos no Brasil. A censura, amputação curricular, vigilância ideológica, redução de carga horária nas escolas e formação deficitária de professores são algumas das estratégias utilizadas para desconstruir, entre nós, o importante papel social da História. Como vivemos num país que passou grande parte de sua história republicana em Estado de Exceção, podemos imaginar o quanto a educação, e a História em particular, foram afetadas negativamente. Em todos estes contextos, como a ditadura Vargas e a ditadura militar, as alterações curriculares foram notáveis e a História foi um dos alvos estratégicos de desconstrução da memória e do espírito crítico. Na época do Estado Novo, por exemplo, a escravidão praticamente desapareceu dos manuais escolares, e as lutas sociais, da mesma forma, foram banidas, legitimando o mito da tradição pacífica e acomodada dos brasileiros. No período da ditadura militar, a História foi transformada em anedotário nacional. Uma geração inteira foi vitimada por aulas baseadas em trajetórias de “personagens ilustres”, os chamados heróis da pátria, linhas de tempo e cronologias enormes e sem sentido, recheadas de “fatos memoráveis” e datas para decorar. Vitimamos uma geração com uma História didática baseada num positivismo primitivo, num culto ao passado como se dele pudéssemos tirar alguma lição ou moral para o presente. Uma História que ratificava a máxima comtiana que dizia que “os vivos seriam cada vez mais governados pelos mortos”. Uma História Magistra Vitae (mestra da vida) e moralista, que fazia do passado um panteão de heróis e mártires que deveriam servir de exemplos a serem seguidos. Ora, essa História personalista, cheia de heróis, datas e fatos foi justamente a História sem propósitos, acrítica, ingênua, perfeita para a morte do pensamento e da memória.

Hoje ainda estamos presos a cultos ingênuos do passado, a práticas comemorativas tolas, apologéticas e românticas. Inventamos e cultuamos heróis e eventos históricos que não se sustentam frente a mais superficial das pesquisas. Transformamos revoluções sangrentas, elitistas e fratricidas em memoráveis eventos históricos, guerras perdidas em marcos identitários e, o que é mais trágico, consideramos esses “mitos” como “verdades” históricas a serem lembradas e cultuadas. Usamos e abusamos da História como se ela pudesse legitimar nossos discursos ufanistas. Pela repetição, tentamos transformar falsidades históricas em verdades irrefutáveis. Mentimos nas escolas quando ensinamos uma “História” fantasiosa e inverídica. Mentimos quando reverenciamos heróis que jamais existiram ou justificaram o epiteto. Tragicamente, continuamos a inibir o pensamento e a inteligência social. O culto ao passado, na realidade, é o ritual de nossa decadência civilizatória.

Em defesa de identidades?

Publicado em 15 de setembro de 2012 na Gazeta do Sul



O sociólogo polonês Zigmunt Bauman nos ensina que quando precisamos sair em defesa de identidades, sobretudo culturais/étnicas, é porque elas deixaram de ser evidentes por si e não fazem muito sentido para nos posicionar no mundo. Diz ele que “quanto mais frágeis [as identidades] parecem, mais forte é o impulso de descobrir ou inventar seus alicerces e, sobretudo, de demonstrar sua solidez”. Quando se precisa refletir sobre as identidades é porque elas se transformaram numa tarefa e, como tal, necessitam ser exercidas com uma consciência que, de fato, jamais é necessária quando as identidades fazem sentido para a vida. Assistimos, nas últimas décadas, um movimento reivindicatório de identidades culturais/étnicas em nome da resistência à homogeneização do mundo global.

Essa obsessão em defender identidades parece ser o sintoma de um mundo onde as antigas identidades nacionais foram descentradas, subjugadas pelos movimentos migrantistas e diaspóricos do pós-guerra. Luta-se pelo direito à diferença, mas o que implicitamente está posto neste “movimento de resistência” é um discurso diferencialista que reivindica a pureza identitária e sua proteção. O problema desses soldados do comunitarismo étnico é que, ao saírem em defesa de supostas etnicidades, acabam naturalizando a cultura e reafirmando fronteiras identitárias. Na realidade, se aceita, a partir de uma política da “tolerância”, o convívio com as diferenças em mesmo território, mas com as fronteiras identitárias muito bem estabelecidas entre o mundo do “Nós”, os iguais, e o dos “Outros”, os diferentes. Não se consegue, com essa postura, um avanço no sentido da interculturalidade ou mesmo da transculturalidade: o limite é o multicultural. O hilário disso tudo é que geralmente a defesa de uma suposta pureza cultural a ser “preservada” se dá em nome da reação à homogeneização cultural. Viver sob uma identidade cultural preservada não é viver a mesmice, entre “iguais” imaginários? Não se trata da reificação do homogêneo? Essa postura defensiva, timbrada pelos resíduos de uma Antropologia Ortodoxa, pensa a cultura, segundo Bauman, “como um sistema coerente de pressões apoiadas por sanções, valores e normas interiorizados, e hábitos que asseguram a repetitividade da conduta no plano individual [conservadorismo] e a monotonia da reprodução, da continuidade no decorrer do tempo, da preservação da tradição no plano da coletividade [naturalização da cultura]”. Permitir que as diferenças existam, e que sejam toleradas, ainda é uma atitude autoritária que reafirma uma organização hierárquica da pluralidade cultural. Urge superar as posturas multiculturalistas conservadoras. É preciso perceber que as culturas são sempre hibridas, negociáveis, mutáveis, dinâmicas e performáticas. No mundo das diásporas culturais, a defesa de purezas identitárias se tornou uma retórica que, em nome da diversidade, reivindica o “Uno”.

A Independência e os acordos domésticos

Publicado na Gazeta do Sul dia 08 de setembro de 2012




Quando D. João VI retornou a Portugal para assumir um governo submetido a uma Constituição liberal, por exigência das Cortes que haviam derrubado o absolutismo, estava traçado o destino da antiga e mais importante colônia lusitana. Dois dias antes da partida para Portugal, D João VI dava ao filho, Pedro de Alcântara, o famoso conselho que se tornaria célebre nos Anais da História do acordo familiar que marcou a independência brasileira: Pedro, se o Brasil se separar antes seja para ti que me hás de respeitar do que para algum desses aventureiros. Selava-se, assim, a independência brasileira, num acordo entre pai e filho, pertencentes à dinastia dos Braganças, que desde 1640 governava Portugal e, por decorrência, o Brasil. O 7 de setembro de 1822 fora a confirmação do que o próprio rei de Portugal já julgava certo. O Brasil se tornaria independente de Portugal, mas, o que era importante, não romperia com a Casa de Bragança. Além do mais, alguns acordos entre pai e filho merecem lembrança, pois nos ajudam a entender como esse processo ocorreu. Dentre as exigências de D. João VI para reconhecer oficialmente a separação do Brasil constam uma pesada indenização financeira e o direito de uso, pelo rei português, do título de Imperador do Brasil, situação no mínimo estranha e constrangedora. O pagamento da indenização, ou seja, dois milhões de libras, é uma história a parte no anedotário nacional. É preciso entender aqui o acordo entre Inglaterra e Portugal. A Inglaterra mantinha vantajosas relações econômicas com a metrópole portuguesa e, frente à iminência de uma ruptura desta com o Brasil, era necessário garantir boas relações com o novo país. Para tanto, era de bom tom reconhecer a soberania brasileira imediatamente. A estratégia britânica foi notável. Era preciso que os portugueses reconhecessem a soberania brasileira para evitar uma celeuma com a antiga metrópole, pois eram parceiros políticos antigos. Para evitar mal-entendidos com os Braganças, os ingleses traçaram o seguinte plano, muito sedutor, vale dizer, para os lusitanos: o Brasil deveria pagar uma indenização pela independência, mas, frente à escassez de recursos, captaria os mesmos junto aos bancos ingleses, repassaria o dinheiro a Portugal que, por sua vez, repassaria a Inglaterra para saldar dívidas antigas. Moral da História: o Brasil tomava pra si a dívida externa portuguesa. O novo país ganhava a “soberania”, Portugal saldava suas dívidas e a Inglaterra tornava-se credora do Brasil. Feito o trato, D. Pedro assumia um império já endividado e depois de nove conturbados anos, em 1831, abdicava do trono brasileiro para voltar a Portugal com o objetivo de resolver novas questões familiares. Deixou aqui seu filho, Pedro II, que antes de completar 15 anos de idade assumiu o trono para governar o legado do pai e do avô até 1889, mantendo estruturas coloniais e, sobretudo, a escravidão.

Paradoxos Prisionais no Brasil

Publicado na Gazeta do Sul dia 01 de setembro de 2012




Desde que as prisões, como a concebemos hoje, foram “inventadas” no século XIX, nos acostumamos com uma história marcada pela tragédia e injustiça social. Mas para além das precaríssimas condições materiais das prisões brasileiras temos, ainda, outro fator que precisa ser considerado na análise da história do Sistema Penitenciário: trata-se da lógica do projeto carcerário nacional. Diga-se desde já, nasceu com uma contradição estrutural.

O Movimento da Reforma Penitenciária no Ocidente surge, influenciado pelo Iluminismo, na primeira metade do século XIX, e o Brasil, em que pese os inúmeros percalços, fez parte dele. A Reforma Penitenciária foi um movimento norteado pela reflexão sobre o crime, a pena e o criminoso, onde se propunha a transformação das instituições carcerárias, até então baseadas no suplício e na punição corporal pura e simples, em instituições correcionais, baseadas na ideia de reabilitação do indivíduo apenado através de técnicas morais, como o trabalho penal. Nesses termos, a Reforma Penitenciária é a transformação das prisões puramente punitivas em instituições penais condizentes com as mudanças da sociedade moderna e mais especificamente com a legitimação do Estado de Direito nascente.

No Brasil, este processo reformador se fez sentir na organização de projetos penitenciários correcionais, consubstanciado nas Casas Correcionais da década de 1850. Nascia, naquele contexto, a “utopia correcional”. O dispositivo correcional a partir do qual os indivíduos apenados seriam recuperados era baseado, majoritariamente, no “trabalho penal”. O trabalho penal era considerado o meio mais eficiente, dentro do pensamento liberal e capitalista, de recuperação da dignidade humana. A Reforma Penitenciária assumia o princípio da perfectibilidade humana, ou seja, todo homem é passível de ser melhorado. Mas, no caso brasileiro, essa “utopia” nasce marcada por um paradoxo. Vamos a ele.

O princípio moral que rege o trabalho penal tem sua matriz nos sistemas penitenciários projetados em sociedades protestantes, como a norte-americana. O trabalho, na lógica calvinista-puritana, era a condição para uma ética social, de responsabilidade individual. Estava relacionado, ainda, à graça de Deus. Portanto, como nos ensina Max Weber, para os protestantes “a falta de vontade trabalhar é um sintoma da ausência do estado de graça”. O trabalho era o caminho da salvação, portanto, da correção. Contudo, no caso brasileiro, o trabalho, seguindo a tradição católica romana, é concebido como castigo ou tortura. Na tradição medieval católica, o trabalho era reservado aos servos e não à nobreza ou ao clero. Soma-se a essa tradição, o escravismo que subtraía toda a positividade da ideia de trabalho. O trabalho penal numa sociedade escravista se constitui num paradoxo. Era evidente que o trabalho era um fator de amplificação da punição e não o caminho da salvação. Trabalhar significava equivaler-se ao escravo.

Getúlio Vargas (parte II)

Publicado na Gazeta do Sul em 25 de agosto de 2012



A era Vargas é comumente caracterizada por quatro períodos que, didaticamente, nos ajudam a entender o percurso de Getúlio no poder, entre 1930, ano do golpe que o levou ao Catete, e 24 de agosto de 1954, quando cometeu suicídio. Destaquemos alguns acontecimentos desses períodos. Entre a “Revolução de 1930” e a promulgação da Constituição de 1934, tem-se o período do governo provisório, cujo evento mais significativo foi, certamente, a Revolução Constitucionalista, ocorrida em 1932, orquestrada por São Paulo contra o governo central. Os revoltosos exigiam a promulgação de uma constituição, conforme promessa de Getúlio quando assumiu a presidência, em 1930. Vargas derrotou os paulistas, mas cedeu à reivindicação e, em 1934, promulgou a Carta Magna que trazia como novidade o voto feminino. De 1934 a 1937 tem-se o chamado período constitucional. Dois fatos podem ser destacados: a Intentona Comunista, de 1935, e o Plano Cohen, de 1937. A Intentona, ou insurreição comunista, fora liderada por Luís Carlos Prestes e Olga Benário, ambos presos depois de desmantelada a tentativa revolucionária. O evento acabou servindo de pretexto para Getúlio governar em Estado de Exceção. Em 1937, foi divulgado pelo programa radiofônico a “Hora do Brasil”, que o governo havia descoberto um plano para derrubar o presidente e levar adiante uma revolução comunista no país, o chamado Plano Cohen. O Plano foi, na realidade, um documento criado pelo integralista Olímpio Mourão Filho e utilizado pelo Chefe do Estado Maior Góis Monteiro para justificar, frente à população, um novo golpe de Estado. No mesmo ano é aprovado Estado de Guerra e, em 10 de novembro, o Congresso fora fechado. Getúlio anunciou uma nova Constituição, de inspiração fascista, a chamada Polaca e tornou-se o ditador do chamado Estado Novo.

Através do Departamento de imprensa e propaganda (DIP), instituiu-se a censura aos meios de comunicação e teve início uma campanha oficial para o culto à imagem de Getúlio. No plano econômico, Getúlio deu andamento a seu projeto nacionalista e trabalhista. Em 1943 foi instituída a Consolidação das Leis do Trabalho, a CLT. Os sindicatos foram domesticados e, a partir de uma política intervencionista, Vargas mediou as relações de trabalho, beneficiando, sobretudo, os setores industriais. Tratava-se de disciplinar o operariado para a industrialização. Vargas enfrentou o período da II Guerra e ao lado dos EUA, depois de um longo período de aproximação com a Alemanha, lutou contra o nazi-fascismo e o nacionalismo. Ironias a parte, lutava contra tendências que, em parte, estavam presentes em seu governo. Em 1945, não resistindo às pressões, inclusive do Exército, foi derrubado. Retornaria em 1951, pelo voto direto, inaugurando a fase democrática de sua trajetória. A volta ao nacionalismo já não tinha espaço no cenário internacional e, em 1954, cerceado pela oposição, “saiu da vida para entrar na História”.

 

Vargas e a cultura política (I)

Publicado na Gazeta do Sul dia 17 de agosto de 2012




Agosto é considerado, tradicionalmente, um mês agourento e, para nós, brasileiros, tem ainda um significado a mais, o fato político do suicídio, em 24 de agosto de 1954, de Getúlio Vargas, o estadista mais polêmico, paradoxal e enigmático da História brasileira. Hibrido de populista, ditador e democrata, Getúlio transitou por inúmeras posturas e atividades políticas: foi Promotor Público na comarca de Porto Alegre (1908), falsificador de atas eleitorais no governo de Borges de Medeiros (na eleição de 1923), Deputado Estadual (1909-1924) e Federal (1924-1926), Ministro da Fazenda do governo Washington Luís (1926-1927), Governador (Presidente, na época) do Rio Grande do Sul (1928) e golpista em 1930, depois de uma rasteira política em Washington Luís, pondo fim a República Velha (1889-1930). Do ponto de vista ideológico, Vargas foi agnóstico, em que pese suas articulações com a Igreja Católica quando presidente, positivista e castilhista, postura que de certo modo abandonou depois que assumiu o poder central do país, flertou com o fascismo italiano, foi ditador e, a partir da Segunda Guerra Mundial, democrata, sendo eleito Presidente em 1951 pelo voto popular.

Foi o Estadista que mais tempo se manteve no poder na era republicana, de 1930 a 1945 e 1951 a 1954. Odiado ou amado, é um político que sempre despertou/desperta sentimentos extremados, o que fez/faz dele objeto de culto para uns e demonização para outros. Foi o primeiro político brasileiro a fazer uso moderno da imagem e do poder plebiscitário. Lidou como ninguém com as “massas” e fez escola política inaugurando uma postura populista presente ainda hoje no país. Durante o Estado Novo, Vargas, seguindo os exemplos de países fascistas europeus como a Itália e a Alemanha,  potencializou seu poder plebiscitário a partir da construção de uma imagem personalista e carismática. Monumentalizou o culto à sua imagem, como fica evidente nas manifestações que ocorriam no estádio de futebol São Januário, quando Getúlio franqueava os ingressos e aproveitava a ocasião para um longo discurso. Nesses eventos, mobilizava escolas para desfiles em sua homenagem, enquanto estudantes ovacionavam-no e ostentavam cartazes com suas fotos.

Para sagrar seu personagem de político popular, Vargas, no contexto da ditadura do Estado Novo, instituiu o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) que tinha por missão difundir sua imagem, inclusive com a distribuição de material didático nas escolas, onde sua biografia era apresentada apologeticamente. Quadros com sua fotografia eram distribuídos à população e facilmente encontrados em oratórios ao lado de figuras como a de São Jorge. O “pai dos pobres” consolidava a mística personalista do poder no Brasil. Mística que faz com que até hoje os brasileiros optem por votar em pessoas e não em ideias ou ideologias políticas. Getúlio contribuiu decisivamente para essa cultura política personalista e populista no Brasil.

História e ufanismo cultural

Publicado na Gazeta do Sul dia 11/08/2012




É impressionante como volta e meia nos deparamos com discursos ufanistas, passadistas e até mesmo reacionários sobre a cultura e a história. Não bastassem as datas comemorativas da “pátria”, geralmente lapidadas pela sacralidade do relicário nacional, ainda temos as manifestações de “intelectuais orgânicos”, de entidades, de opinadores e de mal informados dedicados ao velho discurso ramerrão do autoelogio identitário, do apanágio da etnicidade e, não raras vezes, do proselitismo comunitarista. O que é mais danoso nessas manifestações essencialistas da cultura, nesse ufanismo acrítico, é a sustentação desses discursos numa referida autoridade do conhecimento histórico.

O autoelogio histórico-cultural, uma visão ufanista da História, comumente propagada aos quatro ventos, não atenta apenas contra a própria História, que facilmente desmontaria tais discursos, mas atenta contra o bom senso e o espírito crítico que são necessários para o exercício da própria cidadania. Não é pelo engodo ou pela farsa que faremos de nossa “cultura” ou de nossa “História” algo mais nobre. Este é o exercício da hipocrisia. Não há tanta nobreza na História assim!

O discurso nostálgico sobre o passado, como se tivéssemos perdido alguma coisa por lá e, hoje, deveríamos nos dedicar a recuperação dessas perdas, é o sintoma do ressentimento com que percebemos a cultura contemporânea. O desdobramento disso é a necessidade de cultuar o passado, de viver para o passado, conferir a ele um nível moral e ético que efetivamente julgamos perdidos no presente, um presente que acaba tendo sentido somente por se voltar para trás. Ora, o ufanismo ingênuo, quando não mal intencionado, tende ao reacionarismo, ao conservadorismo e ao passadismo. Daí a recorrência de expressões como “resgate” e “cultivo” da história, da tradição ou da cultura. É preciso reagir contra todas as formas de ufanismo histórico-cultural. É preciso superar essa postura conservadora, essa nostalgia tola e esse ressentimento frente ao presente, por uma atitude reativa. É preciso inventar linhas de fuga para escapar à ordem dos mortos.

O papel da História nesse imbróglio todo é evidente: reagir contra esses discursos, defender a crítica e desconfiar sempre dessas narrativas edificantes. À História cabe a desconstrução dessas zonas de conforto oferecidas por um passado idealizado. Cabe à História a desconstrução da farsa, das estratégias que movem certo ufanismo imobilizador. É preciso entender que a História é uma construção do presente, que ela não está inerte no passado, parada, esperando ser “resgatada” por alguém, no caso, o historiador. Ao historiador, posicionado num tempo e espaço específicos, cabe a construção do passado. Somos mais autores do passado do que constituídos por ele, daí a necessidade urgente de reagir contra os discursos ufanistas e nos responsabilizarmos efetivamente frente ao presente. 

As Olimpíadas e os jogos políticos

Publicado na Gazeta do Sul em 04 de agosto de 2012



A adoração aos deuses na Grécia Antiga tinha um aspecto que para nós, hoje, é de difícil compreensão. Os deuses, mesmo considerando sua sacralidade, possuíam virtudes e defeitos, como os homens. Contudo, isso levou a uma adoração que considerava as estratégias políticas dos próprios deuses que faziam da vida dos homens um jogo de disputa de poder, cujo destino estava condicionado. Os atletas representavam os próprios deuses no imaginário grego, daí que o culto ao esporte e às disputas onde se podia demonstrar a bravura, a honra, a virtude e a coragem eram importantes na constituição social dos helenos.

A partir do século VIII a.C., mais especificamente em 776 a.C, ocorria a primeira competição esportiva na cidade de Olímpia, com a participação  de atletas de várias cidades-estados da Grécia. Boxe, corrida, salto a distância, arremesso de dardos, de discos e atletismo constituíam as modalidades esportivas. Com os jogos, os gregos não só simulavam a adoração aos “deuses”, representados pelos atletas que disputavam os jogos, mas mantinham uma estratégia de pacificação e harmonia entre as cidades-estado. As Olimpíadas eram, portanto, um motivo de religiosidade e de manutenção da paz entre os gregos. No final do séc. IV d.C., no entanto, com a ascensão do imperador romano Teodósio I, já convertido ao cristianismo, os jogos foram proibidos, pois foram considerados manifestação politeísta, o que ia de encontro ao monoteísmo cristão.

Em 1896, em plena época do imperialismo europeu, por iniciativa do francês barão de Coubertin, os jogos foram restaurados. Naquele ano, 13 países e quase 300 atletas participaram, em Atenas, da primeira Olimpíada da era moderna. Jamais os jogos perderam o caráter político. Em 1916, 1940 e 1944 os jogos sucumbiram a Primeira e Segunda Guerra Mundial. Em 1936, nas Olimpíadas de Berlim, Hitler se recusou a assistir à premiação de um atleta negro dos EUA, ganhador de quatro medalhas de ouro. Em Munique, no ano de 1972, o evento foi marcado pelo atentado palestino a delegação israelense, matando 11 atletas. Em 1980 os EUA boicotaram os jogos de Moscou e, na edição seguinte, foram os russos que não compareceram a Los Angeles.

Durante toda a Guerra Fria, as Olimpíadas foram utilizadas como disputa simbólica do poder entre as potências capitalistas e comunistas. Verdadeiras estratégias de guerra se constituíram. Vencer uma modalidade era uma demonstração política de superioridade. Atletas eram submetidos a regimes de treinamentos extremos, invasivos e violentos. Era uma questão de superioridade dos regimes que estava em “jogo”.

Com o fim da Guerra Fria, a partir de 1989, as Olimpíadas perderam muito de seu glamour, e os investimentos, da mesma forma, não eram mais estratégicos. Os jogos disputados pelo poder político perderam o sentido. O glamour dos jogos olímpicos sucumbiu à inexpressão política das competições.

O Cachimbo do Saci

Publicado no jornal Gazeta do Sul em 28 de julho de 2012


Eis que o Saci-Pererê, personagem do folclore nacional, caiu na malha fina da censura do “politicamente correto”! Pois que o Saci foi tolhido do seu inseparável cachimbo e que, nas novas versões da lenda, já não fará parte dos adereços do peralta. O cachimbo do Saci nos leva a pensar como nos submetemos, voluntariamente, ao fascismo do policiamento e as estratégias de controle culturais. Até que ponto o “politicamente correto” é interessante para o convívio social? Até que ponto o fiel da balança descamba para o ridículo, para o constrangedor, para o modismo cínico? Não é sem sentido que não se vive mais a velhice e sim a melhor idade, esse termo cínico e hipócrita que ludibria o tempo final da vida. Vivemos um tempo em que devemos dizer as coisas conforme algumas convenções e não conforme o que pensamos. Consagramos a hipocrisia e a transformamos em código de convívio social. Se podemos dizer que a sociedade sempre fez da hipocrisia um estratagema de convívio, hoje levamos isso ao extremo. Assim como se retirou o cachimbo do Saci-pererê, se tentou retirar Monteiro Lobato das escolas, uma tentativa autoritária e arrogante que julga que professores e alunos não podem, juntos, avaliar e contextualizar uma obra que revela muito do que foi o Brasil do início do século XX. Sonegar informações, censurar e tirar das vistas, é pedagógico para alguns setores da sociedade que desejam, acima de tudo, exercer certa tirania que sempre criticaram. Nada como ter a possibilidade de não informar para exercer o poder. Por outro lado, nos abster de algumas posturas derivadas do “politicamente correto” é abrir o flanco para que discursos preconceituosos racistas possam se reafirmar.

Como se aproveitar desse radicalismo do politicamente correto? Toma-se como exemplo a malandragem de livros como “Guia politicamente incorreto da História do Brasil”, do jornalista da Veja, Leandro Narloch; “Guia politicamente incorreto da História da América Latina”, dos jornalistas Leandro Narloch e Duda Teixeira, ambos da Veja e o último da “saga” do besteirol, “Guia Politicamente Incorreto da Filosofia", de Luiz Fernando Pondé. Os dois primeiros, dedicados a tentar desqualificar a produção historiográfica profissional, carecem de quase tudo em termos metodológicos e de fontes. O último assume uma postura arrogante e ingênua, que se esforça em subverter quase tudo que diz respeito ao pensamento crítico-social. Trata-se de uma série de publicações fraquíssimas que visam um público leigo suscetível a aceitar argumentos de fácil digestão. Pondé chega a insinuar que se afirmar negro, pobre, mulher, índio ou gay, é uma estratégia de vitimização para alcançar “vantagens” sociais. Argumento que, no senso comum, pode ter efeito nefasto. Esses livros acabam por banalizar questões sociais sérias e autorizar, por consequência, que se possa reassumir publicamente um discurso que reafirma o preconceito e a violência simbólica.

De Freyre a FHC: Ironias (parte II)

Publicado em 21 de julho na Gazeta do Sul.



Desde a década de 1920, São Paulo tomava a frente da política, da econômica e da cultura do país, em detrimento da decadência do nordeste, símbolo do atraso colonial e escravista. Dos anos 1960 em diante as críticas a Gilberto Freyre se tornaram até mesmo redundantes, orbitando em torno de uma versão marxista que apontava para a visão elitista do autor de Casa-Grande & Senzala, oriundo de uma família aristocrática de Pernambuco. Sua postura política “conservadora”, na realidade, fustigava sua imagem de intelectual ineditista e mesmo revolucionário em sua época. Não haveria espaço para Freyre nesse novo arranjo cultural da pauliceia.

Dentre os membros dessa geração de intelectuais da Escola de São Paulo, está FHC, um dos responsáveis pela crítica à Escola Nordestina, nomeadamente à Freyre. Freyre fora acusado de fazer uma ode à mestiçagem como prova da inexistência de racismo no Brasil e transformá-la numa “prova” de que a tradição escravista não teria tido contornos tão violentos, pois as relações entre senhores e escravos teriam sido marcadas também por uma convivência até mesmo afetiva. Traduzindo: Freyre era o ideólogo da democracia racial. FHC deitou litros de tintas criticando a obra de Freyre e ajudou a colocá-lo no ostracismo. A influência intelectual de Freyre passou a ficar circunscrita ao Nordeste, sobretudo Pernambuco.

Freyre fora Deputado Federal e um opositor contumaz da ditadura varguista. Considerava-se apolítico, em que pese ter sido deputado pela UDN. Foi um contumaz crítico do racismo e um libertário do ponto de vista cultural. Foi homenageado em inúmeras universidades pelo mundo afora, onde ministrou aulas e conferências. Publicou 67 livros, além de coletâneas de artigos e conferências. Sua obra foi traduzida para diversos idiomas.

Ironicamente, FHC, ex-presidente, intelectual renomado internacionalmente, autor de obras inovadoras, como Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional, é um dos políticos mais contornados e escanteados de nossa história recente. Paradoxalmente, ele, que é associado à “privataria tucana”, acusado de ter feito alianças políticas espúrias e oportunistas, foi um dos mais importantes críticos da direita nos anos 1960 e 1980 e o primeiro estadista a reconhecer publicamente o racismo no Brasil e iniciar o processo que levaria, no governo Lula, às mais contundentes políticas afirmativas de reparação “histórica”. FHC fora colocado no ostracismo não apenas pela era Lula, mas pelos próprios correligionários. Sua obra, em função disso, também passou a ser vista com desconfiança e seus textos ignorados. Hoje, com mais de oitenta anos, é o autor do manifesto da “descriminalização da maconha”, solenemente ignorado pelos setores sociais que seriam simpáticos a mesma causa. FHC, um intelectual brilhante para sua época, acabou por ser colocado no ostracismo por sua postura política, da mesma forma que Freyre.


De Gilberto Freyre a FHC: ironias! (parte I)


Publicado em 14 de julho da Coluna História & Cotidiano, na Gazeta do Sul


O adágio popular “o mundo dá voltas”, pode nos remeter, em determinadas situações, à ironia das “repetições”, do feitiço que retorna ao feiticeiro, nos direciona o olhar para um segundo acontecimento. Chamo a atenção para dois personagens de nossa História recente que me fazem pensar nessa ironia dos acontecimentos que redundam. Lembro aqui de dois intelectuais que tiveram imensa importância nos seus respectivos contextos políticos: Gilberto Freyre (1900-1987) e Fernando Henrique Cardoso (1931 - ). Penso que ambos compartilham de um “destino” semelhante: o ostracismo político-intelectual. Mas o que aproxima FHC de Gilberto Freyre, nesse caso? Freyre foi, e é, um dos maiores pensadores da cultura que esse país viu nascer, e, certamente, um dos mais mal interpretado pela doxa corrente da intelectualidade dos anos 1960-80, quando esse intérprete do Brasil, em função de algumas posturas politicas nitidamente conservadoras, fora colocado na lata do lixo da História, e com ele sua monumental obra. Freyre foi autor da trilogia Casa-grande & Senzala (1933); Sobrados & Mucambos (1936) e Ordem & Progresso (1959), onde analisou exaustivamente, e com erudição inigual, a formação da sociedade brasileira, desde sua constituição patriarcal baseada na família colonial dos engenhos nordestinos até a decadência do patriarcado no século XIX e o advento da República. Portanto, procurou uma interpretação da cultura brasileira que desse conta de uma totalidade história que compreende os três grandes contextos: colonial, imperial e republicano. Trata-se de uma obra fundamental para pensar o Brasil e entender o quanto a própria construção da “identidade nacional” dos anos 1930 pra cá fora, de alguma forma, tributária à interpretação do Brasil por Gilberto Freyre. Em Casa-Grande & Senzala, inaugurou uma interpretação da sociedade brasileira em que, pioneiramente, refutava o determinismo racial, o complexo de inferioridade imputado aos brasileiros pelo etnocentrismo racialista europeu e, o que é mais marcante, exaltou pela primeira vez a mestiçagem como símbolo positivo da civilização nacional, posicionando uma crítica efetiva ao racismo como fator explicativo do desenvolvimento social do país. Casa-grande & Senzala foi publicada no ano de 1933, antes mesmo da Europa se engalfinhar numa guerra em que os ideais de “raça pura” levaram às maiores tragédias da História. Freyre fez parte da chamada geração de intelectuais da Escola do Nordeste, cujo centro irradiador fora criado por ele, o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, em Pernambuco. A partir dos anos 1960 passou a ser fustigado pela geração de acadêmicos vinculados a USP que se autoproclamaram inventores do pensamento social de cunho científico e profissional no país. Acelerava-se o processo, iniciado na década de 1920, de “paulistanização” da cultura brasileira, e com ele uma nova narrativa da nação.

Fast Science

Publicado dia 07 de julho de 2012 na Gazeta do Sul



Qualquer país que esteja em crescimento deve ou deveria investir em educação e pesquisa. Para tanto, algumas estratégias precisam ser construídas de modo que a produção científica nacional não apenas traga avanços ao país, mas, também, galgue boas posições nos rankings internacionais, pois isso não só traz reconhecimento, mas, também, financiamentos. No mundo da produção transnacionalizada, a produção científica passou a ser, da mesma forma, um “produto” que precisa transitar em alta velocidade pelo mercado global.

A entrada do Brasil no mercado global da ciência, no entanto, vem sendo feita aos trancos e barrancos, com consequências que precisam, uma hora ou outra, serem mensuradas pelos burocratas de Brasília, que ocupam o tempo atravancando a vida dos pesquisadores com demandas, geralmente, inúteis. A política de gestão da ciência brasileira passou a seguir uma tendência que desde os anos 1980 vinha se instituindo nos EUA e Europa, quando a globalização impôs um ritmo extremamente veloz à produção, inclusive a acadêmica. Nosso problema é ter entrado tardiamente num mercado já bem estabelecido e superar rapidamente alguns atrasos. O alvo da política de gestão governamental recaiu, majoritariamente, sobre os professores/pesquisadores dos Programas de Pós-graduação (mestrado e doutorado), obrigados a cumprir uma agenda de atividades pedagógicas enorme, nos níveis de graduação e pós-graduação, orientar alunos e novos pesquisadores, participar de Grupos de Pesquisas, de preferência interinstitucionais, concorrer a editais de financiamento junto às agencias financiadoras, e, ainda, publicar um número cada vez maior de artigos em periódicos qualificados, os duvidosos Qualis nacionais e internacionais. Tudo isso somado a um conjunto de formulários, prestações de contas, relatórios e inúmeras inutilidades que superocupam o tempo que deveria ser utilizado para a digna produção acadêmica. Eis o paradoxo: o governo quer engordar estatísticas, mas atravanca a produção científica.

Como resistência a essa acelerada linha de produção científica surgiu um movimento na Europa intitulado slow Science que visa justamente recuperar a dignidade da atividade científica que, frente a essas exigências insanas, passou a ser ameaçada por comportamentos nada elogiáveis. Alguns efeitos negativos já começam a aparecer por consequência dessa política. Aumentamos significativamente a produção de artigos científicos (Ver site da CAPES), mas não temos, na maioria das vezes, mensuração da qualidade dessas publicações. O autoplágio, a republicação de textos e a prática de assinar artigos de outros pesquisadores já começam a preocupar. Thomaz Wood Jr, que tratou desse assunto na Revista Carta Capital, ponto de partida para esse texto, afirma que “por aqui a fast Science levou a criação de uma slow bureaucracy, que avalia e controla o aparato científico”. O lema da academia brasileira hoje parece ser: “publique ou desapareça”.

IV Seminário Nacional de Pesquisa em Educação do PPGEDU-UNISC

http://www.unisc.br/site/seminario_nacional_pesquisa_educacao_2012/index.html

Prezado(a) aluno(a) e egresso(a),
O Programa de Pós-Graduação em Educação - Mestrado e o Núcleo de Educação Básica da Universidade de Santa Cruz do Sul, convida para a o IV Seminário Nacional de Pesquisa em Educação; V Seminário Nacional de... Infância e Educação e o V Seminário Nacional de literatura infantil, com o tema central “ Educação e Pedagogias: problematizações”, a realizar-se entre os dias 24 e 28 de setembro de 2012. O evento contará com a participação de importantes pesquisadores da educação.

Pedimos sua colaboração na divulgação, encaminhando para suas listas de e-mails.
Abaixo segue link do evento. Acesse para maiores informações.


Atenciosamente,
Comissão Organizadora

Universidade e formação crítica

Publicado na Gazeta do Sul dia 30 de junho de 2012



A universidade ainda é o maior e o melhor espaço de construção e difusão do conhecimento no mundo contemporâneo. Mas não se resume a isso, evidentemente. A universidade tem um papel estratégico em relação ao conhecimento, pois o conhecimento não é algo inocente e desinteressado; ao contrário, está implicado na construção dos rumos que a sociedade define e articula politicamente.

É opinião corrente entre os especialistas que o mundo contemporâneo está profundamente marcado pela aceleração dos processos sociais, pela dinamização e ampliação do consumismo, pelo recrudescimento do individualismo e pelo proselitismo da chamada “sociedade de sucesso”. O papel da universidade não pode ser apenas o de legitimação e incremento desse processo. Deve ser propositivo e contribuir efetivamente para o espírito crítico e reflexivo, e é nesse sentido que, quando se fala em formação humanista, a universidade tem a obrigação, para além da formação profissional, de qualificar o pensamento e a responsabilidade social de seus egressos. O que se entende, portanto, por formação crítica ou humanista na Universidade? Em síntese, trata-se de colocar o homem e a sociedade no centro das preocupações e das estratégias de formação profissional de seus alunos. Significa dizer que um profissional deve ter condições de pensar sobre os desdobramentos de seu conhecimento, de suas ações e de suas atividades. Uma formação humanista contribuiu para a percepção de nosso lugar no processo histórico, permite nos situar culturalmente, perceber que a ciência tem consequência política e não é jamais uma atividade desinteressada ou neutra, como queriam os ideólogos da ciência do século XIX. Uma universidade que não está atenta a estas questões deixa de cumprir seu papel social, deixa de ser um espaço de reflexão e análise social, o que, vale dizer, é condição sine qua non para entender seu próprio lugar no mundo.

O mito da neutralidade científica que por séculos desresponsabilizou a ciência (e os cientistas, bem entendido) de suas implicações sociais foi paulatinamente desacreditado, sobretudo no século XX, o século da eugenia, do holocausto nazista, dos gulags soviéticos, dos campos de limpeza étnica de Srebrenica, de Guantánamo e Abu Ghraib, exemplos da barbárie científica e tecnológica de um passado recente. A ideia de que possa existir um cientista num laboratório, fora do mundo, apartado da sociedade, não sobrevive a simples reflexão sobre o papel do conhecimento científico nas transformações da vida social. Uma revolução científica está relacionada também às mudanças sociais. Dito de outra maneira, o conhecimento científico só pode ser mensurado quando nos damos conta da dimensão do poder que ele comporta. Não há saber que não esteja implicado com o poder, essa dissociação por si só já é uma estratégia de desresponsabilização. À universidade cabe a criação de espaços para tencionar esse poder.


Brasilidades

Publicado na Gazeta do Sul no dia 23 de junhlo de 2012


De Joaquim Nabuco a Roberto DaMatta temos uma miríade de autores considerados incontornáveis para quem quer se aventurar a entender a dinâmica da sociedade brasileira. E é a partir de uma seleta de interpretações de alguns deles que vamos elencar algumas características marcantes de nossa sociedade.

Em primeiro lugar, é preciso afirmar que esta é uma sociedade de tradição escravista e a lógica escravista perverte todo o sistema, tanto escravos como senhores são constituídos pela mesma matriz que embasa a escravidão. Não é sem sentido, por exemplo, que mantivemos por tanto tempo o trabalho doméstico não regulamentado, com pequenas senzalas modernas que chamamos dependência de empregada. O trabalho doméstico está para além de qualquer contrato formal, se constitui também no sistema do favor, da submissão e da pertença familiar. “A ‘fulana’ é como se fosse da família”. O escravismo marcou nosso sistema jurídico, econômico e político. Nossa primeira Constituição (1824) misturava o liberalismo, marcado no artigo 179, que tratava das garantias e liberdades individuais, ao mesmo tempo em que mantínha o escravo como instituição jurídica. Ainda somos uma sociedade que cultiva o formalismo da “igualdade política” com a “desigualdade social”. Na realidade, nossa burguesia sempre foi mais afeita aos tratamentos da nobreza, como, de fato, ocorria desde os tempos de D. João VI. Enquanto na Europa iluminista os ventos revolucionários aburguesavam a nobreza, derrubando o antigo regime, no Brasil, criávamos uma nobreza, tanto colonial como imperial, sedenta por mimos e privilégios sociais e econômicos. Daí que constituímos uma sociedade que mistura o público e o privado, uma sociedade em que o carteiraço ou o antipático “você sabe com quem está falando?” insistem em verticalizar as relações sociais.

Uma sociedade oriunda da tradição da nobreza e do escravismo tem dificuldades enormes em separar o público do privado. Entendemos a esfera pública como extensão da esfera privada. Dito de outra maneira, fazemos da coisa pública, do Estado, a extensão de nossa casa, da lógica familiar. Essa é a razão porque, mesmo na escola, as crianças chamam os professores(as) de tios/as, termos que remetem a intimidade familiar. Chamar de senhor(a), no nosso caso, é frio e pouco afetivo. Mas é exatamente essa mesma dinâmica social que faz com que nossas crianças tratem o patrimônio escolar com desdém. O desdobramento disso é o pouco caso com o patrimônio público, com as ruas e, claro, com o erário público. Como nos diz DaMatta, “limpamos a casa regularmente e sujamos a rua cotidianamente”. A rua, por sinal, é o lugar do perigo e da igualdade. Quando se demite alguém do trabalho se diz: “Vá pra rua” ou “está no olho da rua”. Quando as coisas vão mal, dizemos: “estamos na rua da amargura”. Para finalizar, a cidadania, essa condição necessária para a igualdade e respeito às leis, entre nós, é um grande mal-entendido.