Dinâmica da Malandragem

Publicada na Gazeta do Sul em 14 de janeiro de 2012


Um bom exercício para entender o Brasil é prestar atenção num fenômeno que há muito tempo vem sendo estudado por historiadores e antropólogos: a malandragem, também identificada com o antipático “jeitinho”. Evidentemente não temos espaço aqui para esgotar o assunto, mas podemos apontar alguns exemplos interessantes. Sabemos que temos uma cultura escravista cujo legado está presente numa ética do (des)valor do trabalho; uma tradição católica que não só justificou a escravidão como denegriu o trabalho como meio de emancipação social e, além disso, jamais investimos em políticas de inclusão social dos “negros”, saídos da escravidão no final do século XIX. Desse arranjo surgiu uma sociedade verticalizada, patriarcal e patrimonialista, onde o mundo do Direito jamais conseguiu definir com segurança a fronteira entre o público e o privado, do mundo do “Eu” e do “Nós”. Constituímos uma sociedade perversa que fez conviver um sistema liberal e escravista sem que essa ambiguidade fosse escandalosa.
Para os que saiam da escravidão, os que migravam do campo para as cidades, aqueles cuja cor denunciava uma mestiçagem outrora indigna, foi necessário inventar novas formas de vida em meio a um mundo que insistia em excluir todos que escapavam de uma estética europeia ou não podiam participar dos jogos competitivos da sociedade capitalista que se estruturava nas primeiras décadas do século XX. O resultado foi a dinâmica do “jeitinho”, uma forma de vida marcada pelo transitar de fronteiras, entre a legalidade e a ilegalidade, entre a lei e os amigos que aplicam a lei, entre o mundo do trabalho e do ócio, caracterizado pelos bares, bilhares, esquinas, etc.
O malandro é o tipo social que conseguiu inventar formas de viver nas margens do sistema, inventou códigos sociais e subverteu a lógica do Estado de Direito moderno. Frente a elites cínicas e conservadoras, aprendeu a construir pontes e atalhos sociais e se constituiu no símbolo do articulador entre vários mundos. O objetivo era “vencer sem fazer força”, pois a força, relacionada ao mundo do trabalho, não emancipava ninguém.
O malandro foi herói nacional até o Estado Novo, quando Getúlio Vargas, necessitado de um projeto de industrialização, condenou o malandro e tentou construir uma lógica de valorização do trabalho. Aos trancos e barrancos, coibiu, censurou e perseguiu todos que edificavam a malandragem como arauto da cultura nacional. Como exemplo, lembramos o compositor Ismael Silva que cantava: “Se eu precisar algum dia / De ir pro batente / Não sei o que será / Pois vivo na malandragem / E vida melhor não há” (1931). Com a perseguição ao malandro, empreendida pelo Estado Novo, Ataulfo Alves, que de mané não tinha nada, invertia a lógica da malandragem e arrematava: “Quem trabalha é que tem razão / Eu digo e não tenho medo de errar / O bonde são Januário / Leva mais um operário / Sou eu que vou trabalhar” (1941). 

Ética do (des)valor do trabalho

Publicado na Gazeta do Sul dia 08-01-2012


O trabalho sempre foi um problema nos debates sobre a “identidade” nacional brasileira. Quando da independência, as discussões sobre a “índole” dos brasileiros apontavam para a indolência dos povos indígenas, a inconstância dos negros e a falta de aptidão dos mestiços. Estava explicado porque o Brasil não poderia dar certo, tomando como parâmetro a modernidade dos países nórdicos. O problema era o povo, problema que só foi se agravando com a aceitação das teses evolucionistas na segunda metade do século XIX, esteio a partir do qual o próprio Monteiro Lobato tratou de construir seu Jeca Tatu, cujas características acima apontadas estavam como que aglutinadas nesse “tipo mestiço e decadente”.
Essas explicações não se sustentam hoje, evidentemente; são típicas de uma época biodeterminista e pouco atenta às questões histórico-sociológicas que, como sabemos, permitem um entendimento mais satisfatório sobre o tema. Três questões estruturantes de nossa sociedade ajudam a entender porque constituímos uma cultura do (des)valor do trabalho. Por que o trabalho, mesmo realizado com gosto ou a exaustão todo o santo dia, é, ainda, o símbolo da luta diária, da batalha do dia a adia.
a) O Brasil é um país marcado pelo catolicismo, e nessa tradição cultural a palavra trabalho tem origem e sentido advindo do período da antiguidade romana, quando o tripalium estava relacionado à tortura ou ao castigo. Na Idade Média, auge do catolicismo apostólico romano, trabalho era coisa de servo, de escravo ou de inferiores sociais, não sendo realizado, por exemplo, pela nobreza.
b) O Brasil é um país marcado pela escravidão, cujo legado foi à perversão da ideia moderna de trabalho como agregadora de valor. Trabalhar era coisa de escravo, depois de “negros” (associados tradicionais do escravismo) e hoje dos perdedores sociais. Trabalho manual, portanto, denigre e não emancipa ninguém. Não é sem sentido o ditado popular, perfeitamente aplicável a classe política: “Quem trabalha muito não tem tempo de ganhar dinheiro”.
c) O Brasil é um país marcado pela sociedade de corte, nobreza parasitária que desde os tempos iniciais da colonização, no século XVI, passou a estruturar uma burocracia que nos tempos de D. João VI ganharia a forma de Estado. A Corte, seguindo a tradição católica medieval, não trabalhava. Dá pra entender de onde vem a formação das elites brasileiras, de nossa tradição patrimonialista e, quiçá, de nossa tradição política marcada pela corrupção e loteamento de cargos públicos. Uma corte que se preze está sempre pendurada no Estado, afastada do mundo do risco e da luta diária.
            Num mundo marcado por uma ética do (des)valor do trabalho dá para entender também porque falar em educação profissionalizante é muito complicado, falar em sistema prisional, baseado no trabalho penal, não tem muito sentido e dizer que o trabalho enobrece os homens é piada de mau gosto.  

Diminutivos à brasileira!


Publicado na Gazeta do Sul dia 01-01-2012

Dentre as grandes características da linguagem estão sua dinâmica contextual e sua liberdade de combinações de sentido, o que nos indica que um ótimo recurso para entender a história cultural de uma sociedade e a construção de seus códigos sociais é a atenção ao uso dos recursos da língua frente a determinadas situações cotidianas. Destacamos aqui o caso dos diminutivos no Brasil. O que eles podem revelar de nossa cultura?
Chamo a atenção para o hábito muito comum de colocar diminutivos para falar de problemas que podemos resolver facilmente ou que se resolverão por si, retirando desses, muitas vezes, sua magnitude ou importância: “é só um probleminha”, “isso é fichinha”, etc. Noutra dimensão, os diminutivos nos proporcionam aproximação, intimidade e afetividade, eles colocam algo a mais: “docinho”, “benzinho”, “chefinho”, “mãezinha”, “sinhazinha”, patrãozinho, ... “posso ter uma palavrinha com” e por aí vai. Pode-se mesmo transformá-los em armas de guerra (ironia e desprezo) quando empregados em discussões, usando formas de tratamentos diminutivamente: “queridinho(a)”,  “povinho”, “gentinha”, etc.
Mas o mais importante aqui é mostrar como os diminutivos também funcionam para tirar algo das coisas, torná-las menos intensas ou importantes, “diminuir” seu valor. No caso, os diminutivos ajudam a nos desresponsabilizar pelos nossos atos, tiram a devida importância de nossas ações frente aos outros e ao mundo. No Brasil os diminutivos servem para verticalizar as relações sociais, romper com a igualdade jurídica de nossos direitos e deveres, entre outras coisas. Os diminutivos permitem que o “meu” mundo e as “minhas ações” sejam diferenciadas das ações dos “outros”. Subvalorizamos, com os diminutivos, a igualdade social. Como chama a atenção o antropólogo Roberto DaMatta, ao analisar o trânsito no Brasil, “ao dirigir, definimos uma guinada agressiva em cima de outro carro alheio como uma fechadinha ou batidinha”. Da mesma forma, diz ele, “nós não mentimos, damos uma enganadinha ou contamos uma mentirinha”. Não batemos nas crianças, damos uns “tapinhas”, umas “palmadinhas”. Nossa matriz social aristocrática transformou os diminutivos em ferramentas hierarquizadoras, em marcadores culturais que desprezam a igualdade. Podemos nos diferenciar do mundo “dos iguais perante a lei”, relativizar nossas condutas, amenizar nossas penas e diminuir, ad nauseam, nossas intervenções sociais. Disso tudo resulta uma sociedade que superlativa a cobrança das ações e responsabilidades dos outros, dos governos, dos mandatários ou mesmo dos considerados inferiores e desiguais. Os outros merecem punição exemplar, completa responsabilização pelos atos, nós um tapinha nas costas, uma ajudinha ou mesmo uma pequena tolerância, pois, se fizemos algo fora da norma geral, tínhamos uma razão particular para isso, e isso já é suficiente para nos autorizar um atalho no pacto social que deveria funcionar pra todos.