Diminutivos à brasileira!


Publicado na Gazeta do Sul dia 01-01-2012

Dentre as grandes características da linguagem estão sua dinâmica contextual e sua liberdade de combinações de sentido, o que nos indica que um ótimo recurso para entender a história cultural de uma sociedade e a construção de seus códigos sociais é a atenção ao uso dos recursos da língua frente a determinadas situações cotidianas. Destacamos aqui o caso dos diminutivos no Brasil. O que eles podem revelar de nossa cultura?
Chamo a atenção para o hábito muito comum de colocar diminutivos para falar de problemas que podemos resolver facilmente ou que se resolverão por si, retirando desses, muitas vezes, sua magnitude ou importância: “é só um probleminha”, “isso é fichinha”, etc. Noutra dimensão, os diminutivos nos proporcionam aproximação, intimidade e afetividade, eles colocam algo a mais: “docinho”, “benzinho”, “chefinho”, “mãezinha”, “sinhazinha”, patrãozinho, ... “posso ter uma palavrinha com” e por aí vai. Pode-se mesmo transformá-los em armas de guerra (ironia e desprezo) quando empregados em discussões, usando formas de tratamentos diminutivamente: “queridinho(a)”,  “povinho”, “gentinha”, etc.
Mas o mais importante aqui é mostrar como os diminutivos também funcionam para tirar algo das coisas, torná-las menos intensas ou importantes, “diminuir” seu valor. No caso, os diminutivos ajudam a nos desresponsabilizar pelos nossos atos, tiram a devida importância de nossas ações frente aos outros e ao mundo. No Brasil os diminutivos servem para verticalizar as relações sociais, romper com a igualdade jurídica de nossos direitos e deveres, entre outras coisas. Os diminutivos permitem que o “meu” mundo e as “minhas ações” sejam diferenciadas das ações dos “outros”. Subvalorizamos, com os diminutivos, a igualdade social. Como chama a atenção o antropólogo Roberto DaMatta, ao analisar o trânsito no Brasil, “ao dirigir, definimos uma guinada agressiva em cima de outro carro alheio como uma fechadinha ou batidinha”. Da mesma forma, diz ele, “nós não mentimos, damos uma enganadinha ou contamos uma mentirinha”. Não batemos nas crianças, damos uns “tapinhas”, umas “palmadinhas”. Nossa matriz social aristocrática transformou os diminutivos em ferramentas hierarquizadoras, em marcadores culturais que desprezam a igualdade. Podemos nos diferenciar do mundo “dos iguais perante a lei”, relativizar nossas condutas, amenizar nossas penas e diminuir, ad nauseam, nossas intervenções sociais. Disso tudo resulta uma sociedade que superlativa a cobrança das ações e responsabilidades dos outros, dos governos, dos mandatários ou mesmo dos considerados inferiores e desiguais. Os outros merecem punição exemplar, completa responsabilização pelos atos, nós um tapinha nas costas, uma ajudinha ou mesmo uma pequena tolerância, pois, se fizemos algo fora da norma geral, tínhamos uma razão particular para isso, e isso já é suficiente para nos autorizar um atalho no pacto social que deveria funcionar pra todos.

Um comentário:

Acad. Luciana Schwengber disse...

É o jeitinho brasileiro de ser!