Ética do (des)valor do trabalho

Publicado na Gazeta do Sul dia 08-01-2012


O trabalho sempre foi um problema nos debates sobre a “identidade” nacional brasileira. Quando da independência, as discussões sobre a “índole” dos brasileiros apontavam para a indolência dos povos indígenas, a inconstância dos negros e a falta de aptidão dos mestiços. Estava explicado porque o Brasil não poderia dar certo, tomando como parâmetro a modernidade dos países nórdicos. O problema era o povo, problema que só foi se agravando com a aceitação das teses evolucionistas na segunda metade do século XIX, esteio a partir do qual o próprio Monteiro Lobato tratou de construir seu Jeca Tatu, cujas características acima apontadas estavam como que aglutinadas nesse “tipo mestiço e decadente”.
Essas explicações não se sustentam hoje, evidentemente; são típicas de uma época biodeterminista e pouco atenta às questões histórico-sociológicas que, como sabemos, permitem um entendimento mais satisfatório sobre o tema. Três questões estruturantes de nossa sociedade ajudam a entender porque constituímos uma cultura do (des)valor do trabalho. Por que o trabalho, mesmo realizado com gosto ou a exaustão todo o santo dia, é, ainda, o símbolo da luta diária, da batalha do dia a adia.
a) O Brasil é um país marcado pelo catolicismo, e nessa tradição cultural a palavra trabalho tem origem e sentido advindo do período da antiguidade romana, quando o tripalium estava relacionado à tortura ou ao castigo. Na Idade Média, auge do catolicismo apostólico romano, trabalho era coisa de servo, de escravo ou de inferiores sociais, não sendo realizado, por exemplo, pela nobreza.
b) O Brasil é um país marcado pela escravidão, cujo legado foi à perversão da ideia moderna de trabalho como agregadora de valor. Trabalhar era coisa de escravo, depois de “negros” (associados tradicionais do escravismo) e hoje dos perdedores sociais. Trabalho manual, portanto, denigre e não emancipa ninguém. Não é sem sentido o ditado popular, perfeitamente aplicável a classe política: “Quem trabalha muito não tem tempo de ganhar dinheiro”.
c) O Brasil é um país marcado pela sociedade de corte, nobreza parasitária que desde os tempos iniciais da colonização, no século XVI, passou a estruturar uma burocracia que nos tempos de D. João VI ganharia a forma de Estado. A Corte, seguindo a tradição católica medieval, não trabalhava. Dá pra entender de onde vem a formação das elites brasileiras, de nossa tradição patrimonialista e, quiçá, de nossa tradição política marcada pela corrupção e loteamento de cargos públicos. Uma corte que se preze está sempre pendurada no Estado, afastada do mundo do risco e da luta diária.
            Num mundo marcado por uma ética do (des)valor do trabalho dá para entender também porque falar em educação profissionalizante é muito complicado, falar em sistema prisional, baseado no trabalho penal, não tem muito sentido e dizer que o trabalho enobrece os homens é piada de mau gosto.  

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