Liberdade e informação

Publicado na Gazeta do Sul, dia 11-02-2012



Vivemos, no mundo contemporâneo, a sensação mais efetiva do sentimento de liberdade e o apogeu do individualismo, que assumem contornos sem par na história do mundo ocidental. Pelo menos é esse o discurso que tem coroado as chamadas conquistas da sociedade aberta. Essa percepção da liberdade, no entanto, é o que garante o funcionamento de estratégias de poder extremamente sutis que têm transformado o status de cidadania em de consumidor. A velocidade inerente ao consumismo e o lapso de tempo entre o desejo e sua satisfação seguem a mesma lógica das novas tecnologias de informação. Supressão da espera e busca frenética de novidades (informações), renovadas e descartadas com critérios cada vez mais duvidosos, sem garantias. Essa proliferação de informações, no entanto, traz consigo um desdobramento importante: impede a nitidez entre o conhecimento, que necessita, evidentemente, de tempo e desaceleração, e a informação que, em tese, deveria ser submetida à crítica. Talvez seja esse um dos motivos da proliferação discursiva, livre e pouco especializada. Talvez seja isso que faça com que os intelectuais, comumente atacados por se posicionarem criticamente sobre as coisas, sejam alvo dessa nova dinâmica informacional. Desqualificar o discurso especializado, colocá-lo na mesma vala do senso comum ou do diletantismo, é um dos recursos utilizados para colocar em xeque a crítica, esvaziá-la numa ordem discursiva dispersa. Torna a manifestação, a fala, o discurso, etc, inócuo, inofensivo e solto no torvelinho informacional. O discurso e a contestação correm o risco de perderem a verve inflamada das narrativas avassaladoras. Numa sociedade de multimeios todos tem algo a dizer e assim esse algo é sempre virtualizado. Quem sabe está aqui o grande ganho do poder: silenciar o discurso em seu próprio meio de proliferação. A possibilidade de expressão é consolidada justamente porque não impõe grandes riscos ao mundo em que a única coisa que se prolifera é o capital e o mercado. O importante é que nos tornemos empreendedores de nossos próprios discursos, que façamos lançar nos multimeios e redes sociais nossas opiniões, que façamos valer essas opiniões, que façamos com que elas tenham efeito crítico ou que simplesmente explicite nossas verdades.

Num mundo onde a informação prolifera sem cessar é muito difícil a filtragem. Um exercício interessante é investigar na internet, inclusive nas enciclopédias como a Wikipedia, algum assunto que temos bom domínio. Ficaremos impressionados com a quantidade de informações desencontradas e opiniões legitimadas como verdadeiras que são, na realidade, grandes “fakes”. Nossa capacidade de busca de informações é hiperbólica frente a nossa precária capacidade de saber ler e discernir. Para viver na sociedade da informação, e até mesmo do conhecimento, precisamos potencializar a crítica e aprender a ler o mundo com múltiplas lentes. 

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