Mestiço é que é bom!

Publicado na Gazeta do Sul, dia 04-02-2012



Nas últimas décadas, temos assistido à retomada de uma crítica à ideia de miscigenação no Brasil que nos faz lembrar, inevitavelmente, aos grandes discursos eugenistas do início do século XX, quando a limpeza racial e a fantasia da existência de raças humanas ainda era levada a sério. No caso brasileiro, a mestiçagem sempre foi um motivo de discussões e debates acalorados. No contexto do séc. XIX, quando o ideal de Estado-nação fora construído, a miscigenação era considerada uma aberração que contrariava o ideal de povo (nação), pois esse deveria ser a imagem de uma raça pura. A regra era: um Estado, uma nação! Podemos imaginar os problemas que esse ideal de Estado-nação suscitou entre nós! Estávamos condenados à degeneração civilizatória. Esse foi o período de delirantes como o eugenista Octávio Domingues que pregava métodos de limpeza racial como os empregados na criação de bois Caracu, e por aí vai!

Nos anos 1930, entre nós, o biodeterminismo acabou cedendo espaço a uma visão culturalista da sociedade e, com isso, a miscigenação passou a ser considerada em sua positividade. Rompia-se com o ideal de pureza em nome de uma civilização mestiça. Não demorou para que a miscigenação passasse a ser assunto de Estado e, assim, utilizada para afirmar que no Brasil não existia preconceito, ou melhor, racismo. A mestiçagem servia como prova de que seríamos uma democracia racial, e até hoje temos um problema enorme em assumir nossa postura preconceituosa e racista. Contra essa ideologia da democracia racial se opuseram contundentemente os movimentos sociais antirracistas que, a partir dos anos 1980, ganharam o cenário político, sobretudo nos governos FHC e Lula. Na esteira desses movimentos a raça ressurge como uma construção social, com claro objetivo de afirmação de uma “identidade” negra no Brasil. O mestiço, agora, passou a ser visto como uma forma de impedimento da aceitação da negritude como identidade, pois ele é a negação da bipolaridade negro/branco. É por isso que para certos grupos do Movimento Negro, por exemplo, o IBGE deveria considerar Pretos e Pardos unificados sob a nomenclatura Negros, anulando a possibilidade de identificação com a mestiçagem, ao gosto do purismo norte-americano. Aposta-se, desde os anos 1980, num movimento de “conscientização” da negritude, de afirmação identitária como estratégia de luta e emancipação social. Observando o último censo, nota-se que a dinâmica da mestiçagem, ao contrário das tentativas de redefinição antropológica do povo brasileiro, continua sendo a forma mais aceitável de autoidentificação, escapando às simplificações da lógica binária. Nos autoidentificamos no Brasil como: 47,73% brancos, 43,13% pardos e 7,61% pretos.  É preciso enfrentar o racismo e não a mestiçagem. A estratégia deve ser outra. Parafraseando a memorável afirmação de Darci Ribeiro sobre o povo brasileiro, “mestiço é que é bom!”


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