Não somos racistas?

Publicado dia 04-02-2012 na Gazeta do Sul


Sempre quando a discussão sobre cotas aparece na imprensa temos a oportunidade de observar o quanto ainda esse debate está mal encaminhado. Quanto mal-entendido e falta de informação balizam essas discussões. Nos últimos dias as manifestações sobre a decisão da prefeitura em utilizar cotas raciais para concurso público no município causou grande polêmica na região. Geralmente as manifestações sobre o assunto revelam posturas e ideias que merecem ser discutidas com mais profundidade. A) afirmar que não somos racistas; B) dizer que apenas o esforço individual é responsável pela ascensão social, o que significa que todos nós temos as mesmas condições para competir; C) usar o discurso de vitimização/superação, aquela lenga-lenga de que passamos muito trabalho na vida, mas conseguimos com nosso esforço superar todos os obstáculos e “chegar onde chegamos” e D) apontar que as vítimas do racismo são racistas também.

Afirmar que apenas o esforço individual é suficiente para ultrapassar barreiras sociais, preconceitos, limitações estruturais de moradia, educação e saúde, é desconsiderar que vivemos em sociedade e que esta possui uma forma de organização que não é igualitária e muito menos justa. Comparar o racismo com as outras formas de preconceito social é ignorar que o racismo aponta para inferioridade inata, aponta para o déficit da espécie, que marca na carne e na pele um lugar de inferioridade biológica. Usar exemplos individuais, e a partir daí generalizar, é outra forma comum de manifestação que ignora as questões sociais que estão muito além do indivíduo. Acusar a vítima do racismo de racista: “os negros são racistas com os próprios negros”, por exemplo, é um absurdo que demonstra somente o quanto desconhecemos a formação de nossa sociedade. É ignorar as formas de subjetivação em sociedades hierárquicas que possuem um modelo europeu de organização e, sobretudo, a constituição dos sujeitos não brancos em uma sociedade que tentou durante quase um século branquear a população e eliminar as pessoas ditas de “cor” da composição do povo brasileiro. Para tanto basta ler os teóricos e planejadores sociais do início do século XX.

Reconhecer o racismo não implica em ser a favor da política de cotas, essa discussão ainda está em aberto. O problema é negar o racismo e ignorar as formas sutis com que ele se institui nas nossas relações sociais: brincadeiras, apelidos, anedotas, ofensas, etc. No Brasil jamais admitimos publicamente nosso racismo. É sempre um problema do outro. Em pesquisa realizada na USP, a historiadora Lilia Moritz Schwarcz aplicou um questionário com as seguintes questões a um número expressivo de alunos: 1) Você é preconceituoso? 97% responderam "não" e 2) Você conhece alguém preconceituoso? 98% responderam "sim". Segundo a autora “todo brasileiro parece se sentir como uma ‘ilha de democracia racial’, cercado de racistas por todos os lados”.


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