O ideal de pureza!


Publicado dia 22-01-2012 na Gazeta do Sul

Nada é puro ou impuro aleatoriamente! Essas são construções culturais que, mesmo presentes em todos os grupos humanos, dependem das referências e dos códigos sociais que apontam para essas “qualidades”. Assim é também com o belo e o feio, percepção presente em todas as culturas, depende também de referenciais e códigos que informam os critérios para tais apreciações. É por isso que os padrões de beleza mudam no tempo (passado e presente) e no espaço (diferentes culturas).
Na realidade, o ideal de pureza em nossa cultura ocidental está relacionado à ideia de ordem, de lugar e organização. Há uma gestão da pureza, ela não é natural, depende de critérios e definição de objetividades. A pureza se tornou uma obcessão em nossa civilização, a busca pelo homogêneo e o único nos levou a delírios raciais e culturais que nos afetam ainda hoje. A própria ideia de povo durante o século XIX, quando da estruturação dos Estados-nação, estava relacionada à busca de uma unidade biocultural, ou seja, ao ideal de pureza. Já deliramos muito também em acreditar que raças puras ou grupos humanos homogêneos pudessem existir ou que em algum lugar do passado já existiram. Mas o que é a pureza? Voltamos à ideia de ordem. O ideal de pureza está relacionado à forma como definimos culturalmente o lugar das coisas no mundo. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman nos oferece bons exemplos no capítulo primeiro do livro “Mal-estar na pós-modernidade”.  Citamos dois: a) uma omelete é um prato de boa aparência e até apetitoso quando colocado em um prato limpo sobre a mesa. Mas, se colocarmos essa omelete sobre o travesseiro, nos parecerá nada agradável, sujo, impuro, etc. b) Um sapato no chão, mesmo sobre um tapete, nos parece, inclusive, belo, mas se colocarmos sobre a mesa nos parecerá imediatamente sujo e desagradável. Esses exemplos nos mostram como o lugar das coisas ajuda a definir a forma como percebemos e sentimos o mundo. No que se refere aos delírios racistas e xenófobos, por exemplo, vale a mesma lógica. As comunidades tendem a se perceber como puras e consideram os de fora como impurezas e fora do lugar, daí o estranhamento e o mal-estar que gera intolerância, desconfiança e até violência.
A condição da pureza depende da forma como organizamos o mundo, o lugar das coisas e das pessoas. Na realidade, o mundo é hibrido, nem sujo nem limpo, nem puro ou impuro, o próprio processo de hominização nos mostra isso. O sedentarismo pode ter sido a condição da civilização, mas foi o nomadismo que se constituiu na condição da hominização. Provavelmente não existiria humanidade não fosse o nomadismo e a consequente miscigenação, misturas e atravessamentos culturais que nos constitui como somos hoje.  É necessário superar o ideal de pureza, um bom caminho para construir um mundo mais cosmopolita e menos obcecado pela homogeneidade, pelo uno, pelo mesmo e pelo redundante. 

2 comentários:

Alle Rodrigues disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alle Rodrigues disse...

Excelente texto!