Europas

Publicado na Gazeta do Sul em 03/03/2012



A crise europeia tem suscitado inúmeras análises sobre o futuro do velho continente. Dentre as questões que estão na pauta do dia está a chamada “Identidade Europeia”, conceito paradoxal e ainda incipiente mesmo depois de meio século de União Europeia, considerando os primeiros passos nos anos 1950. Falar de identidade europeia nos traz inúmeros problemas. Zigmunt Bauman, intelectual polonês e um dos mais influentes hoje, escreveu um livro intitulado Europa justamente propondo uma revisão do papel da “civilização europeia” no mundo contemporâneo. Historiadores como o alemão Walter Laqueur, da mesma forma, tem se debruçado sobre os problemas atuais da Europa. Inevitável a pergunta: o que é a Europa afinal de contas, e quais as condições para a construção (invenção) de uma identidade europeia? Sabemos que “identidade cultural” é um conceito complexo, geralmente mal-entendido. Segundo muitos pesquisadores, temos tendência a naturalizar a cultura e as identidades culturais, como se essas fossem inatas e objetivas. Na realidade, as identidades são vividas na mente, e o que temos são narrativas identitárias que procuram construir sentido e conferir às “comunidades” condições de pertencimento. Ora, esse é um problema histórico enorme para os europeus. A Europa hoje é um continente tributário dos resultados da II Guerra Mundial, ou seja, as potências, outrora imperialistas e difusoras de conceitos como civilização, não resistiram à independência de suas antigas colônias afro-asiáticas, miserabilizadas durante séculos. O processo migrantista oriundo do processo de descolonização afro-asiático contribuiu para desestabilizar os já duvidosos Estados-nação, colocando abaixo a segurança das identidades culturais/nacionais. Esses imigrantes, antes desejados, tornaram-se um problema com o reavivamento dos discursos etnicistas e neonacionalistas dos anos 1980 em diante. Rasuram identidades e maculam a ideia de povo/etnia, basilares, no passado, do discurso nacional.

A crise atual tem reavivado inúmeras especulações. Para Laqueur, que concedeu uma entrevista à revista Veja de 1° de fevereiro, os europeus precisam responder à crise mas têm se mostrado incapazes, desmobilizados e pouco identificados com uma “cultura europeia”. Argumenta que seria necessário, para romper esse imobilismo, um nacionalismo europeu, ou seja, um forte sentimento de identidade nacional que faça com que “um cidadão esteja disposto a se sacrificar por aqueles com quem compartilha da mesma identidade”.

O argumento é fraco, está amparado na sombra da antiga ideia de Estado-nação. Uma percepção identitária redentora das coletividades homogêneas que, de fato, revela a dificuldade dos europeus em responder à crise. A Europa parece mais uma virtualidade, um continente de fronteiras historicamente incertas e que jamais conseguiu fazer com que seus pequenos países conseguissem paz duradoura. O desafio está posto!








Um comentário:

Anônimo disse...

Oi Mozart! A europa tem salvacao! Ela vai virar muçulmana daqui a uns 30 ou 50 anos, ai esses "novos europeus" nao vao mais nem ligar pra nacionalismos. Abracos da alemanha, Marcelo