Machado de Assis, intérprete do Brasil

Publicado na Gazeta do Sul, 06/03/12



É sempre bom voltar a Machado de Assis. Dentre tantos contos imprescindíveis, gostaria de chamar a atenção para O Conto do Espelho. Neste, Machado nos permite vislumbrar códigos sociais estruturantes da sociedade brasileira que merecem a nossa atenção pela impressionante atualidade. Para lembrar o conto: Cinco homens conversam. Um deles, Jacobina, permanece em silêncio até que resolve se manifestar. Solicita que não seja interrompido e começa a contar um episódio curioso da época de juventude. Aos vinte e cinco anos, Jacobina havia sido nomeado Alferes da Guarda Nacional. Desse momento em diante, passou a ser adulado e mimado por todos os familiares. Essa nova “identidade” fora marcante ao ponto de tomar conta da existência/personalidade de Jacobina. Certa ocasião, fora convidado a passar um tempo no sítio de sua tia Marcolina, que, em função de um imprevisto, deixa o lugar aos cuidados do sobrinho. Antes, contudo, para agradá-lo, coloca um grande espelho de moldura barroca em seu quarto. Sozinho, o Alferes entra em seu quarto e repara que ao fitar o espelho quando estava sem a farda, seu espectro se distorcia e desaparecia. Quando estava com a farda, porém, sua imagem reaparecia com nitidez. O fenômeno inusitado fez Jacobina perceber que sua existência estava encapsulada pelo papel de Alferes. O conto segue brilhantemente, deixo à curiosidade dos(as) leitores(as).
Machado, para além da problemática dos papeis sociais, toca numa questão fundamental sobre a construção do indivíduo no Brasil. O indivíduo moderno, abstrato, que rompe com a lógica familial de existência, tem, no Brasil, outra configuração. Precisamos pessoalizar as relações e quebrar os formalismos para que possamos existir com plenitude. Sérgio Buarque de Holanda observa que a vida em sociedade é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que o brasileiro tem em viver consigo mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da existência. E é por isso que "sua maneira de expansão para com os outros reduz o indivíduo, cada vez mais, à parcela social”. Se é correto afirmar que a condição da individualização é a relação com a diferença, com o outro, como referência da construção do eu, é correto afirmar ainda que, no caso brasileiro, a existência ocorre no "viver nos outros". Quando Jacobina fitava o espelho sem a farda era o vazio e a existência fugidia do indivíduo que se manifestava. A farda era a condição de existência, pois era com ela que podia se apoiar no olhar e consideração dos outros. Uma existência consumida pelo papel social que tomava as energias do indivíduo, em seu isolamento existencial. A angustia de Jacobina quando estava só na casa da tia Marcolina, revela também este pavor de apoiar-se em si mesmo. Nossa necessidade de papeis sociais que imponham alguma admiração, hierarquia e, vale frisar, aparência, é notável, e atual.


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