Trânsito e sociedade

Publicado dia 17/03/12 na Gazeta do Sul


Historicamente, os meios de transporte se constituem em excelente objeto de estudo sobre os comportamentos sociais e “identidades culturais”. No caso brasileiro, são muitos os estudos que procuram relacionar o comportamento no trânsito com os códigos sociais. Desde o século XVIII, quando as principais vilas e cidades brasileiras dos tempos coloniais revelaram certo crescimento, o espaço das ruas passou a ser disputado por palanquins e liteiras (onde senhores(as) brancos(as) eram carregados por escravos), carroças e carruagens, escravos de ganho e ambulantes, e outros tipos sociais que começavam a acelerar a vida urbana. No século XIX, com a iluminação urbana nas principais cidades e o crescimento populacional, as ruas passaram a ficar estreitas e movimentadas, inclusive à noite. Problemas como atropelamentos, acidentes e imprudência (muita imprudência) foram logo se tornando rotineiros. Com os automóveis, no século XX, mesmo com as reformas urbanas, o trânsito se tornou um problema crônico. Mas não podemos simplificar demais esse fenômeno.

O comportamento no trânsito mostra como as hierarquias sociais marcaram território, como a arrogância e o desprezo por pedestres eram, na realidade, o reflexo de uma postura privatística na esfera pública. Fazer do espaço público um espaço de privilégio social que sempre fez das normas e leis uma obrigação para os outros, desprezados sociais, no caso, os andarilhos. O trânsito reproduz nossa negação da igualdade social e nossa busca constante por verticalizar relações e obrigações. Carros possantes contrastam com carros menos glamourosos, carros menos glamourosos contrastam com pedestres e assim por diante. As leis de trânsito, que deveriam ser iguais para todos esses atores sociais, passam a ser ignoradas por aqueles que imaginam que sua condição de superioridade (revelada muitas vezes pelos veículos) autorize ignorá-las. Como não podemos nos distinguir pelos nossos palanquis e liteiras de outrora, quando escravos e pedestres deviam ceder lugar às pressas aos “superiores sociais” (senhores de escravos e nobres), usamos nossos automóveis como sinal dessa condição de superioridade que nos autoriza a subjulgar aqueles que se arriscam diariamente nas ruas. Nossa mania de grandeza e distinção social teima em contornar os princípios da igualdade que deveria ser a regra nos espaços públicos. As ruas, por sinal, deveriam ser o espaço público privilegiado das “pessoas” (leia-se indivíduos de direitos). Não o são, se constituíram no espaço privilegiado dos automóveis e seus motoristas que os usam como armaduras poderosas e arrogantes de distinção. Foi assim no passado, continua a ser assim no presente. Não é o trânsito o problema, é a nossa cultura que jamais conseguiu se conformar com a ideia de igualdade de direitos. Talvez seja por isso que desprezamos tanto os transportes públicos. Nesses, somos indivíduos iguais.

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