48 anos de ditadura militar

Publicado na Gazeta do Sul no dia 31-03-2012


No 1° de abril de 1964 começávamos a viver a tragédia anunciada em 1954, mas postergada pelo suicídio de Vargas. O 1° de abril de 1964 deverá permanecer na memória como o dia em que uma ditadura criminosa tomou o poder, impôs uma moral conservadora, censurou a imprensa, as artes e as manifestações culturais e arrasou o sistema educacional brasileiro. Penso que a maior herança da ditadura militar no Brasil foi justamanete a falência da educação, a desumanização dos saberes e, o que é pior, o preconceito contra o pensamento crítico. É importante não esquecer o que significou para a formação dos brasileiros as Diretrizes Educacionais criadas pela lei 5692/71, que impôs uma educação tecnicista e pouco reflexiva. Uma legislação que extinguiu o pensamento humanista e filosófico, transformou o conhecimento histórico num anedotário nacional e amputou a língua do país com a extinção do Latim. Os resultados dessas Diretrizes puderam ser percebidos claramente anos depois, quando uma geração inteira já havia passado pelos bancos escolares. Enquanto a Europa e EUA viviam as profundas transformações culturais que marcaram os anos 1960-70, como é o caso de maio de 1968 na França, nós nos despreparávamos para os assuntos político-culturais do futuro e, o que é trágico, vivíamos sob a égide do AI-5, o ato mais criminoso da história legislativa do Brasil.

Um executivo centralizador, um parlamento de fachada e um judiciário domesticado ofereciam as condições perfeitas para o exercício truculento e arrogante do poder. Em nome de uma tese duvidosa sobre Segurança Nacional, a ditadura militar promoveu a insegurança, o medo e a violência. Não estávamos sozinhos nessa aventura trágica de viver numa ditadura, a América Latina como um todo viveu anos sombrios, com regimes de terror como no Chile e Argentina. Os militares no Brasil não inventavam nada muito novo, seguiam uma cartilha já surrada e modelar para a América Latina. A tese da Segurança Nacional alinhava o Brasil com os EUA num contexto marcado pela Guerra Fria, mas essa tese não era nova. O próprio Getúlio Vargas lançou mão da Segurança Nacional quando inventou o ardiloso Plano Cohen, segundo o qual o Brasil seria invadido pelos comunistas, para instituir a ditadura do Estado Novo (1937-1945).

Passados quase três décadas do final da ditadura militar no Brasil, é preciso não deixar que a memória desse período seja colocada no lixo da História. É preciso publicar as memórias, levantar os arquivos e os depoimentos e escrever a História subterrânea desse período que ainda chega a nós, e não apenas de forma residual. O próprio arranjo político que encerrou o governo Figueiredo e elegeu de forma indireta Tancredo Neves nos é caro até hoje, sobretudo se considerarmos que Sarney, um aliado do regime - e atual Senador e parceiro político dos governos Lula-Dilma - acabou por assumir o poder de forma ainda obscura. 

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