Neoliberalismo e liberdade

Publicado na Gazeta do Sul, dia 07/04/2012


Arrisquemos afirmar que se na era liberal a sociedade havia criado uma lógica para a economia, hoje, na era neoliberal, é a economia que acaba por criar uma lógica para a sociedade. Vivemos, de fato, numa sociedade em que o consumismo, o empreendedorismo e a lógica das corporações se constituíram como valores sociais basilares para a construção dos sujeitos. Esta é uma sociedade que se organiza sob a égide do individualismo “responsável”, pois, parando para pensar, veremos que hoje nos hiper-responsabilizamos por tudo a nossa volta, inclusive pelas coisas que o Estado, outrora, fora responsável. Se sua casa foi invadida, a culpa é sua que não instalou alarmes ou grades. Se você não tem uma boa formação educacional para um mercado competitivo, a culpa é sua que não investiu em educação. Se você está doente, a culpa é sua que não investe num plano de saúde que te garanta um atendimento mais humano. Vale notar que, sob a falácia da igualdade de oportunidades, aquele que fracassa deve culpar a si próprio pelo seu fracasso. Hoje devemos nos tornar empreendedores de nós mesmos e, assim, garantir nossa inclusão na sociedade de consumo. Temos que nos tornar homo economicus e fazer do sucesso uma ética da existência. É preciso evitar/desprezar os losers, aqueles fracassados sociais candidatos a párias.

A mercantilização da sociedade contemporânea é o grande êxito do neoliberalismo. Mercantilização da gestão, geralmente cínica, da educação, geralmente um engodo, da ética, geralmente cobrada dos outros, e assim por diante. Transformação do sentido da vida em matéria de gestão, calculada, proativa, dedicada, feliz e ingênua. Pensar a vida na ordem das corporações, eliminar as fronteiras do trabalho e da vida privada, uma conquista infalível para o sequestro das subjetividades e transformação da casa na extensão do escritório.

Na era neoliberal, a liberdade é um valor fundamental, pois, segundo os princípios da sociedade aberta, ela é a condição que permite que os sujeitos possam ser empreendedores de si. Eis aqui a vitória de uma sociedade que garante seus mecanismos de controle a partir da virtualidade da liberdade. O controle hoje está no próprio ato da liberdade, ou seja, nós optamos e nos oferecemos voluntariamente e livremente às agencias que nos controlam: queremos nossos IPs, e-mails, GPSs, cartões de créditos, etc. É importante que estejamos incluídos, que nos encaixemos nos perfis desejados pelo mercado/sociedade.

Na era neoliberal há também uma obesidade da palavra. Nunca se pôde dizer tanto e se expressar tanto como nos dias atuais. E é justamente esse fenômeno que legitima o sentimento de liberdade, porém é preciso considerar que essa proliferação do dizer retira a densidade crítica dos discursos. É a proliferação do conhecimento superficial e egocentrado, como na “literatura” de autoajuda. Ousemos dizer que na era neoliberal temos “menos” estado e mais governo.


Nenhum comentário: